Entrevista com Gilmar Bolla 8, membro fundador da Nação Zumbi e do Combo X - #submundodosom

Posts

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Entrevista com Gilmar Bolla 8, membro fundador da Nação Zumbi e do Combo X

Extraido do Livro - Manguebit a Revolução da Lama de Jeff Ferreira


Gilmar Correia da Silva, mais conhecido por Gilmar Bolla 8 ou Boina, é o percussionista da Nação Zumbi, tocando sua alfaia, é um dos fundadores da Movimentação do Manguebeat. Gilmar Bolla 8 também é vocalista do grupo Combo X, que mistura a percussão do maracatu com os ritmos modernos do rap e rock.

O Malungo concedeu entrevista exclusiva para esse livro, onde detalha seu ponto de vista sobre o Manguebit e a cena atual da música em Recife, como também relembra o inicio do movimento e a construção de Chico Science & Nação Zumbi. Abaixo a entrevista na integra:

Primeiramente agradecer ao parceiro Gilmar pela colaboração nesse projeto, e pela sua importância histórica no movimento Mangue.

Quem é Gilmar Bola 8 como pessoa e como músico? Quais as origens e influências em sua vida?

Gilmar Bolla 8 é uma pessoa calma, que leva uma vida normal, de um cidadão brasileiro normal. No palco gosto de trabalhar música, por isso sou uma pessoa calma, estou realizando minhas vontades naquele momento, que é o momento de celebração do dia, que é o show.
A influência é de música africana, afro-brasileira, música de terreiro mesmo, música do subúrbio, essa é minha influencia. Gosto também de black music, das música que tocava nas FMs dos anos 80, Afrika Bambaataa, outras coisas que tocavam também, como Gilberto Gil, Caetano Veloso, todo aquele ramo da MPB que tocava na FM, Alceu Valença. Meu pai também tinha muitos discos em casa, então escutei muita coisa dele, Martinho da Vila, Ari Lobo, Jacson do Pandeiro, várias coisas de gafieira, afro-cuba, samba enredo, forró, Luis Gonzaga, é isso.

Minha origem é de um cidadão que não é um classe média, mas transito normal pela sociedade, normal. Sou uma pessoal normal.

Como era o cenário musical de Pernambuco antes do instinto coletivo do Manguebit?

Pernambuco não tinha essa cara musical que tem hoje, agente fazia pequenos shows, tinha muitas bandas, mas bandas de cover, e também tinha muitas bandas que gravavam, mas não tinham projeção nacional. Quando surgiu o Mangue, que a mídia falou que era o movimento Manguebeat, era a cooperativa de duas bandas que se juntavam e alugavam um salão, ou um bar para fazer uma festa, era bem pequeno esse intuito de lançar disco, quase não se ouvia falar de uma banda que ia lançar disco. Hoje não, agente já consegue fazer 60 discos por ano. Teve ano que Recife foi o lugar que mais lançou disco, hoje agente tem uma lei de incentivo no estado que ajuda qualquer banda que esta começando a lançar um disco.

Como começou a idéia de fazer analogias entre o a geográfica local com o habito das pessoas, ou seja, relacionar o mangue com Recife e essa história de Manguetown?

Essa coisa de colocar o dia-a-dia nas músicas, isso normal, por que as músicas que agente faz, principalmente a Nação Zumbi, é uma música bem regional com pitadas de universal, assim com guitarras elétricas e instrumentos elétricos, como sampler, baixo, guitarra, teclado. Então a música da gente é uma música regional e por serem usados instrumentos eletrônicos ela se torna universal.

Como se formou  a banda Chico Science & Nação Zumbi? Como você conheceu o Chico? Conta essa história.

Eu conheci Chico em uma empresa de processamentos eletrônicos da prefeitura, ele falou que gostava de musica eu também falei que gostava e que tinha uma banda, ele procurou saber que banda era essa. Eu falei que era uma banda de Samba Reagge e que tocava covers de Olodum e outros grupos Afros, e que as mensagens que essas musicas passavam era de auto-estima do povo negro. Chico era muito ligado a essas coisas de Panteras Negras, de black music, e ele falou que também tinha uma banda, e que a banda dele tocava funk, rock, e que tava ligada nesse processo de conscientização do negro.

Então levei ele para um ensaio num lugar chamado Daruê Malungo, que é no bairro de Chão de Estrelas, que já é Recife, por que Peixinhos, onde eu morava na época, é Olinda. Então o levei pra ver um ensaio no dia de sábado no Daruê Malungo e lá ele começou a se identificar com o que viu: aula de capoeira, aula de dança, de frevo, gente plantando milho pra colher, pra comer, era uma horta, um quilombo urbano. La se trabalhava todo esse tipo de cultura que agente vê aqui nos bairros de Recife ou da Zona da Mata, lá tudo isso agente trabalhava, tudo isso. Então ele começou a freqüentar mais o Daruê Malungo e participar de algumas apresentações do Lamento Negro.

Foi ai que rolou o convite da gente fazer uma banda juntos, Chico disse: “Vamos fazer outra banda, vamos juntar os meninos do Lostal com os meninos do Lamento Negro, e fazer uma grande alquimia musica”, então quando foi um dia ele ligou no meu ramal, lá na EMPREL, onde a gente trabalhava, e ele falou: “Eu já tenho um nome pra essa banda, o que você acha de Zumbi?”.

Ai eu disse: Zumbi? O Zumbi que eu conheço é um líder negro, o líder dos quilombos dos Palmares”. Ele disse “esse mesmo, eu to com vontade de colocar Nação Zumbi. Chico Science & Nação Zumbi”. Então ele falou que Nação era por causa das nações do maracatu, que era coisa das nações africanas e Zumbi em homenagem ao Zumbi dos Palmares. As pessoas já chamavam ele de Chico Science, por causa das misturas que ele fazia na música, então chamavam ele de cientista, ai virou Chico Science, quem colocou esse apelido nele foi Renato L, então ele [Chico] juntou os dois nomes e surgiu o Chico Science e Nação Zumbi.

Qual foi o melhor momento que você viveu ao lado da Nação Zumbi?

Os melhores momentos da Nação Zumbi foi agente compor todos esses discos que agente compôs até hoje. E quando era mais jovem, assim no primeiro disco e no segundo, quando o Chico estava, o processo era bem democrático de criação da música, aonde qualquer um podia puxar um tema e ser seguido e depois ser trabalhado até virar uma música, e esses primeiros discos foram bem bacanas, até por que Chico estava presente e ele sempre dizia quais eram as bases que ele queria cantar, e ai agente ficava trabalhando mais até chegar em um denominador comum pra todo mundo e o Da Lama ao Caos e o Afrociberdelia são bem isso ai, foram bem legais de compor esses discos.

Como é o processo de composição da banda?

Então, agente entre no estúdio e começa a tocar vários temas e um tema que tem muito a cara da banda ou que tem alguma coisa que já se parece com o que o vocalista, no caso o Jorge Du Peixe, quer cantar, agente começa a trabalhar mais essas bases até virar música.

Vocês pensaram em parar com  perca do Chico?

Não, quando a banda se juntou pela primeira vez, depois que Chico tinha falecido, foi um momento bem triste, agente tava numa sinuca. Um artista plástico, chamado Forfun, reuniu todo mundo, acho que o Andre também tava ali junto, pra dizer que continuasse, que era uma coisa que Chico queria, e agente ficou pensando nisso, uma coisa que Chico lutou tanto pra fazer, que foi essa banda, e só por que ele se foi agente não pode parar com isso, mas agente tinha que se recuperar daquele baque.

Então foi uma coisa bem lenta, até voltar de novo, ai agente foi convidado para fazer um festival, chamado Festival Heineken, que o Arthur Linds convidou agente, e foi bem bacana, agente deu o start ali, depois que Chico faleceu agente deu o start ali pra voltar à banda, no Festival Heineken, convidado por Arthur Linds.

O que mudou no Manguebeat depois de Chico? Você acha que o movimento enfraqueceu?

O movimento com Chico à frente, esse ninguém iria ver mais, por que Chico havia falecido, mas continuamos a fazer discos, o Mundo Livre continuou a fazer discos. Mas em Recife tem uma coisa assim: as pessoas que trabalham com músicas não divulgam a música do recifense. Então isso parece que enfraqueceu, mas as pessoas que fazem a música ainda continuam fazendo seus discos, fazendo suas produções, e continuando fazendo suas turnês, nacional e internacional, por isso eu acho que o movimento mangue, o movimento de Recife de música não parou. As expressões que estavam juntas naquela época, o cinema, o teatro, a moda, todas as pessoas continuam fazendo isso em grande escala. Acho que continua ainda a coisa do movimento mangue.

Nos tempos de Science as letras faziam referencia a lama, mangue, caranguejo e etc. As novas letras da Nação, ou mesmo de outras bandas pós explosão do Manguebit, não trazem essa mesma referência. A que se deve esse fato?

Esse fato se deve por que Chico se inspirava em Josué de Castro pra falar e compor as músicas dele, e algumas coisas ele queria juntar sociologia com natureza, e era como ele comparava as pessoas que viviam do mangue, do rio, do mar. Como a cidade é uma cidade estuário, onde existem rios desaguando no mar, e as pessoas vivem de vender frutos do mar e tal é quando faz-se essa analogia ao mangue mesmo. E hoje Jorge compõe muita coisa assim, e não traz isso a tona pra não ser igual a Chico, ele tem o jeito dele de compor, e Fred Zeroquatro também.

Nos primeiros shows de Chico Science & Nação Zumbi e do Mundo Livre, com os olhos da cidade, com os olhos daqueles primeiros repórteres que começaram a nos ver, quando a banda era demo ainda, agente conheceu um jornalista que se chamava Zé Teles, e ai ele comparou os dois jeitos de escrever, que era o de Chico e o de Fred Zeroquatro. Ele disse que Fred Zeroquatro tinha mais o estilo Bandido da Luz Vermelha e pediu pra Fred ler esse livro, e para Chico, ele comparou as coisas que Chico escrevia com Josué de Castro, e falou de Josué de Castro que era um sociólogo pernambucano e pediu pra Chico ler “Homens e Caranguejos”, Chico leu também e se identificou muito com isso.

Como você vê o Manguebit, em relação as áreas que o movimento influenciou, como a moda, literatura, artes plásticas e etc. Há muito trabalhos de conclusão de faculdades e pós graduação sobre o Manguebit, como é isso pra você?

Então, já dei inúmeras entrevistas pra universitários de algumas partes do mundo, do Canadá, dos Estados Unidos, da Europa também já veio muita gente atrás procurando saber do Manguebit.

Eu acho que o Manguebit foi bem longe, atingindo outros continentes, e quando se começou isso, era só uma brincadeira para se injetar energia em Recife que já foi a quinta pior cidade do mundo.

E hoje em dia? O que é o Manguebit?

Manguebit hoje em dia, quando se fala Manguebit se lembra logo de Recife e se lembra da música que recife faz, apesar da gente ter influenciado na literatura, no cinema, na moda, mas quando se fala Manguebit se lembra logo da música pernambucana.

E o Combo X? Como urgiu essa idéia? O que é exatamente esse projeto?

O Combo X começou logo com Combo Percussivo, que era oficinas que eu dava junto com algumas pessoas lá de Peixinhos, então agente conseguiu juntar vários ogans de candomblé e alguns meninos que estavam começando na percussão também, e ai quando eu estava em Recife eu me ocupava com o Combo Percussivo, e depois de três anos agente trabalhando essa coisa do Combo Percussivo, de percussão e de voz, agente participou de um festival de musica patrocinado pela prefeitura de Recife, e nesse festival agente conseguiu ficar em terceiro lugar. Como agente não ganhou premiação, já que o primeiro prêmio era um disco, era compor um disco, agente não desanimou e ai fizemos o nosso disco que começava tudo pela percussão.

Só que o disco foi ficando bem legal, e algumas participações de guitarra, de teclado, de baixo e de sopro e viraram outras musicas e ficou mais pop e ganhou novos arranjos. E hoje a gente chama de Combo X, porque o décimo integrante da banda faleceu, e agente mudou pra Combo X, representando o Arlisson. Chegamos a esse disco que já foi escalado até no Grammy como um dos melhores discos da America Latina.

Qual a maior dificuldade de ser músico no nordeste brasileiro? É difícil levar shows para o sul e sudeste?

É difícil! Levar os shows até o sudeste é difícil. Por que somos uma banda sem gravadora, sem grandes patrocinadores para divulgar a música, então agente trabalha no underground, trabalha no subterrâneo. Quando uma empresa como o SESC-SP se interessa pelo show da gente é que nós podemos ir ate o sudeste, saindo daqui.

É difícil aqui no nordeste, por que a cidade que agente mora, Recife, é uma cidade pequena, e não tem tantas casas de shows. Tem casas de shows de porte grande e pra elas uma banda como o Combo X não é interessante estar lá, por que agente não tem gravadora, e não é interessante trabalhar com uma banda do subterrâneo recifense.

As rádios também não tocam as musicas, por que não tem gravadora pra dar um apoio financeiro às rádios, e ai a bola de neve só faz aumentar, por que os DJs local não tocam, ao contrario de uma cidade como Belém, aonde você mesmo faz sua produção caseira, e de dentro de casa consegue tocar na rádio essa mesma produção, e consegue vender na cidade mesmo esse disquinho feito em casa. Aqui em Recife se tornar difícil, as pessoas daqui mesmo não divulgam, as rádios não tocam, os DJs não tocam, então começam a ficar difícil.

Qual a diferença da Nação Zumbi pro Combo X, ou de outros projetos como Maquinado, Los Sebosos Postizos ou Afrobombas?

Combo X é um trabalho que começou na comunidade, é um trabalho social, é um trabalho de ocupação da garotada que toca. A Nação Zumbi, uma parte dela vem dessas coisas do social, do trabalho social, que eram os percursionistas do Lamento Negro, e agente tinha aquela coisa de inclusão social.

Chico Science e Nação Zumbi começaram com essas duas bandas Loustal e Lamento Negro, só que gente assinou com uma grande gravadora, uma multinacional, que era a Sony, que logo no primeiro disco colocou uma música na novela, onde todo o Brasil conheceu a música. E o Combo X não tem esse suporte de ter uma música na novela ou a música tocando nas grandes rádios do país. Ai é difícil chegar a um nível de conhecimento nacional.

Acho que não tem diferença não, Nação Zumbi é música, Combo X é música, Maquinado é Música, Los Sebosos é música e Afrobombas é música, Talvez a diferença seja geográfica, Chico Science e Nação Zumbi, foram feitos aqui os primeiros discos, foram compostos aqui em Recife. Maquinado é um projeto que Lucio Maia fez lá em São Paulo, ele compôs em São Paulo então tem a vibe de São Paulo, a mesma coisa com o Afrobombas, Jorge compôs o disco lá, em São Paulo, todos os músicos são de São Paulo, e o Combo X é enraizado aqui em Olinda, e a vibe vem daqui mesmo e tal, como era Chico Science e Nação Zumbi.

Quais as perspectivas para a Nação Zumbi daqui pra frente? Vem ai novo disco? Novas idéias?

Vem ai disco novo patrocinado pela Natura, a novidade é essa, que agora a Nação Zumbi trabalha com editais, como esse da Natura, pra começar a fazer uma turnê e viabilizar shows, é isso.

Confira o disco do Combo X - "A Ponte"
 
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário