Aguentando a ôia do Mundo Livre S/A - #submundodosom

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sábado, 21 de janeiro de 2017

Aguentando a ôia do Mundo Livre S/A


O Mundo Livre S/A chega em 1996, em meio a grandes perdas na música brasileira, como a morte dos Mamonas Assassinas e de Renato Russo, o que culminou na também perda da Legião Urbana, Zeroquatro e sua banda entram no teste no segundo disco, trazendo o fervoroso Guentando a ôia, nome, como Fred explica no programa Ensaio da TV Cultura, significa apostar, pode ser aposta no galo de briga (capa do CD), apostar na raspadinha, no sinônimo de sorte, ou pode ser no dia a dia como sendo “guenta a ôia do cara” que pode ser se apropriar de algo de outra pessoa, até mesmo tirar a vida.

Samba Esquema NoiseHavia se passado dois anos do disco de estreia, . O manguebit, como movimento colhia seus frutos, as bandas pernambucanas produziam, faziam shows, excursionavam, fazendo o trecho da música “destruindo a camada de ozônio” ser mais verídico do que nunca: “pois o que era velho no norte, se torna novo no sul”, assim letras antigas ganhavam os auto falantes.

O segundo disco do Mundo Livre já não trazia aquela estética do mangue, com letras desenhadas para isso: caranguejo, satélite, antena, lama do mangue são palavras não tão presentes como em 1994 com o Samba Esquema Noise e Da Lama ao Caos, ou mesmo no Afrociberdelia do Chico Science & Nação Zumbi, também de 1996, o fato é que o segundo disco de Fred vem violento, guitarras pesadas ditam o ritmo, não tão suingado, mas que não te deixa parado, e as letras, de forte cunho político trazem a tona a máxima do manguebit “diversão levada a sério”.

A paulada começa com Free World, linhas de baixo precisas, guitarras impiedosas, back vocal e um cavaquinho, esse é o cartão de visita do disco, a letra é pequena, porém o som é auto e cita as linhas de ônibus do Recife:
De Rio Doce a Piedade
De Barra de Jangada até Casa
Caiada
Fuleiragem
Maresia
Malandragem
Regalia
Salve Zero Quatro
Salve...
Salve a música

A segunda faixa passa pela reflexão sobre a degradação do meio ambiente, em Destruindo a Camada de Ozônio, outra canção rápida e pesada lembrando o punk rock dos anos 80, com presença de Chico Science nos vocais, em um dos pouquíssimos registros dos dois caranguejos com cérebros dividindo vocal:

Não espere nada do centro
Se a periferia esta morta
Pois o que era velho no norte
Se torna novo no sul
Eu tenho feito samba pesado
Misturado sons, inventado estilos
Repensando o sucesso
E destruindo a camada de ozônio

Computadores fazer Arte, regravação que saiu pela primeira vez na voz de Science e Nação Zumbi, porém a letra de Zeroquatro, menos melódica e mais rápida, com peso fundamental na bateria é a versão Mundo Livre, dos já conhecidos trechos:

Computadores fazem arte
Artistas fazem dinheiro
Cientistas criam o novo
Artistas pegam carona
Pesquisadores avançam
Artistas levam a fama

Quarta faixa é Desafiando Roma, que lembra o subcomandante Marcos, que será lembrado novamente no segundo manifesto do Manguebit.

Marcos é um guerrilheiro mexicano de origem zapatista, é o porta voz do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) que exige democracia, liberdade, terra, pão e justiça para os índios.
Zeroquatro apoia a luta do herói:

Salve Marcos !
Salve, salve!
Combatente da contra-informação
Envenenando as redes
Cyberpunk com fuzil na mão
Disseminando a contra - hegemonia

A quinta música fecha o lado A do disco, A Música que Os Loucos Ouvem (Chupando balas), traz uma crítica a sociedade moderna e seu comportamento oposto do que deveria ser, a canção é mais lenta, porém trás a reflexão explícita:

Essa não é a musica
Que os arcebispos ouvem
Quando estão fornicando
Esta não é a música
Que as enfermeiras ouvem
estão quando matando

Fred finalizá novamente lembrando de Marcos e de Sandino, revolucionário da Nicarágua que lutava contra a presença dos EUA no país.

Faixa 6 é Tentando entender as Mulheres, uma letra cômica e ao mesmo tempo triste, o samba rock mais meloso ganha vez:

Todo homem deveria ter um carro
Ou senão nem precisava ter testículos
De que serve um testículo sem carro?
Sem o carro o testículo é um saco

A próxima canção se chama Girando em torno do Sol, que trás incríveis riffs de guitarra em um som bem ao estilo oitentista:

Eu vou pro centro do sol
Eu to no centro do sol
(No centro do sol com você)
Com você eu to no centro do sol
Eu vou girando
Girando em torno do sol

A faixa 8 é o samba com baixo e bateria rock n’roll de Seu Suor é o Melhor de Você, com letra mais debochada o recado é dado:

Você quer fuder com o mundo
Basta abrir as pernas
Deixe o resto pra mim
Guarde pra mim, guarde pra mim
Guarde tudo, tudo pra mim

Militando na Contra Informação ataca o controle da mídia, principalmente a TV Globo, e faz críticas ao governo do PSDB, a música não é bem uma canção, trata-se de trechos retirados da conversa entre o ex-ministro Rubens Ricúpero e o jornalista Carlos Monforte, que ficou conhecido como o escândalo da parabólica, pois em 1994 começa a ascensão das antes no Brasil, nem todos tinham uma dessas, mas quem possuía pode ouvir a conversa que não iria para o ar.

Abaixo um trecho de uma matéria do O Globo sobre o episódio:

"Enquanto esperavam o início das gravações, uma conversa informal entre os dois foi captada acidentalmente por algumas antenas parabólicas domésticas, que estavam na mesma frequência do sinal emitido via satélite pela Embratel. O incidente teve grandes repercussões, pois Ricupero admitiu usar eleitoralmente os indicadores econômicos positivos do governo em favor do candidato do PSDB. Entre outras afirmações, disse não ter escrúpulos de esconder o que era ruim e divulgar o que era bom. O ministro chegou a citar a TV Globo, alegando que ele, Rubens Ricupero, era um “achado” para a emissora, que em vez do “apoio ostensivo” à candidatura FHC podia colocá-lo nos seus telejornais, numa espécie de apoio indireto. "

Leonor é a próxima faixa, um samba meloso, com a voz de Fred Zeroquatro chapada de pitú (cachaça) seguido de cavaquinho, atitude extremamente punk, já que o som é gravado em um único take, após Miranda, o produtor acordar Fred na madruga para o registro. Arisco a dizer que a Leonor seria uma gíria para cocaína, a canção começa com: “Essa vai para todos que fora ou são dependentes de (fungada no nariz) Leonor” e decorre:

Ah, Leonor
Cheira essa flor que eu roubei pra te dar
Amiga, não sabes o quanto eu cheirei
Abrigo da minha dor
Por te amar

A faixa seguinte, a de número 11, é Roendo os Restos de Ronald Reagan, ex-presidente estadunidense que governou durante a guerra fria, a música é um hardcore e vocais semi-guturais que conta com a participação do Cannibal, da banda Devotos, do Alto José do Pinho, nessa faixa o MLSA desce a lenha no ex-presidente dos Estados Unidos e lembrando a com a lenda urbana do Recife da Perna Cabiluda:

Foi quando havia anunciado
Em rede na rádio do reino
“Quem encontrar uma perna cabeluda,
favor comunicar ao Rei!

 
O disco tem presença de Jorge Ben, mesmo sem ter a participação do mesmo, pois a influência nos vocais, arranjos e melodias estão em Pastilhas Coloridas, que faz criticas sociais aos momentos de crise da classe média, onde o dinheiro começa a faltar, e na falta da erva, qualquer outra droga legal bastava, então a cansão samba punk swingada de refrão ótima e letra:

Nossos campos de pelada de repente sumindo
E as mesadas diminuindo
Nossos pais na pressão
Desemprego em massa
A vizinhança gravando direto
E a marcação cerrada
Dos prestativos
Mas nem sempre gentis homens da lei
Amigos nas farmácias
E quando a erva faltava
Qualquer droga era boa

A faixa que leva o titulo do disco, Guentando a Ôia, fecha o disco, tem um tom de experimental, porém belíssimo rock ’n’ roll com cavaquinho e papo reto:

Nascido e criado no lixo
Quero saber se eu vou perder para bascuio
Amaro Bocão tá prontinho para me guentar
E o rebanho do pastor Marinho
Goza sofrendo
(E vice-versa)

Mundo livre tem um ótimo segundo disco, Guentando a Ôia, considerado o mais roqueiro e direto da banda. o CD foi lançado pelo selo Excelente Discos e produzido por Carlos Eduardo Miranda, foi bem recebido pela crítica, mas pouco acessível ao público, devido a pouca divulgação e distribuição da Excelente Discos, que nasceu após a dissolução do selo Banguela. O projeto gráfico tem o galo na capa, ciado por Michel Spitale, com o intuito de, numa loja de discos, chamar a atenção do ouvinte pela estética sem que esse conheça a banda. 

 Foto histórica do Miranda junto com a banda Mundo Livre S/A assinando contrato. (Foto retirada do livro do Frevo ao Manguebit de José Teles.

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