2017, 20 Anos de Sobrevivendo no Inferno - Racionais MC's - #submundodosom

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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

2017, 20 Anos de Sobrevivendo no Inferno - Racionais MC's


Em dezembro de 1997 os Racionais MC’s jogam na rua aquele que talvez tenha sido o disco que mais influenciou o rap nacional, é que agora em 2017 completa 20 anos de barulho. Bem vindos ao Sobrevivendo no Inferno.

Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay iniciam o álbum com uma releitura de Jorge Ben, com Jorge da Capadócia, em cima da base “Ike’s Rap II” do cantor estadunidense Isaac Hayes, leda da disco, do funk, do soul e R&B.

Em seguida Mano Brown declama sua poesia na faixa Genisis, uma vinheta de apenas 23 segundos, onde manda a letra:

“Deus fez o mar, as árvore, as criança, o amor.
O homem me deu a favela, o crack, a trairagem, as arma, as bebida, as puta.
Eu? Eu tenho uma bíblia véia, uma pistola automática e um sentimento de revolta.
Eu tô tentando sobreviver no inferno”.

A terceira faixa, desse que é o quarto disco dos Racionais, leva o estratégico nome Capitulo 4, Versiculo 3, antes do som começar, seguem algumas estatísticas sobre o negro no Brasil:

“60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial;
a cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras;
nas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negros;
a cada quatro horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo;
aqui quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente”

Em seguida com o sample Slippin’ Into Darkness do grupo War, de funk da Califórnia e é em cima da batida de Sneakin’ In The Back de Tom Scott & LA Express que Brown manda a bronca:

“Minha intenção é ruim, esvazia o lugar!
Eu tô em cima, eu tô a fim, um dois pra atirar!
Eu sou bem pior do que você tá vendo
Preto aqui não tem dó, é cem por cento veneno!
A primeira faz “bum!”, a segunda faz “tá!”
Eu tenho uma missão e não vou parar!
Meu estilo é pesado e faz tremer o chão!
Minha palavra vale um tiro, eu tenho muita munição!
Na queta ou na ascensão, minha atitude vai além!
E tem disposição pro mal e pro bem!
Talvez eu seja um sádico ou um anjo
Um mágico ou juiz, ou réu
Um bandido do céu!”

A faixa tem a voz marcante do Edi Rock, que complementa o discurso com:

“Quatro minutos se passaram e ninguém viu,
O monstro que nasceu em algum lugar do Brasil!
Talvez um mano que trampa debaixo do carro sujo de óleo,
que enquadra o carro forte na febre com sangue nos olhos!
O mano que entrega envelope o dia inteiro no sol
ou o que vende chocolate de farol em farol!
Talvez o cara que defende o pobre no tribunal,
ou que procura vida nova na condicional.
Alguém no quarto de madeira, lendo à luz de vela,
ouvindo o rádio velho, no fundo de uma cela!
Ou da família real e negro como eu sou,
um príncipe guerreiro que defende o gol!”

KL Jay junta seus conhecimentos musicais em sampler’s que compõem uma batida trip hop com marcantes notas de piano, naquilo que virou uma trilha sonora dos rolês periféricos.

Na música 4, Tô Ouvindo Alguém me Chamar, ou como ficou conhecida, a música do Guina, com seus 11 minutos e 15 segundos, um dos raps brasileiros mais longos, com o sample da música “Charisma”, de Tom Browne, é narrada a história:

“Pela primeira vez vi o sistema aos meu pés. 
Apavorei, desempenho nota dez.
Dinheiro na mão, o cofre já tava aberto.
O segurança tentou ser mais esperto, então.
Foi defender o patrimônio do playboy, cuzão. (tiros)
Não vai dar mais pra ser super-heroi.
Se o seguro vai cobrir (hehe), foda-se, e daí ?
Hamm… O Guina não tinha dó.
Se reagir, bum, vira pó.”

Quinta música Edi Rock mostra seu vozerão em Rapaz Comum, que começa com a um jogo do Santos na TV, até que alguem toca a campanhia, em seguida vários tiros são disparados, e a letra em cima da base do Public Enemy, “Black Steel in The Hour of Chaos”, se desenrola:

“Meu Deus! Eu não sei mais o que é pior.
Mentir a vida toda pra si mesmo.
Ou continuar e insistir no mesmo erro.
Me lembro de um fulano:
”mata esse mano!”
Será que errar dessa forma é humano?
Errar a vida inteira é muito fácil.
Pra sobreviver aqui tem que ser mágico.
Me lembro de várias coisas ao mesmo tempo.
Como se eu estivesse perdendo tempo.”

KL Jay mostra sua genialidade ao samplear o próprio Racionais com “Mano na porta do bar”, logo depois dos scratch's se ouve: “a lei da selva é assim, predatória preserve a sua glória”.

A Faixa 6 é instrumental, orquestrado pelo Edi Rock, e se chama reticências, assim “…”. Não há letra, apenas a experiência de bitmaker do Edi Rock.


Próxima música é o clássico Diário de um Detento, parceria da letra de Mano Brown com Jocenir, que foi um interno do complexo do Carandiru e escreveu o livro de mesmo nome da canção. O rap narra a vida do presidio, no ponto de vista de um detento, até o conflito conhecido como o “Massacre do Carandiru”:

“Lamentos no corredor, na cela, no pátio
Ao redor do campo, em todos os cantos
Mas eu conheço o sistema, meu irmão, hã
Aqui não tem santo
Rátátátá preciso evitar
Que um safado faça minha mãe chorar
Minha palavra de honra me protege
pra viver no país das calças bege
Tic, tac, ainda é 9h40
O relógio da cadeia anda em câmera lenta
Ratatatá, mais um metrô vai passar
Com gente de bem, apressada, católica
Lendo jornal, satisfeita, hipócrita
Com raiva por dentro, a caminho do Centro
Olhando pra cá, curiosos, é lógico
Não, não é não, não é o zoológico
Minha vida não tem tanto valor
Quanto seu celular, seu computador
Hoje, tá difícil, não saiu o sol
Hoje não tem visita, não tem futebol
Alguns companheiros têm a mente mais fraca
Não suportam o tédio, arruma quiaca
Graças a Deus e à Virgem Maria
Faltam só um ano, três meses e uns dias”

O sample da música fica por conta “Easin’ In” do Edwin Starr e de “Mother’s Son” do Curtis Mayfield. Vale lembrar que a música conquistou os prêmios de Melhor Videoclipe de Rap e Escolha da Audiência do Video Music Brasil (VMB) de 1998.

Na faixa 8 os Racionais fazem uma homenagem ao GOG, na música Periferia é Periferia em Qualquer Lugar, com vários samples do Poeta do DF, como “aqui a visão já não é tão bela”, “muita pobreza, estoura violência”, “vários botecos abertos, várias escolas vazias”, “mães chorando, irmãos se matando”, além do próprio titulo ser utilizada por GêóGê ná música Brasília Periferia do disco Dia a Dia da Periferia. Aqui Edi Rock manda a letra: 

“ Esse lugar é um pesadelo periférico
Fica no pico numérico de população
De dia a pivetada a caminho da escola
A noite vão dormir enquanto os manos “decola”
Na farinha… hã! Na pedra… hã!
Usando droga de monte, que merda, hã!
Eu sinto pena da família desses cara
Eu sinto pena, ele quer mais, ele não pára
Um exemplo muito ruim pros moleque
Pra começar é rapidinho e não tem breque
Herdeiro de mais alguma Dona Maria
Cuidado senhora, tome as rédias da sua cria
Porque chefe da casa trabalha e nunca está
Ninguém vê sair, ninguém escuta chegar”

A inspiração para a base veio do sampler de “Cannot Find a Way”, do Curtis Mayfield.

A faixa 9 é outro sucesso, Qual Mentira vou Acreditar também na voz de Edi Rock, com trechos de Ice Blue, e ainda pode-se escutar o Brown no refrão “A noite é assim mesmo…”, Enquanto que KL Jay comando os toca discos na base de Hip Dip Skippedabeat, do grupo Mtume. A letra mais debochada, ao som do funk, conta sobre as mentiras que um rolê na noite podem ser geradas:

Mudando as estações de rádio no rádio do carro, escutamos: “Chegou a Hora”, do Boi Garantido, e “Pode vir quente que eu estou fervendo”, do Barão Vermelho

“São apenas dez e meia, tem a noite inteira
Dormir é embaçado, numa sexta-feira
TV é uma merda, prefiro ver a lua
Preto Edy Rock Star a caminho da rua
Hã… sei lá vou pruma festa, “se pam”
Se os cara não colar, volto às três da manhã
Tô devagar, tô a cinquenta por hora
Ouvindo funk do bom, minha trilha sonora
A polícia cresce o olho, eu quero que se foda!
Zona Norte a bandidagem curte a noite toda
Eu me formei suspeito profissional
Bacharel pós-graduado em “tomar geral”
Eu tenho um manual com os lugares, horários, de como dar perdido”.

Ainda podemos ouvir um trecho de “Esquinas”, do Djavan, em um devaneio do Ice Blue.


A próxima faixa, é a de número 10, Mágico de OZ, na letra de Edi Rock, que fala sobre os meninos de rua, e tem na base sampler de “It’s too late”, do The Isley Brothers, a melodia de plano de fundo para a poesia:

“Aquele moleque, que sobrevive como manda o dia a dia
Tá na correria, como vive a maioria
Preto desde nascença, escuro de sol
Eu tô pra vê ali igual, no futebol
Sair um dia das ruas é a meta final
Viver decente, sem ter na mente o mal
Tem o instinto que a liberdade deu
Tem a malicia, que cada esquina deu
Conhece puta, traficante e ladrão
Toda raça, uma par de alucinado e nunca embaçou
Confia neles mais do que na polícia
Quem confia em polícia?”

Na música 11, Brown retoma o microfone na Fórmula Mágica da Paz, fazendo uma retrospectiva de sua vida em cima do sample de “Attitudes”, do grupo The Bar-Kays e em alguns trechos KL Jay homenageia o mestre Tim Maia, com “Me dê Motivos”. Então seguindo a filosofia da música que malandragem é viver, a reflexão fica assim:

“ Essa porra e um campo minado. Quantas vezes eu pensei em me jogar daqui, mas, aí, minha área é tudo o que eu tenho. A minha vida é aqui e eu não consigo sair. É muito fácil fugir mas eu não vou. Não vou trair quem eu fui, quem eu sou. Eu gosto de onde eu vou e de onde eu vim, ensinamento da favela foi muito bom pra mim. Cada lugar um lugar, cada lugar uma lei, cada lei uma razão e eu sempre respeitei, em qualquer jurisdição, qualquer área. Jardim Santo Eduardo, Grajaú, Missionária. Funchal, Pedreira e tal, Joaniza. Eu tento adivinhar o que você mais precisa. Levantar sua “goma” ou comprar uns “pano”,um advogado pra tirar seu mano. No dia da visita você diz que eu vou mandar cigarro pros maluco lá no X.”

E os Racionais fecham o disco Sobrevivendo no Inferno da mesma forma que abriram, com a base de “Ike’s Rap II”, do Isaac Hayes, onde o grupo manda um Salve pelas várias quebradas onde o grupo passou e também para “os manos que estão do outro lado do muro, as grades nunca vão prender nosso pensamento!”, além do Brown avisar os “filha da puta que querem jogar sua cabeça para os porcos: tenta a sorte”. Ai sobra tempo pra lembrar de Jesus Cristo:

“ eu acredito na
palavra
de um homem de pele escura, de cabelo crespo, que
andava entre mendigos e leprosos, pregando a
igualdade…
Um homem chamado Jesus…só ele sabe a minha hora
Ai ladrão, tô saindo fora
Paz…”


Assim fecha um dos álbuns mais épicos da música brasileira, e um dos melhores do rap nacional, os Racionais já eram grandes, mas esse disco tornou o grupo gigante. O disco foi lançado por uma gravadora independente, a Cosa Nostra, criada para gravar grupos como o Racionais, RZO e Conexão do Morro. O disco vendeu 1.500.000 cópias e considerado pela revista Rolling Stones como um dos 100 Melhores discos dá música brasileira, ocupando o 14° lugar na relação. Em oportunidade de visitar o Vaticano, o então prefeito de São Paulo Haddad presenteou o Papa Francisco com uma cópia do vinil.

Faixas do álbum
1. “Jorge da Capadócia” (Mano Brown) — 2' 48
2. “Genesis (Intro)” (Mano Brown) — 0' 23
3. “Capítulo 4, versículo 3” (Mano Brown) — 8' 09
4. “Tô ouvindo alguém me chamar” (Mano Brown) — 11' 09
5. “Rapaz comum” (Edy Rock) — 6' 25
6. “ …” (Edy Rock) — 2' 33
7. “Diário de um detento” (Mano Brown / Jocenir) — 7'31
8. “Periferia é periferia (em qualquer lugar)” (Edy Rock) — 6' 01
9. “Qual mentira vou acreditar” (Mano Brown / Edy Rock) — 7' 42
10. “Mágico de Oz” (Edy Rock) — 7' 38
11. “Fórmula mágica da paz” (Mano Brown) — 10' 40
12. “Salve” (Ice Blue/Mano Brown) — 2' 15


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