Eu Tiro é Onda, Marcelo D2 - #submundodosom

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segunda-feira, 13 de março de 2017

Eu Tiro é Onda, Marcelo D2


O disco abre como a maioria dos discos de rap nacional do final dos anos 90 e inicio dos anos 2000, com uma “Intro”, que é uma especie de abertura para um espetáculo, onde cita o Circo Voador, grande palco e de extrema importância para o Planet Hemp, e fala que dos artistas da noite, como Tim Maia, Tom Jobim e Elis Regina, alusão aos sample's utilizados no disco, D2 também explica que o mesmo trará sua experiência de mescla do rap com o samba.

“Alô Alô testando
Boa noite, Senhoras e Senhores!!!
Direto da Lapa
Circo Voador Lotado!!!
8 mil pessoas para uma noite muito especial com os melhores da música brasileira
Vocês terão no palco
Tim Maia, Tom Jobim, Elis Regina
E a mistura de Hip Hop com samba
Ele o que todos estão esperando Marcelo D2.”

E da influência do samba vem a música “1967”, ano de nascimento de Marcelo Peixoto, a faixa foi inspirada na música “Espelho” de João Nogueira. A canção relembra a infância de D2, passando pela sua juventude até as primeiras rimas e consequências, com muito scratch e sample de chorinho a letra segue:

“Vender Camisa na 13 de Maio
Na situação show no Garage
Skunk, diversão de irmão
Grandmaster Flash, Afrika Bambaata, Planet Rock
Rap, break, graffiti
Chegou o hip hop
Cantando a vida mas vista de um outro lado
Não é apologia, cumpadi, não adianta ficar bolado
Entenda se a minha rima não te faz rir
Não é apologia parceiro, da licença, sai daqui
Eu vim pra zoar, fazer barulho
Falar um pouco de mulher
Skate, som, bagulho
Sempre ligado, sempre sabendo o que quer
Sempre bom da cabeça, nunca doente do pé”

A terceira faixa é “Sessão”, que segue numa linha mais pesada, com batidas fortes, “91 são as batidas por minuto”, e a letra, relata um rolê de D2 e seu direito de dar um dois: “Tenho direito ao relax, trabalhei o dia inteiro…”. A letra tras a bandeira levantada pelo Planet, Marcelo mostra que em carreira solo vai seguir com os temas da banda:

“Pronto, tá apertado! já ascendi, a coisa é boa então passo pro lado. seguro na pressão.. isso aqui é papo de sangue-bom.. viro fumaça, já era, só fico a ponta do dedo amarela!
Brincando com as palavras no meio de uma sessão, queimando um pouco de neurônios, tem nada não!”

Próxima faixa é uma que tocou muito na rádio paulista 105,1 FM, no programa Espaço Rap, com participação do rapper Shabazz, que tiro dos EUA fez uma ponta na faixa “Eu Tiro é Onda”, rap pesado, com sample de Barry Miles, com “Hijack” (1970) e The Meters com “Handclapping Song” (1970) que buscou a harmonia entre letra em inglês e português (outro tabu da época, principalmente para o rap gangstar, pois pegava mau colar com gringo estadunidense, cheirava como “pagar pau”, mas D2 se saiu bem nessa, mostrando a evolução do hip hop nacional):

“ his be that shit for the ghetto.
Shibazz the Disciple, Marcelo
Rio de Janeiro, Nova york, Andaraí, Brooklin. É como uma selva de pedras Shabazz.
The Concrete Jungle, some niggas is poor, some niggas stackin’ bundles
Yo son, where I’m from is off the hinges
Even niggas is smokin, sniffin, shooting that shit up with syringes
Hustlers profiting off amphetamines
Eu vim do Rio de Janeiro à Nova York levado pelo som
No Andaraí, no Brooklin, só tem sangue-bom
Vou te explicar como é que eu faço pra sair dessa merda
Eu tô sempre ligado, e mantenho minha mente aberta”

A Faixa 5 se chama “Mantenha o Respeito II”, apesar de soar uma continuação do som apresentado no disco Usuário (1995) do Planet Hemp, a track tras a mesma letra da banda, porém com uma nova roupagem, um arranjo rap com batidas boom bap e muito scratch, gravadas em vários take e com vários samplers, o principal é do trompetista Freddie Hubbard em “Yesterday’s dreams”, se liga:

“D2, e preste atenção
Portas se abrem e aumentam o poder da visão
Isso é o meu compromisso
E se eu fumo ninguém tem nada com isso
Não, não preciso da sua postura
A minha segurança eu faço na cintura
Um hipócrita vai e os valores não caem
É tanto preconceito que eu não aguento mais
Se você tem amor pelo que tem no peito
D2, mas mantenha o respeito”

A próxima faixa é “Samba de Primeira”, onde D2 usa a batida da MPC e com sampler de samba, o estilo é rap, mas o samba tá presente no instrumental e na letra também:

“Eu entro no samba e não deixo cair
Sem vacilar sem me exibir
só vim mostrar o que aprendi
Não toco como antigamente
com um banda de samba
Hoje a coisa é diferente
é o DJ e o sample
No pit-don-don na minha MPC
é só vinil cumpadi pra confundir você
Nã nã nã nã nã não
Acho que já deu pra entender né , já deu
É Hip Hop com Samba”

Na próxima música, a de número 07, “Fazendo Efeito”, não é bem um música, tá mais pra uma introdução, talvez anunciando que vamos entrar no Labo B do disco, com músicas menos trabalhadas comercialmente e fortes criticas, nessa track D2 anuncia que está fazendo efeito em seu disco:

“Ei crianças nao tentem isso em casa, MPCSP é sinal de fumaça, eu e meus camaradas levando um som, soltando o verbo e só queimando um do bom…
Black Alien, está em casa
Andrehinha, está em casa
Zé gonzales, está em casa
Bertrame está em casa
Beed e Solsi estão em casa
Davi o marroquino está em casa
Tomy e o seu baixo estão em casa
Marioci está em casa
Eu misturei hip-hop com samba, diz o dito popular, morre o homem fica a fama, essa é daqui é pros que estão sempre do meu lado, é isso aí, muito obrigado.”

Faixa 08 vem pesada trazendo a banca do Planet Hemp para cantar “O Imprério Contra Ataca”, assim Black Alien, Speed, BNegão e Jacksom somar no rap, um dos primeiros cyphers nacional:

“[Marcelo D2]
Atenção terráqueos leve-me ao seu líder
Aquele que toma tua casa, teu salário e você fica parado otário…
…[Black Alien]
Pensamentos mortais por detrás das grades,da cela
Detritos federais tentam me botar na sequela
Mas comigo tá tudo certo tá tudo tranquilo
Como se eu tivesse dando um rolé descendo o Rio Nilo…
…[Speed]
Eu sou Speed na maior sempre sagaz, qual o problema?
Sem crise, se para no ar alguma dúvida pense duas vezes
Com atenção redobrada, pra começa a me esculacha
Eu já mandei mais de 15, parado vira alvo, então passe
Correndo pa não leva tiro, mas ve se passa em zig zag…
…[Jacksom]
Eu entro no seu sonho como estrela da morte
Exploro os limites, destruo o indivíduo, o pesadelo continua
Me torno um homem mais forte, com destreza coragem…
…[B. Negão]
Por isso não se espante quando eu der meu sangue por
Alguma coisa que eu leve fé
Foram muitas tempestades, mas eu ainda tô de pé, como
Água mole em pedra dura, minha verbe te perfura, e sua
Barreira se dissolve vira poeira, diluída no ar…”

Espancando Macaco” é a faixa seguinte , é um instrumental com piano de João Donato e scratchs e samples que imitam o som do macaco. A gíria espancando macaco tem o mesmo significado da gíria mais popular “5 contra 1”.

A música de número 10 é “Eu Tive um Sonho”, letra é do Thaíde, um dos pilares da cultural Hip Hop no Brasil, enquanto o rapper paulista escreveu música para homenagear o seu amigo Claudio que se foi para um bom lugar, D2 lembra do parceiro de Planet, o Skunk:

“Essa noite eu tive um sonho.
Um sonho diferente,
sonhei com um camarada que não vive mais com a gente.
No sonho ele me disse que
o céu é muito quieto,
lá não tem Break,
não tem som,
nem cara esperto.
Eu fico pensando aqui na terra eu era forte.
Todos me conheciam da Zona Sul a Zona Norte.
Eu até pensava em gravar um disco.
Mas chegou uns camaradas pondo um fim em tudo isso […]
Eu acordei.
Depois de tudo isso e do meu parceiro muita saudades eu sinto.
Eu dise: Adeus Skunk nunca mais vou te esquecer, Deus que te ponha no lugar que merecer!”

A faixa 11 é “Encontro com Nogueira”, onde segue a mistura de hip hop com samba, sampleando a música brasileira D2 fala de suas inspirações: “É hip-hop com samba junto na mesma batida, igual aquilo no mundo não tem coisa parecida. Mistura de Racionais com Orquesta Tabajara…”

“Fui a uma festa na lapa
Que há muito tempo não via
O coro comia , era mc e partideiro
Tudo o que eu queria
Lá da cinelândia já se ouvia o som
Era o dj na vitrola
Meu deus que grave bom
Tava calor pra caralho
E eu com a camisa do mengão
Fazia estilo com um puma, bermuda e um batidão
Passei pela portaria
Tocava um Wu Tang Clan e junto a isso
Pandeiro, cuíca, surdo e tan-tan”

A Batucada”, penúltima música do disco, talvez a mais ‘samba’ do disco, mas a batida do hip hop está evidente, começa com um samba na palma da mão com música incidental sampleada do Fundo de Quintal, “A Batucada dos Nossos Tantãs”, e Marcelo D2 explica como fez o som: “Do fundo do meu quintal
faço esse som pra você, duas vitrolas, vinil e uma SP…”, e D2 segue improvisando igual num samba de partido:

“Com o microfone na mão
abalando tudo pela frente
eu entro no samba com meu hip-hop
o DJsolta a base a mulata sacode
não precisa presta atenção no que eu to dizendo
não tenho o que rimar
eu mando um remendo
agora lembrei de uma boa que rima com samba
eu sou da nova geração e
minha ginga é de bamba
mas sempre influenciado pela velha guarda
veio do Fundo do Quintal essa parada”

Fechando o disco tem Black Alien novamente, que rima com D2 o som “Baseado em Fatos Reais” que conta o episódio da prisão do Planet Hemp em Brasilia, assim a dupla narra um pouco da situação num hip hop samba, com sample de “The Mohawks”, do The Champ (1968)e “Bebe” de Zimbo (1978):

“[D2] Baseado em fatos reais
perto do ano 2000
liberdade de expressão aqui nunca existiu
o que eles querem eu sei é me deixar de lado
polícia bate no povo e o povo aguenta calado
dizem que faço apologia porque canto a vida
querem tampar minha boca enquanto fecham a ferida
acostumado com o poder manipulando mente
fica sabendo compadre comigo é diferente
Rua é o lugar de onde vim
e de lá vem a história de muitos igual a mim…

[Black Alien] Eu sou pago pra rimar e rimo pra ser pago
e até preso e desta história ninguém saíra ileso
não subestime esse é meu time
toc toc polícia é uma questão pessoal me pegar no crime
mas eu te trago más novas
o nascer do sol se mantém sublime
de um lado eu tenho Bob do outro eu tenho o jimmy
na lírica bereta na lírica glock
sentado no banco dos réus do lado do rei
meu foco é a minha sentença
eu sei hora do pesadelo bem vindo
cego num asilo
mar gelado
caindo no “pelo”
luz no fim do túnel
alarme falso
prazer em reve-lo
decepciona-lo
sangue na cena do crime vaza pelo ralo
imprecionado eu dei um dois no que Deus não me deu
pois e eu estou enjaulado…”

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