Os Cães Ladram, mas a Caravana não Pará! — Planet Hemp - #submundodosom

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quinta-feira, 11 de maio de 2017

Os Cães Ladram, mas a Caravana não Pará! — Planet Hemp






Marecelo Yuka, então baterista d’O Rappa, pergunta a Marcelo D2: “Depois de falar de maconha, no disco Usuário, o que vocês vão falam no segundo álbum?”, D2, com sorriso no rosto, responde: “Eu continuo queimando tudo até a última ponta!”.

Depois do sucesso estrondoso do disco “Usuário”, que vendeu cento e cinquenta mil cópias, e com shows marcados por todo Brasil, o ano era de 1996, o rapper Tupac Shakur foi assassinado nos EUA, e no Brasil a polícia mata 19 integrantes do MST na chacina de Eldorado dos Carajás, na música os Raimundos se preparavam para lançar seu terceiro álbum o “Cesta Básica” e o Planet entrava em estúdio para gravar o seu segundo álbum “Os Cães Ladram mas a Caravana Não Para”.

O nome se dava devido ao sucesso da banda e das letras que pregavam a legalização da maconha, e exposição do grupo movimentava os conservadores do pais, que 11 anos depois do fim da ditadura no Brasil, queriam proibir e limitar a liberdade de expressão do Planet Hemp.

Então no final do ano de 1996 é concebido o disco “Os Cães Ladram, Mas a Caravana Não Pará”, porém com mudanças na formação da banda, a de maior é impacto é a saída de BNegão, que decidiu seguir com a banda, formada por amigos de infância e que representava um sonho antigo do músico, o “The Funk Funkers”.

Em 1997 BNegão e sua nova banda lançam o CD “Baião Classe A”, o grupo misturava rap e hardcore, com letras debochadas, como “Mary Disel”:

“Eu vou contar a história de uma menina batuta
 A sua cara é de C.B.
 Mas seu espírito, de filha da puta
 Uma puta parasita
 que devora combustível
 Ela é Maria Gasolina
 Codinome Mary Diesel

O disco é considerado um marco do funk, pois mostrava o estilo carioca como ele realmente é, escrachava geral, mas não perdia o bom humor, e também sabia falar sério, como na letra “Na Testa”:

“O filha da puta, se você não chora quando vê
 Um ser humano revirando lixo, comendo merda
 Morando na rua, no meio do esgoto
 Vai chorar quando ver o cano da minha arma
 Coçar na sua testa, porco escroto!”

Como se dizia na época: “Você pega uns Funk pancada junta com um Rap, Rock, Ska e Hardcore e tem isso: Bailão Classe A”. Contendo 19 músicas que contém refrões que grudam do tipo (ô Marieta, libera a sua rima). O The Funk Fuckers tocou em festivais como o Abril Pro Rock de 1998, sendo considerado um dos melhores shows do evento.

Desse modo, para dar carga total a esse projeto paralelo, que passava a ser a prioridade, Bernardo deixa o Planet Hemp, e em seu lugar assumiu o amigo Black Alien, o qual já havia participado do disco anterior, e acompanhava a banda em alguns shows como vocal de apoio. Outra alteração é na guitarra, entra Eduardo da Silva Vitória, o Jackson, que substituiu o Rafael Crespo, que sofrerá um acidente e se manteve afastado por um breve período, porém a alteração não ocorreu na gravação do disco, mas sim na turnê do trampo. Produzido por Mario Caldato Jr. que ficou famoso por seu trabalho com o lendário grupo de hip hop americano Beastie Boys. O álbum é na pegada do hardcore com influência de jazz e bossa-nova e até samba e samba rock.

Apesar da saída de BNegão, o vocalista ainda de manteve presente no álbum, como vocal em diversas letras, como “Hip Hop Rio”, “O Bicho tá Pegando”,”100% Hardcore” e “Hemp Family”, além das faixas “Zerovinteum” e “Adoled” (versão de “The Ocean” do Led Zeppelin).

O disco abre com a faixa “Zerovinteum”, em uma homenagem a cidade do Rio de Janeiro, “Cidade Hardcore”, que leva esse nome devido ao DDD da cidade, o 021, onde B.Negão, Black Alien e D2 versão o seu ponto de vista:

“Rio, cidade-desespero
A vida é boa mas só vive quem não tem medo
Olho aberto malandragem não tem dó
Rio de Janeiro, cidade hardcore.
Arrastão na praia não tem problema algum
Chacina de menores é aqui 021
Polícia, cocaína, Comando Vermelho
Sarajevo é brincadeira, aqui é o Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, demorô, é agora
Pra se virar tem que aprender na rua
O que não se aprende na escola
Segurança é subjetiva
Melhor ficar com um olho no padre e outro na missa
Situações acontecem sobre um calor inominável
Beleza convive lado a lado com um dia-dia miserável
Mesmo assim, não troco por lugar algum
Já disse: este é o meu lar.
Aqui, 021.”

A próximo música de Black Alien e Marcelo D2 “Queimando Tudo”, é uma análise apoiada no humor ao encalço que a banda lidou em diversos municípios do pais, devido a bandeira da legalização:

“Eu canto assim porque eu fumo maconha!
E adivinha quem tá de volta explorando a sua vergonha?
Eu sou o melhor no microfone, e não dou mole pra ninguém.
Porque o Planet Hemp, ainda gosta da Mary Jane.
Então por favor, não me trate como um marginal.
Se o papo for por aí, já começamos mal.
Quer me prender só porque eu fumo?
Cannabis sativa Na cabeça ativa…
E isso te incomoda?”

A terceira canção é “Hip Hop Rio”, onde BNegão e D2 alertam que o Rio de Janeiro não é só samba, mas é hip hop também:

“Eu sou do samba, sou funk, sou do reggae, sou do soul
Mas também sou do hip hop, do hip hop eu sou
Porque esse som, entra na cabeça e não tem hora
Quero ver ficar de fora, eu quero ver ficar de fora
É som na veia, mas tem gente que não entende
Mas eu vou te explicar, sabe porque, porque, porque?”

Em seguida, vem o instrumental “Bossa”, que literalmente é uma bossa, no estilo Vinicius de Moraes, porém há uma voz, aguda, com seus dizeres indecifráveis. O disco segue com a paulada “100% Hardcore”, onde Rafael Crespo desce o peso na guitarra e Marcelo e Bernardo soltam a voz:

“Homens de visão curta, F.D.P., saiam do meu caminho
Se é pra embarreirar, sangue suga, eu prefiro seguir sozinho;
Comigo tá tudo certo, sei do meu caminho muito bem,
Se você acha, então, que é só chegar e mandar,
Que a vida é essa, então, cumpadi, agora você vai saber!!!”

A de número 6 é a instrumental “Biruta”, em seguida vem “Mão na Cabeça”, que trás música de Ulisses Cappelletti, e letra de D2, num estilo mais rap, porém é fácil perceber as linhas de baixo e a guitarra com forte presença, além da performance de Zé Gonzales nos tocas discos, a música fala da repressão policial com o usuário:

“Mão na cabeça, assalto? Não, é a polícia
Mas dá no mesmo se você não tem um pingo de malícia
São pagos pra proteger, mas te tratam como ladrão
Quem é que vão proteger, então
Bala perdida pra você não é nada
Só mais uma mancha de sangue no meio da calçada
Se acham donos da lei mas essa lei tá errada
Enquanto não modificarem tô na parada
Porque na minha cabeça essa carapuça não cabe
Então DJ Zé Gonzales, balança as pick-ups”

Na próxima faixa, D2 mostra seu hibridismo musical, mesclando o rap com o samba, em “O Bicho ta Pegando”, que inicia com sample de Bezerra da Silva, e segue com várias referências, a faixa é um rap boom bap, com fortes bumbo, e vocal gangastar:

“Subiu o morro, não voltou. Foi pro exame de balística
O que era 12 agora é estatística
Vai em frente, cumpadi, que aqui só tem responsa
Os língua solta aqui não cola, então, melhor sair andado
Mas é aí que a gente vê quem é malandro e quem não é
Que sangue puro é cadeado e não banca o mané
Malandragem dá um tempo, deixa essa pá de sujeira embora
Por isso é que eu vou apertar, mas não vou acender agora”



A música de número 9, é “Adoled (The Ocean)”, com música de ninguém menos do que John Bonham, John Paul Jones, Jimmy Page e Robert Plant, isso mesmo o Led Zeppelin, o Planet Hemp usou o instrumental da banda britânica e botou sua letra pra falar sobre o morro e a legalização da maconha:

“Pensei, gritei, não calei
Vi você tentando dixavar seu papo cretino,
mas Eu escutei!
Dizendo que a violência cresceu de um tempo pra cá
Que a solução era subir no morro e esculachar
Aí, nem vem com situações operações humilhando
Invadindo e destruindo o lares dos cidadãos
Que não pediram para estar ali querem apenas um pouco de paz
Depois de ralar de sol a sol”

A faixa 10, “Seus Amigos”, é mais um hardcore, esse composto por Katinha e musica de Fabio Barreto, a faixa é um cover da banda Serial Killer, formada em 1989 na zona norte do Rio de Janeiro que tem influências do punk, hardcore e crossower, a letra segue:

“Cuidado com os que se dizem seus amigos
 Pois são um bando de babacas querendo te sacanear
 Vivem uma vida mentirosa cujo único objetivo é de você seaproveitar
 Andam todo tempo ao seu lado esperando a sua confiança
 Pois só querem te sugar
 Vícios que constroem suas mentes
 Pois não existe o caráter com que possa almejar
Babacas
 Cuzão
 Quem são
 São seus amigos”

A próxima canção do disco é a refletiva “Paga Pau”, um rap orgânico com a batera de bacalhau e intervenção do Marcelo Lobato, d’O Rappa. Aletra fala sobre as tretas banais, sobre a responsabilidade de ser um homem, ou de ser simplesmente um covarde, principalmente lembrando as brigas de torcidas:

“Chegou a hora, ele botou a camisa do time preferido
Mas na verdade a camisa é o uniforme de um Assassino
Toda marcada surrada, manchada de sangue
Cê confundiu, isso é torcida, não é gangue
Cê você mantém o respeito eu respeito e muito obrigado
Mas se você não merece tome cuidado
Porque se na tua cabeça isso é um instinto animal
Mas, na da grande maioria não passa de um paga-pau”

A faixa 12 é uma relíquia, “Rappers Reais”, que inicia com o saudoso Skunk no vocal, numa das primeiras versões da música: “Não somos os donos da verdade, mas conhecemos bem a rua, a nossa realidade é nua e crua”. Em seguida BNegão e Marcelo deslancham a poesia num rap bem estilo anos oitentas, com batida com forte nas caixas, scratchs e samples, na letra que critica quem adere ao estilo americanizado e se esquece dos líderes nacionais, ou que acham que o rap só existe se for cópia do estilo nova iorquino:

“Você que se diz rapper de verdade
Só sabe criticar não acorda para a realidade
Com essa roupa importada é muito fácil falar
Quero ver você passar para o lado de cá
Não somos donos da verdade mas
conhecemos bem as ruas
A nossa realidade é nua e crua
O que adianta querer conscientizar
meia dúzia de babacas que só sabem criticar
Aonde nos chamarem nós iremos cantar
Aqui não tem tempo ruim e muito menos blá blá blá.
Então MC, me passa o microfone
Então MC, eu te passo o microfone
Você olha para a América e sua cultura você nega
L.A. é muito bom mas aqui que o bicho pega
Malcom X foi demais, mas você tem que se lembrar
que foi Zumbi que libertou nossos ancestrais
Enquanto você brinca de Ice-T
Pessoas pagam com a vida aqui e ali”

Nega do Cabelo Duro” é a música de número treze do disco, faixa composta por Rubens Soares e David Nasser, dois sambistas das antigas que estouraram na década de 1940 justamente com essa música, a faixa foi gravada por muitos artistas da música brasileira, como Bando da Lua, Anjos do Inferno, Luiz Caldas, Elza Soares e Emicida, Ivete, Oscar Aleman, Elis Regina dentre outros. O Planet Hemp regrava o hit em 1997 numa versão samba rock, ao estilo Noriel Vilela:

“Ondulado, permanente
Teu cabelo é de sereia
E a pergunta que sai da mente
Qual’é o pente que te penteia?…
Quando tu entra na roda
O teu corpo bamboleia
Minha Nêga meu amor
Qual’é o pente que te penteia?…
Teu cabelo a couve flor
Tem um “que” que me tonteia
Minha nega, meu amor
Qual’é o pente que te penteia?”

Hemp Family” é a próxima, um peso pesado que homenageia toda as bandas que fazem a correria e representam a cena ao lado do Planet, como Speed Freaks, Black Alien, O Rappa, The Funk Fuckers, Mundo Livre S/A, Jorge Cabeleira, Nação Zumbi e os Festivos Gozadores, (como curiosidade: há uma fita demo do Planet Hemp em que a Hemp Family é versada com Raimundos, Little Quail e Câmbio Negro, todas bandas de Brasilia). A música mescla hardcore e ragga com scratch:

“UM!
Planet Hemp manda bala rap, rock’n’roll, psycodelia, hardcore, ragga,
funk e soul.
se liga você vai ver chegou a hora e a vez do cabelo crescer.
DOIS!
Speed Freaks (loco), saiu pra dar um rolé mas vai voltar daqui a pouco.
Todo mundo perguntando, mermão cê tá onde, e o quê que eu tô ouvindo Speed freak sound.
TRÊS!
Black Alien sangue bom cê pensa que é brincadeira não é brincadeira mermão.
Rodriguez e bulletproof nigga pode crer eu tô na tua então se liga meu irmão Planet Hemp Phunky Buddha.
No número Quatro o Rappa não deixa barato é a ginga carioca pra cê não ficar parado.
Música pra te informar que é só regar os lírios do gueto que o Bethoven negro vem se mostrar.
Cinco: The Funk Fuckers camarada então abra os olhos e se liga na mulecada
eu vou dizer uma coisa “I don’t like suckers,in da house,the Funk Fuckers”.
Seis! Mangue Boys Recife pegando fogo trasbordando, então vai.
Mundo Livre, Cabeleira, Chico Science e Nação Zumbi se antenando com o mundo a parabólica é ali.
Dos Festivos Gozadores eu vou falar no Sete são tantas as luzinhas que a gente se derrete
Abra a porta da sua festa que eu quero tirar um tasco ou então caminha que aqui é de Osasco.
Hemp Family tem o poder mermão
Planet Hemp, Funk Fuckers, Black Alien e o Rappa isso é uma só família
querendo legalizar.”

A penúltima música é a curiosa “@#*&@#*& (Quem Me Cobrou?)”, faixa que trás o peso da guitarra de Rafael Crespo e a versatilidade de D2 que agora vai num skate punk acelerando sua levada e cantando em inglês. O disco fecha com a faixa “Se Liga”, que começa no baixo e precursão, logo o canto falado e as batidas do rap tomam vez na voz do Marcelo:

“Se segura na cadeira Planet Hemp na área
É bom ficar ligado que o gatilho não falha
O som é chapado e o lero vai na lata Preste atenção, mermão, isso é ouro não é prata
Não faça o que eu faço, faça o que
eu digo Então se liga, se liga que aqui não ganha no grito
O nome é Marcelo,
vulgo D2 O que eu tenho
pra falar eu falo agora, não tem caô, não vou deixar pra depois
Então se
liga, na minha só cola sangue bom
Mantenha o respeito e só o que te atinge é o som Já disse e digo de
novo, que o gatilho não falha
Planet Hemp, cumpadi, invadindo a sua área”

A faixa “Se Liga”, vai até os 3 min, apesar da track ter quase 7 min (6 min e 52 segundos), a exemplo do primeiro disco, o segundo também traz uma faixa oculta, lá nos 3 min escutamos um telefone tocar e a seguinte frase: “Eu já disse que não quero você nesses lugares”, em seguida ouvimos o restante da track uma espécie de jam, numa mistura de jazz e samba rock, com algumas vozes e elementos soltos, como num dub.


A formação base da banda ainda contém o DJ Zé Gonzales nas pick up’s e Apollo 9 nos teclados. Com a produção do Mario Caldato Jr o Planet Hemp pode tocar com Beastie Boys e Cypress Hill, na turnê do disco, além de superlotar o Metropolitan, hoje conhecido como Citibank Hall, em um concerto conjunto com os Raimundos, com público de mais de 6 mil pessoas, vale citar que a capacidade do local é de 7.000 espectadores.

A capa do disco foi criada pelo artista Muti Randolf, e a figura do senhor com cara de poucos amigos foi retirada de um livro sobre políticos alemãs do pós guerra, onde vários desses políticos “emprestaram” seu rosto para que o artista mesclasse no photoshop e conseguisse a foto, como comenta Muti em entrevista para o Arte na Capa do Canal Brasil, a ideia de mixar imagens era de criar um rosto de um novo individuo, livre de direitos autorais, devido ao uso da imagem.
Imagem de um político alemão do pós guerra, que possivelmente pode ter sido usado na criação de Muti Randolf.

D2 também comenta na entrevista ao programa Arte na Capa que a gravadora gostaria de uma foto dos músicos na frente do disco, mas devido ao fato do Rio de Janeiro ser uma cidade extremamente violenta, eles queriam retratar isso, queriam colocar uma capa que mostrasse um impacto imediato. Então todo o encarte foi desenhado como se fosse um jornal impresso noticiando a guerra civil no Rio: “algo a ver com a proposta da banda”, utilizando-se da estética jornalística, com imagens “bem pesadas, de guerra”, da capital carioca.

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