Galenga Livre do Manicongo Rincon Sapiência - #submundodosom

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quinta-feira, 8 de junho de 2017

Galenga Livre do Manicongo Rincon Sapiência


O versátil Rincon Sapiência, também conhecido como Manicongo, como gosta de lembrar, em carreira desde os anos 2000, organizando sarau e paradas poéticas, lançando clássicos como “Linhas de Soco” e “Rep And Roll”, em 2017 chegou pesado com o que é de fato seu primeiro disco: Galanga Livre. Título inspirado na lenda do escravo Galanga que lutou e matou pela sua liberdade.

O DJ A.S.M.A. chega junto nos scratches, o álbum tem participações especiais de Lia de Itamaracá e Willian Guimarães, que também dirigiu e co-produziu o disco.
O disco abre com a faixa “Intro”, com um baixo ao fundo, enquanto Rincon discursa rapidamente:

“Salve, salve
Vamos seguindo aqui nas nossas transmissões
Aqui no novembro manicongo
Com a música de Rincon Sapiência
Música que foi inspirada no conto fictício
Do escritor Danilo Albert Ambrósio
Que conta a história do escravo Galanga
Que gerou uma grande reviravolta no engenho
A partir do momento em que cometeu um crime bárbaro”

A faixa seguinte é "Crime Bárbaro" , que possui base envolvente e tensa, com incríveis riffs de uma guitarra e uma batida que lembra o berimbau, contando a história de Galenga, o preto fujão , que rebelou-se contra o Senhor de Engenho chegando a assassina-lo e assim fugir:

“Capangas armados estão à procura
Escravos apoiam meu ato de loucura
Fugido eu tô correndo pela mata
Na pele eu levo a marca da tortura
O crime deixa doido o bagulho
Carrego um pouco de medo e orgulho
Atrás da orelha deles eu sou a pulga
Se eles chegar tô pronto pra dar fuga”

Em seguida "Vida Longa", um som que lembra de Jimmy Hendrix e Janis Joplin não só nas letras, mas na sonoridade com uma guitarra clássica casada no boombap, com influências do Blues do Mississipi, em que o artistas fala dos contextos atuais do Brasil como “Infelizmente Bolsonaros não é tipo raro", entre outras punchlines do cenário político brasileiro:

“Nóis aprecia vida longa, a democracia
Pra muitos vida dura, ditaduras torturaram
Palavras que liberta o limite da fronteira
Não é a Bíblia narrada por Cid Moreira
Rap é vida, a rua e as narrativa
Desejo vida longa à nossa voz ativa”

A música quatro "A Volta pra Casa", possui linda melodia e belíssima letra, como o próprio Sapiência cita, é uma homenagem a classe trabalhadora, principalmente para as mulheres que se encontram sozinhas nas ruas escuras durante a noite voltando do trabalho:

“ Trabalhadora voltando pra casa
Perguntando pra Deus “por que não tenho asas”?
Pra voar pelos ares e voltar para o lar
A real, ônibus cheio dói só de pensar
Na bolsa um livro novo, não tem condição
Leitura na multidão, frustração
Nove horas no trabalho é bem mais suave
Que as duas horas balançando na condução”

 O disco tem espaço para homenagear o samba, na faixa "Meu Bloco" que mistura o gênero com rap e o trap: “A pampa nessa rampa, guardei, fechei na tampa / O trap, o rap, o samba, deu isso aqui, olá!” Rincon constrói a conversa dos estilos com ótimas rimas que falam sobre carnaval e alegoria mesclando com a cultura de rua do hip hop. A faixa virou clipe, no seu lançamento, gravado no barracão da escola de samba Pérola Negra, sendo filmado em plano-sequência e realizado pela Boia Fria Produções e com direção do Jorge Dayeh:

“Nóis vem pesado como Rei Momo (Rei Momo)
Os pé-de-breque vive dando pala (dando pala)
Na comissão de frente, fico como? (fico como?)
Sambo na cara tipo Mestre-Sala (Mestre-Sala)
Ponta de Lança é meu bloco
Só entra nele quem tem aval
Não devo nada, dá meu copo
Pra nós o ano todo tem carnaval”

A faixa 6 discorre sobre uma "Moça Namoradeira" que deseja o seu príncipe mas recebe apenas os sapos em sua vida, destaque para o flow envolvente do Rincon e a voz de Lia de Itamaracá, que chega junto:

“Encontrar um príncipe
É um dos seus planos principais
Diria: Ei, dama, pense mais
Uma das mentiras mais reais
Ele corre atrás, faz um elogio
Se te vê passar, já faz um psiu
Ele quer manter o coração vazio
É o plano de um macho que tá no cio
Ela sonha com o casamento
Antes de dormir ela sempre ora
Podia orar por coisa melhor
Tipo viajar pelo mundo afora
Ela namora, namora
Quer filhos, netos e noras
Mas ela tomou um fora
Que marcou
Que nem mancha de amora”

Rincon Sapiência também mostra seu.lado romântico em “A Noite É Nossa" rimando sobre um romance quente e envolvente, porém inesperado mas muito apreciado.

“Uma certa vez eu não aguentei
Te liguei pra matar toda essa tensão
Cê não atendeu, eu logo pirei
Fudeu, reagi como um tolo
Já te imaginei com outro criolo
O consolo veio, você retornou
Sem transtorno, nosso mundo já ornou
Eu amoleci, senti a queda
Vai vendo, logo eu, coração de pedra”

A próxima faixa é quentíssima “A Coisa Tá Preta", expressão usada para dizer que algo tá ruim, o MC transformar o pejorativo em algo bom, “se eu te falar que a coisa tá preta a coisa tá boa?”

“Abre alas, tamo passando
Polícia no pé, tão embaçando
Orgulho preto, manas e manos
Garfo no crespo, tamo se armando
De turbante ou bombeta
Vamo jogar, ganhar de lambreta
Problema deles, não se intrometa
Óia a coisa tá ficando preta”

O disco também tem espaço para falar de fé, oração, liberdade, a faixa “Benção" relata as bençãos nas coisas simples da vida. Com participação de Willian Magalhães a canção discorre:

“Benção, a chuva no sertão
É a rosa no cinza do concreto
É o rango no fim de um jejum
Benção é a goma para o sem-teto
É o punho fechado pronto pro soco
Que se abre pronto pro afeto
Nas leis que impera o silêncio
A benção é grito de quem tá quieto”

Rumando para o final do álbum, a faixa 12 é “Galanga Livre”, que traz no espirito de liberdade do escravo Galanga a sensibilidade para a luta cotidiana e o senso de justiça e de liberdade:

“Nossa coragem levantar
Pro nosso medo encolher
Fui convidado pro jantar
Migalhas não vou recolher
Vida me chama pra cantar
Sem fuga, livre pra correr
Um bom terreno pra plantar
E a casa preta se ergue
Lerê, lerê”

"Ostentação À Pobreza", é a próxima faixa,e já havia saído na rua antes do lançamento do disco, Ricon explode nesse rap de protesto e denuncia, com rimas rápidas e batida tensa, relatando a desigualdade social:

“Pobreza, pobreza
Um certo dia vi ela
Quando passei na viela
Cruzando pela favela
Pobreza, pobreza
É conviver com a nojeira
Morar em área de risco e dormir ao som da goteira
Um carro louco é um abalo, o som batendo no talo
Lugares que têm miséria, luxo é andar de cavalo”

"Ponta De Lança", fecha o álbum, outra faixa que já estava na rua, aqui Rincon Sapiência tem o objetivo de valorizar o MC (Mestre de Cerimônias) voltando as origens do rap. Vários elementos da periferia são observados em em punchlines que como o própico rapper cita no final, soa como uma continuação de “Linhas de Soco”. A batida lembra um funk carioca, com uma pegada africa, num beat dançante e envolvente a faixa diz:

“Raiz africana, fiz aliança, ponta de lança, Umbabarauma
De um jeito ofensivo, falando que isso é tipo macumba
Espero que suma
Música preta a gente assina, funk é filho do gueto assuma
Faço a trilha de quem vai dar dois
E também faço a trilha de quem vai dar uma
Eu não faço o tipo de herói, nem uso máscara estilo Zorro
Música é dádiva, não quero dívida, eu não nego que quero o torro
Eu não nego que gosto de ouro , eu não curto levar desaforo
Nesse filme eu sou o vilão, 300, Rodrigo Santoro
Eu enfrento, coragem eu tomo, me alimento nas ruas e somo
Restaurante, bares e motéis, é por esses lugares que como
Anjos e demônios me falaram: “vamo!” e no giro do louco nós fomos”

A direção do disco ficou pelo William Magalhães, da Banda Black Rio, o álbum passeia pelo rock, R&B, afrobeat, soul e funk, com rimas e batidas que confirmam o orgulho negro e reafirma as raízes africanas.


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