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terça-feira, 25 de julho de 2017

A Arte do Sample


É uma arte, é fazer referência, é homenagear, é apresentar, na sua música, um outro artista para o teu ouvinte. Mas o que é o sample? O que fazer um sample ou samplear?

A parada remete ao início da cultura hip hop, lá no final dos anos 70 com um cara chamado Clive Campbell, um jamaicano também conhecido como DJ Kool Herc, nas festas que aconteciam nos guetos do Bronx rolavam muito Funk/Soul Music, é a galera colava pra dançar, Herc percebeu que o ápice de cada música era o momento que rolava só o instrumental, então decidiu tocar dois discos iguais simultâneamente para isolar só o instrumental, ou seja, enquanto o primeiro disco tocava, por exemplo 30 segundos de uma batida, o segundo disco estava a posto para que quando o primeiro disco acabasse de tocar os 30 segundos esse segundo entrava em ação, é o primeiro voltava para revezar com o segundo criando um loop infinito, que ficou conhecido como “break”, daí veio a dança break e os b.boys.

A origem do sample se deu dessa forma, a palavra que vem do inglês e significa “amostra”, resume bem a sua finalidade, pegar amostras de discos afim de criar um novo instrumental. Logo em seguida Grandmaster Flash introduziu o scratch, o arranhar do vinil voltando o disco para repetir uma frase, palavra ou efeito, mas antes disso gerando um ruído (agradável). É comum o scratch anteceder ou suceder o sample. Com o instrumental isolado, tendo uma batida para si os MC’s começaram a rimar com esse plano de fundo, daí veio o rap.
A essência do rap, que consiste no MC e DJ, era um jeito de fazer música sem ter uma banda com bateria, teclado, baixo ou guitarra, pois esses elementos já estão no sample.

“Quando pedem para eu tocar um set de hip hop, tem pop, rock, jazz, blues, funk, disco, R&B. Toco breaks de 20 gêneros diferentes. Isso é hip hop. Essa era a ferramenta que existia nos anos 70: para estar no topo, tínhamos de ter os discos” — Lembra Grandmaster Flash.

Os primeiros grupos de rap brasileiro usavam o instrumental criado, através de samples, dos grupos de New York, como por exemplo Miele com o “O Melô do Tagarela”, considerado o primeiro rap gravado no Brasil, de 1980 usou o instrumental de “Rapper’s Deligth do Sugarhill Gang, outro exemplo é o de Ndee Naldinho, na época com a alcunha de Ndee Rap que usou o instrumental de Chubb Rock em “DJ Innovator” para criar o “Melô da Lagartixa”.

O rap brasileiro foi evoluindo, é a arte do sample também, agora ou invés de simplesmente pegar emprestado um instrumental, os DJs começaram a criar suas batidas através dos seus samples, como por exemplo KL Jay, dos Racionais MC’s, na música “Homem na Estrada” que usou sample de Tim Maia, “Ela Partiu”, mas outro trabalho foi bem mais complexo, o “Capítulo 4, Versículo 3", também dos Racionais fez com que KL Jay utilizasse cinco samples diferentes, para criar a batida usou “Express” de Tom Scott & L.A. e a linha de baixo de “Peixe and Vanity” da Ohio Players, antes da música começar, logo após as estatísticas narradas por Primo Preto há uma introdução que foi retirada de “Slippin' Into Darkness” do grupo War, ali nos 1 minuto e 55 segundos, no refrão, quando ouvimos “Aleluia” é a voz de Sade com sample retirado do instante 2:52 dá canção “Pearls”, e quando Brown cita “Filha da puta, pá, pá, pá…” é um sample retirado do grupo brasileiro MRN do rap “Eles não sabem nada”, do instante 2:22.

E vários rappers da música nacional viveram de samples como Thaide em “Senhor Tempo Bom” que teve sample de “Jean Kinigt” de Mr Big Stuff, RZO na música “Paz Interior” que tem sample de Adriana Evans na música “Love is all Arround”, Marcelo D2 em “Baseado em Fatos Reais”, com duas amostras, a primeira de Zimbo Trio com “Bebe" e outra com The Mohawks com “The Champ”.

GOG, conhecido como poeta, é um artista que muito valoriza a música nacional e assim usou muito sample brasileiro como por exemplo a faixa “Foi somente onda" sampleado dá música “Onda” do Cassiano, ou “Quando o Pai se Vai” com sample de “Como” do Paulo Diniz, ainda tem “Rua sem nome, barraco sem número” com amostra de Paulo Sérgio em “Ninguém pode proibir que eu te ame” e do finado Sabotage com “Um Bom Lugar” e “África Tática” com Casa das Máquinas em “Liberdade Espacial”, isso para citar alguns samples do mestre GOG.

E não é só o rap ou movimento hip hop que utiliza a arte de samplear, o rock também, por exemplo Os Paralamas do Sucesso, na música “Óculos” pegaram o momento 1:09 de “Hands Off…She’s Mine” de The Beat. Os Engenheiros do Hawaii usaram o “Hino dá Independência do Brasil” em “Era um Garoto…”, Skank em “É Proibido Fumar” usou sample de Henry Mancini”, Chico Science e Nação Zumbi em “Samba Makossa” usaram sample de Don Cherry em Brown Rice, o Charlie Brown Jr usou em “Não uso sapatos” sample de Fugazi em “Waiting Room”, O Rappa em “Miséria S/A” usou sample de Remarc em “Sound Murderer”.
Outros estilos, como o reggae do Cidade Negra, “Querem o Meu Sangue” foi sampleado de Jimmy Cliff em “The Harder They Come”, na MPB, Gilberto Gil sampleou Jonh Willians em “Wild Singals" para compor “Ê Menina”, usou sample de Jonh Willians, em Wild Signals,de 1977.

O sample é um artifício muito importante é magnífico, se bem utilizado, mas tem que funcionar como uma referência bibliográfica, não só na questão do original ser citado, mas o trecho sampleado não pode ter mais evidência que a música (nova) toda. Como próprio nome diz, sample é uma pequena amostra, e através dela que conhecemos músicos, que são apresentados nas obras dos artistas que admiramos.

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