Entrevista com o grafiteiro Fabio Q - #submundodosom

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quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Entrevista com o grafiteiro Fabio Q


O Submundo do Som troca uma ideia com o mano Fabio Q. que é grafiteiro, artista plástico e escritor. Na ativa desde 1993, quando iniciou dentro da cultura Hip Hop com graffiti, descobriu outras formas de se expressar como as artes plásticas e a escrita. Nesse bate papo falamos sobre influências, sonhos, projetos, sobre a carreira e, é claro, sobre a cena atual do hip hop, confere aí:

Submundo do Som - Quem é o Fabio Q?

Fabio Q - Começou com as perguntas difíceis! (rs).
Um cara curioso que descobriu com o skate, o punk e o hip hop uma alternativa e um caminho que invertia a lógica “oficial” sobre como um morador de periferia deveria ser e as regras que deveria obedecer, sem questionar, pra viver.

Submundo do Som - Como o Fabio Q foi inserido na cultura hip hop? E mais precisamente, como começou no graffiti?

Fabio Q - A primeira coisa que eu conheci foi o rap, uma música que o Public Enemy gravou com o Antrax. Depois foi o graffiti que eu via na rua quando saia pra fazer as entregas de office boy, nessa época (fim dos anos 80 e começo dos 90) não tinha graffiti na quebrada, era na Av Paulista e bairros mais centrais. O break e o DJ conheci através de um amigo do trabalho. Eu queria fazer histórias em quadrinhos quando era muleque, mas era muito distante da minha realidade, já o graffiti estava na rua com poucas regras e muito espaço para o auto aprendizado.

Submundo do Som - Quais são suas referências e influências para fazer o seu trabalho?

Fabio Q - É difícil definir isso, costumo dizer que tudo serve, coisas que gosto e coisas que não gosto influenciam, gosto da idéia pensada no Manifesto Antropofágico, não consigo imaginar um artista que não devore tudo o que o rodeia e transforme aquilo em algo novo.

Submundo do Som - Qual o momento mais incrível que você viveu como artista?

Fabio Q - Muita coisa marca, começar ou terminar um projeto, publicar, ter seu trabalho em projetos como o Favela Galeria, etc. Mas incrível mesmo é estar vivo e contrariar as estatísticas.

Submundo do Som - Existe alguma diferença do Fabio Q grafiteiro, para o artista plástico ou para o escritor?

Fabio Q - Sim e não. Enxergo tudo o que produzo como uma coisa única, como se fossem várias peças de um grande quebra-cabeças, porém cada uma dessas plataformas e suportes pede um tipo de atenção, por exemplo, a escrita é algo que só consigo produzir sozinho, nem música eu ouço, é bem solitário, preciso alcançar uma concentração no silêncio absoluto,  já pintar um mural na rua é outro esquema, aquela barulheira e intervenção constante, e isso não me incomoda ou me distrai, produzo numa boa.

Submundo do Som - Fala um pouquinho do livro Fabulas Nunca Morrem, como foi esse projeto?

Fabio Q - Fábulas é parte de um projeto de zines literários, foram duas edições, a primeiro com o conto Tiro Na Fuça e a segunda com Fábulas Nunca Morrem. O projeto surgiu porque eu queria publicar mas não tinha tempo pra escrever um romance ou um livro inteiro de contos, e ainda que escrevesse seria difícil conseguir uma editora, então resolvi fazer por conta própria, e pra diferenciar, cada conto vinha com um CD e três faixas emprestadas de alguma banda que eu achava que conseguia transmitir a atmosfera da história, o Tiro Na Fuça vem com o CD da banda Hellhound Syndicate...

 Submundo do Som - O livro acompanha um CD do Elo da Corrente né?

Fabio Q - Isso, o Fábulas vem com o CD do Elo, como a história acontece na favela e busquei referências na memória (e falta dessa memória) da minha infância achei que precisava ser rap, eu curtia o som deles mas não os conhecia pessoalmente. Troquei idéia como PG (dj) e ele se interessou e passou pro Caio e pro Pitzan, eles também curtiram e a gente fechou a parceria. Esses zines foram produzidos em casa, impressão, grampo, colagem, recorte, tudo artesanal, por isso fiz em série limitada, e estão esgotados. Agora o conto Fábulas está no Amazon pra quem tem kindle ou outro leitor de livros digitais, em breve pretendo lançar outra versão em alguma outra plataforma online.

Submundo do Som - E no RAP, quais discos e artistas têm seu trabalho integrando?

Fabio Q - Fiz encarte e bolacha para dois álbuns do De Menos Crime e arte pra merchandise do Consciência Humana, recentemente fiz a capa do disco do CFMA, grupo aqui de SP.

Submundo do Som - Teve, também, o trampo Janela da Alma né? E como foi a experiência com essa publicação?

Fabio Q - Foi bem parecido com a história do Fábulas, eu queria publicar uma história em quadrinhos mas não tinha tempo pra produzir algo grande e resolvi fazer um livreto com uma história curta, a MCD apoiou a publicação e foi lançado em 2014. Esse ano lancei Onírica, uma história em quadrinhos com 32 páginas que também conta com o apoio da MCD.
Submundo do Som - Cara e como você vê a cena atual do Hip Hop?

Fabio Q - Tem muita coisa boa sendo feita, houve muito progresso técnico.

Submundo do Som - Você acredita que o rap se distanciou dos outros elementos da cultura hip hop, ou os demais elementos se distanciaram? Você acha que isso rola por que?

Fabio Q - Parece ter sido um pouco de cada. Não sei se existe um único motivo, o que eu enxergo tem relação com a supervalorização de apenas um aspecto da cultura que é da disputa, em todos os elementos existe a cultura da batalha, mas isso dentro de um contexto, quando um artista tira esse aspecto do contexto faz o hip hop parecer uma cultura voltada pro “eu”, um egocentrismo que não é a essência do hip hop. Mas não acho que é apenas esse ponto, e acho que toda discussão sobre o assunto é válida.

Submundo do Som - O que você acha que falta pra ter, ou voltar a ter, uma integração da cultura hip hop como um todo?

Fabio Q - Talvez olhar lá pra raiz, onde tudo começou. Hoje o que não falta é material pra estudar a cultura, tem livro, texto na internet, documentário, série de tv, enfim, a informação é abundante. E quando a gente olha pra lá, tem um monte de diretrizes que fizeram com que essa cultura alcançasse o mundo. Uma coisa que me chama muito a atenção, por exemplo, é quando houve a transição da violência das gangues pros primeiros passos do hip hop, ali ele mostraram o poder da cooperação, que eram eles por eles mesmos, e ou era isso, ou era o sistema ferrando a vida deles.

Submundo do Som - Quais os sonhos que o Fabio Q pretende realizar ainda, como grafiteiro e artista plástico?

Fabio Q - Poder continuar trabalhando, produzindo e ver pra onde esses caminhos vão me levar. Sonhar é bom mas produzir é essencial, e é a única ferramenta que te leva pra frente.

Submundo do Som - O que o Fabio Q tá preparando de novo?

Fabio Q - Eu tenho muitos projetos, tem uma nova Hq em início de produção, voltei a pintar na rua e estou interessado em trabalhar com madeira. Tem as oficinas também, de graffiti e de hq fotográfica que é outra coisa que tenho me empenhado, dividir conhecimento.

Submundo do Som - Pra quem curte seu trampo, que mensagem você deixa ai pra galera?

Fabio Q - Só tenho que agradecer a todos que acompanham meu trabalho, valeu!

Submundo do Som - E pra quem quiser falar com o Fabio Q? Quais os canais?

Fabio Q - Instagram: @fabioquill
Facebook: www.facebook.com/fabioq
Site: www.fabioq.com

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