Dária e o rock Por Nois Memo - #submundodosom

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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Dária e o rock Por Nois Memo

Muito se fala sobre a cena do rock, que está enfraquecida, que o estilo tá morto e coisas do tipo, sempre pensei comigo que quem diz essas bobagens é por não tá ligado, não procura coisas boas pros ouvidos, e provando o que eu digo da capital paulista vem a banda Dária, que recentemente lançou seu EP Por Nois Memo.

Formada por Marcos André na guitarra, Pedro Victor na bateria, Felipe Amorim no baixo e Guilherme Fahl nos vocais o grupo vem do Jardim Angela, bairro muito conhecido nos versos dos Racionais MCs, no extremo sul da zona sul, mas a banda tem um pé na Bahia, de onde vem 50% dos manos do Daria, mais precisamente da cidade de Teixeira Freitas.

Dária é uma daquelas bandas que fazem uma mistura bem loka, jogando num liquidificador o punk rock, hardcore, ska, rap e o que mais vier na cabeça, lembrando bandas importantíssimas do rock nacional como Raimundos, Charlie Brown Jr, Tihuana, De Menos Crime e Planet Hemp, mas com identidade própria e muita atitude.

O EP de sete faixas começa logo com um som “Sinistro” que vem numa onda mais pra cima, contratando com a faixa anterior, o clima aqui é de descontração, numa letra que fala sobre curtição e o poder que é estar cercado de sangue bom num rolê daqueles:

“Segura a onda / e deixa o povo pular / enquanto pula chega os
“Pula” / eu quero ver no que vai dar / os muleque já ta reunido / sente a fumaça, cheiro do perigo”

Seguindo temos a faixa 2, “Um Brinde”, que segue com os instrumentais em brasa, pois o ritmo é acelerado, porém a levada de Guilherme Fahl é mais relex para relatar os valores invertidos desse brasilsão, ao passo que deseja isolar-se desse caos curtindo uma brisa no litoral. A música é um paralelo entre as coisas ruins do Brasil como corrupção e alienação da população, com as coisas belas do pais, como as odas do mar e brisa suave na cara:

“Agora é só nós dois / vamos fazer história / que a positividade esteja junto com os irmão /dia a dia, lado a lado tamo junto na missão / aquelas horas que vem e os manos fortalecem / levanta a mão pro céu ajoelha e agradece”

A música três é “Policia”, os riffs de guitarra, o peso do baixo e paulada da bateria vem como plano de fundo pra letra que aborda os canalhas de farda, que promovem a matança nos guetos, em serviço de elites, os policiais que se sentem reis, pois tem uma arma e aval pra puxar o gatilho:

“No lugar certo, na hora errada / cotidiano é violento e acontece na quebrada / são três horas da madruga / na rua comigo as estrelas e a lua / não, não eu olhe pra frente estava lá / aqueles pé de breque que eles só pensam em atrasar / Vai, mão na cabeça / a essas horas na quebrada eu que sou a realeza / Vixi / Com ódio no olhar / a máquina mortífera que veio para aniquilar!”

Viva o Momento” é a faixa seguinte, que já inicia numa balada punk, daquelas que até as baratas batem cabeça enquanto o som sai das caixas, e até o momento do EP a música mais “romântica” do Dária:

“As fases da vida difícil de controlar / mas é lutando um dia sei que vou chegar / te levo pro lual se quiser colar comigo / pra outro lugar a gente dá um sumiço / o mundo dos lokos é assim é intenso / te ganho na madruga é fazer tudo o que penso”

A quinta faixa é “Progresso” numa pegada punk rock e vocal acelerado no bom estilo rap com marcantes viradas de bateria, a letra versa sobre a quebrada e como a visão da área não é bela, ao passo que a banda deseja o progresso aos que vivem nessa situação de pânico e calamidade:

“Na madrugada ouço tiros polícia mata em vão / uma criança chorando e não vai ter perdão / eu vi um beco e vejo corpos no chão / na madrugada ouço tiros polícia mata em vão”

Com groove gostoso de se ouvir vem a música “Pra Viajar”, com um baixo marcante e variações de flow do Guilherme Fahl, a bateria rouba a cena no refrão enquanto que os ótimos riffs de guitarra cadencia a faixa, destaque para o solo no final da track), ótimo a vibe:

“Zé povinho é mato, tamo até saindo fora / sampa é acelerado mas a mente é mil por hora / é só seguir sua cabeça que te leva em algum lugar / tem uns maluco na cidade querendo te encontrar / eu vou me achando em cada esquina uma visão / alguns tropeços no caminho me mostram a direção”


E fechando o disco, o clima é tenso em “Fiquei Doce”, é rock underground, sujo e gangsta, numa letra inspiradora sobre um pião na noite em sampa, com todas suas tretas e armadilhas. Uma ótima canção com riffs de guitarra mil grau e direito a backing vocal no corô: “Nós somos Dária!”

“O salve foi mandado quem quiser pode colar / o doce já repartido preparado pra dropar / foi pra mente subiu, começou a delirar / quem não aguenta a pressão 1/4 faz viajar / eu sou da rua ta ligado rapá”

Gravado no estúdio Mecanix, em Butatã, o disco segue como um grito de autoafirmação de jovens periféricos que trombam com as mazelas promovidas pelo sistema constantemente. Dária é uma banda que não se rotula, evidentemente sua base tá no bom e velho rock n’ roll, rebelde, porém com causa, mas dizer que a banda é assim ou assado querendo enquadrar o estilo dos malucos em alguma vertente é perca de tempo, Dária é atitude rock e segue as influências de tudo que gostam, e que consequentemente nós gostamos.

É maneiro ver as influências referências de muita banda boa materializado nos instrumentos e vocal do Dária, mas como dito no início desse release, Daria é som competente, é autoral, é uma puta banda com uma puta atitude, e identidade própria, extremamente eficaz na mensagem e com qualidade decair o queixo. Não será surpresa se daqui alguns poucos anos ouvirmos a seguinte frase: “Aquela banda é da hora, faz um som loko, misturado, tipo Dária!”. E viva o rock n’roll “tipo Dária”!

 

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