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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

SP Funk eo Lado B do Hip Hop

O SP Funk é responsável por um dos discos mais épicos do rap nacional, o clássico "O Lado B do Hip Hop", o estilo do grupo chegou a ser referido como "o rap da paz" por jornalistas de fora do movimento, justamente por que o grupo formado por DJ QAP, Tio Fresh, Bomba e Maionese vieram numa proposta diferente de rap, como o próprio nome do disco deixa claro, é o Lado B do Hip Hop, ou seja, não é um trabalho voltado para as crônicas da vida bandida ou a narrativa de sobrevivência nos guetos que os grupos de rap dos anos 90 transmitiam. Porém engana-se quem acha que o álbum, ou banda (pelo nome) é rap de festa e de playboy, o SP Funk vem com rap de mensagem e coma essência da periferia, também traz denuncia e protesto, mas vai além, traz bom humor e letras bem elaboradas com metáforas, lirismo e punchlines, isso lá em 2001, antes de virar moda agora na metade da década de 10.

Nove anos na correria o grupo lança seu álbum que contou com apadrinhamento (e participação especial de Thaíde & DJ Hum). Abrindo o disco tem a "Introdução" comandada pelo DJ Hum que apresenta o grupo e cita como será a experiência do disco: "Viajando na espaçonave psicodélica do som do SP Funk". Na faixa dois, e primeira música do disco, o grupo vem acelerando com suas rimas e metáforas em "Funk  2001", em um rap que aborda vários temos temas, tudo junto e de uma só vez, servindo como um cartão de visita para o grupo, que tem muito a dizer e rimar: "Já vou, tô chegando, vou acelerar meu carro, vou começar, meteoros no céu, fogos de artifício, quatro, três, dois, um, o Bomba lança um míssil. Universo no meu verso, todos os planetas, eu exumo no papel com a ponta da minha caneta, espasmo no falante, cante alto o bastante, com mais conhecimento do que livro na estante". "Viaje" é a faixa três, e uma das principais do álbum, sendo muito executada na rádio 105.1FM, no Programa Espaço Rap, com seu refrão marcante: "Viaja nessa ideia se você tem o dom, é de verdade originalidade. O número 1 da cidade", música que contém sample de Roberto Carlos, com a canção "Seu Pudesse Voltar no tempo", de 1970.


"Por onde você for eu vou, eu vou pra lhe dizer, dizer, que não tem onde correr, correr, não tem onde se esconder", diz o refrão de "Por onde For", outra pedrada do SP que ganhou a 105 FM, música que aborda os descasos no Brasil, numa pegada que aproxima o grupo do rap anos 90, e que se consolida na faixa seguinte "Enxame", que conta com a participação do grupo RZO e do finado Sabotage ("A família está unida e assim ficará..."), rimando sobre a malandragem das ruas para se manter inteiro. A música 6 é a "Vai Subir", que segue um proposta parecida, no sentido de narrativa com os percalços e causos da favela, enquanto que a música 7, a "Legião Estrangeira" o grupo comprova sua criatividade rimando sobre fatos do Oriente Médio e lendas do deserta, traçando um paralelo com o nosso Brasil, com destaque para o belíssimo refrão: "Rumo ao Sol eu sei que irei, minha tropa seguirei. O caminho já errei, por uma estrela me guiei, me levantei. Contra o rei me rebelei ,ja falei".

Na faixa "Cuidado" participam Max B.O., Kamau e Suave (Jigaboo), que formam uma equipe para enfrentar o SP numa batalha de MC's, com direito a narrador apresentando cada lutador... digo, cada MC. Uma faixa mais humorada para os caras mostrarem sua rima e construção de versos, sem apontar um vencedor para a "batalha". Seguindo tem a música "Na vida", com vocal mais cantado e apresentando uma faixa mais melódica e refrão voltado ao R&B: "É cada um por si, quem sabe?  Deus por todos nós, um salve. Quanto vale? Quanto apostar no jogo que se quer jogar? É cada um por si, quem sabe? Deus por todos nós, um salve". A música 10 fecha o "lado A" do Lado B do Hip Hop,  Tio Fresh, Maionese e Bomba vem afinados na caneta para  rap "Fúria de Titãs", com produção do DJ Hum e sample de James Brown, em "My Thang", do disco Hell de 1974, o bom humor também está presente nessa faixa, que tem como base exaltar as rimas do SP.

A seguir a faixa "Falsidade no Jogo", que é antecedida por uma vinheta, que fala sobre a hipocrisia de forma lírica, porém lúcida, com exemplos palpáveis. A música 13 tem a participação da banca do Zafica Brasil, "Fora de Foco" é uma daquelas poesias bem loka com a variação de timbres de vozes devido ao flow característico de cada MC, e construção conjunta de versos, enquanto que a letra explana sobre  a inversão de valores e imagens distorcidas. "Queda" é a faixa 14, com batida de violão, mais harmoniosa e melódica, a letra fala dos sentimentos do fracasso, mesmo após a receber a conselhos que poderiam evitar a queda, a letra tem pitadas de humor fazendo sátiras, assim como a faixa seguinte, "Segue a Rima", que mantém essa essência piadista do grupo para o disco, talvez isso que deu o título de 'rap da paz", nessa segunda, o SP faz homenagem a vários grupos, citando-os na letra, como Planet Hemp, Sepultura e o Athalyba e a Firma, assim como o Xis.

A música "4 Cavaleiros" leva o ouvinte a idade média, na era dos cavaleiros e confrontos medievais, com refrão marcante e que denuncia a participação do padrinho: "Quatro cavaleiros da távola redonda, Thaide, Fresh, Maionese e Bomba". A música de número 17 é "Última sequência", a última do álbum, antes do "Enceramento" , e volta num apegada mais gangsta de denúncia e protesto, mas seguindo o lirismo que marcou o grupo.
O Lado B do Hip Hop é um disco importante para o rap nacional, não somente pela qualidade técnica e originalidade dos MC's, mas também (e principalmente) pela forma de fazer rap se preocupando com o nível das rimas e abordagem de assuntos mais voltados para o gênero literário lírico do que as narrativas de seus antecessores. A experiência do SP Funk veio a influência uma geração que cresceu ouvindo o som dos cara, os tornando lendas do rap nacional.

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