A Prisão do Planet Hemp - Baseado em Fatos Reais - #submundodosom

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quarta-feira, 14 de março de 2018

A Prisão do Planet Hemp - Baseado em Fatos Reais

“Baseado em fatos reais
perto do ano 2000
liberdade de expressão aqui nunca existiu
o que eles querem eu sei é me deixar de lado
polícia bate no povo e o povo aguenta calado
dizem que faço apologia porque canto a vida
querem tampar minha boca enquanto fecham a ferida
acostumado com o poder manipulando mente
fica sabendo compadre comigo é diferente
Rua é o lugar de onde vim
e de lá vem a história de muitos igual a mim
vou te lembrar de uma coisa
um velho ditado popular
a lei tarda, tarda e tarda pra falhar”


No domingo, dia 09 de Novembro de 1.997 o Planet Hemp subia ao palco em Brasília, fazendo um show eletrizante para mais de 7 mil pessoas, mas aquela tarde seria marcada por um atentado à democracia brasileira e a liberdade de expressão no pais, cerca de 20 policiais do CPE (Coordenação de Polícia Especializada) invadiu o camarim da banda dando voz de prisão aos membros atuando-os em “flagrante”. O grupo foi autuado nos artigos 12 e 18, que significam apologia ao uso de drogas e associação de pessoas para o uso de drogas, que constam na lei de entorpecentes número 6.368/76.

Com sucesso meteórico, em menos de 4 anos a banda conquistou o público e a crítica, teve 100.000 cópias vendidas do primeiro disco (Usuário), e em 1997 comemorou 200.000 cópias vendidas, a banda crescia e incomodava as autoridades tupiniquins devido o teor de suas letras. Logo vieram as medidas para tentar conter o avanço da banda, os shows passaram a ter policiamento ostensivo e ficou proibida a entrada de menores de 18 anos no local, em outros lugares a lei foi mais rígida, os shows do grupo ficaram vetados, isso ocorreu em Salvador, Curitiba e vitória. Um dia antes do show que levou os caras para trás da grade, outro evento que teria o Planet como protagonista fora cancelado, pois os organizadores não queriam ter problemas com a justiça, e foi em Belo Horizonte que estavam preparados para subir ao palco mas foram detidos, passaram 5 horas na delegacia de Tóxicos de BH, “Ficamos pelados, os caras viram cada bainha, cada linha do tênis. Tinha cachorro cheirando o nosso rabo, muito constrangedor”, revelou Marcelo D2 numa entrevista à revista Playboy.

Durante a revista na bagagem da banda apreenderam um chaveiro em forma da folha de maconha, uma ponta de cigarro e uma caixinha contendo Artemísia, uma planta medicinal. Mas sem provas o para manter a banda na cadeia, o Planet Hemp foi liberado e seguiu para tentar fazer seu Show.

A polícia da capital federal tinha ansiedade para pôr as mãos nos “maconheiros”, em meados do ano anterior, até a data da prisão, a polícia federal de Brasília analisou as letras do Planet Hemp, e chegou à conclusão de que aquilo nada mais era do que uma afronta a Justiça brasileira, mas precisavam juntar evidencias que convencessem o juiz e assim trancafiar os músicos.

O delegado Eric Castro, da Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes pediu autorização da justiça para gravar áudios da banda em um show que fizeram no tênis clube Minas Brasília, com isso foi “provado” que a banda incentivava o uso de maconha, e o ato poderia, e foi, ser enquadrado nos artigos 12 e 18.

Assim os músicos Marcelo Maldonado Peixoto, Gustavo de Almeida Ribeiro, Eduardo da Silva Vitória, Joel Oliveira Junior, Wagner José Duarte Ferreira e José Henrique Castanho de Godoy Pinheiro saíram algemados do tênis clube em direção ao CPE, que tinha capacidade para 140 detentos, e naquele momento abrigava cerca de 250 homens, em seguida seriam transferidos para o Complexo Penitenciário da Papuda, assim que pintasse vagas no recinto.

Vale lembrar que Rafael Crespo havia se acidentando dias antes, e ficou impossibilitado de acompanhar a banda, sendo substituído por Jackson, (Eduardo da Silva Vitória), e BNegão havia saído do grupo para liderar o The Funk Fuckers, dando lugar a Black Alien, assim os artistas se livraram de pegar cana também.

Fernando Gabeira, na época deputado estadual pelo Rio de Janeiro, conhecido por não ter preconceitos com a erva, visitou os músicos presos e levou para a câmara a discussão sobre a liberdade de expressão no pais. Paralelo a isso, a SONY, gravadora do Planet Hemp, precisava se mexer e fazer algo, assim contratou o advogado Nabor Bulhões entrou com um pedido na justiça de “relaxamento da prisão”, ou seja, a soltura do grupo, alegou que as provas, apresentadas pela polícia de Brasília não detalhava quais músicas foram cantadas e nem quais expressões caracterizavam como apologia as drogas. Porém o juiz da 1ª Vara de Entorpecentes e Contravenções Penais de Brasília, Vilmar José Barreto de Pinheiro, negou a petição, mantendo o Planet Hemp atrás das grades.
O cativeiro dos músicos se tornou um local de devoção a banda, perto dali fãs se reuniam e cantava as músicas da banda e mandavam mensagens de apoio ao grupo. Eduardo Suplicy, na época senador pelo estado de São Paulo, visitou o Planet Hemp demonstrando seu apoio, e uma corrente de artistas também começava a se expressar mostrando repudio a justiça brasileira, eram eles Marisa Monte, Fernanda Abreu, Rita Lee, Gilberto Gil, Paula Toller e Caetano Veloso.

Seguindo um pedido de Gabeira, o delegado do distrito, na quarta-feira seguinte a prisão, transferiu o grupo para a 3ª Delegacia de Polícia, na cidade-satélite de Cruzeiro. Em quanto isso, o advogado Bulhões conseguia um habeas-corpus e no dia seguinte, o desembargador Otávio Augusto Barbosa, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, aceitou a argumentação da existência de erros técnicos no flagrante, com isso o Planet saiu de trás das grades numa quinta-feira, em 14 de novembro. Um furgão os apanhou no pátio da delegacia e partiu direto para o aeroporto, evitando contato com as cerca de 100 pessoas que esperavam a saída dos músicos, e gritavam trechos de canções.

Após sair da prisão Marcelo D2 comentou a grande exposição que a banda deve por conta do fato, inclusive escreveu em parceria com Black Alien a música “Baseados em Fatos Reais” que rimava sobre o ocorrido:

“[D2]

Baseado em fatos reais
Perto do ano 2000
Liberdade de expressão aqui nunca existiu
O que eles querem, eu sei, é me deixar de lado
Polícia bate no povo e o povo aguenta calado
Dizem que faço apologia porque canto a vida
Querem tampar minha boca enquanto fecham a ferida
Acostumado com o poder manipulando mentes
Fica sabendo compadre comigo é diferente
Rua é o lugar de onde vim
E de lá vem a verdade de muitos igual a mim
Vou te lembrar de uma coisa
Um velho ditado popular
A lei tarda tarda e tarda pra falhar
Roubaram, mataram, levaram o dinheiro do povo
Querem me calar, mas olha eu aqui de novo direto do Rio de Janeiro
Zona norte correndo atrás com muito trabalho e sorte
Malandro que é malandro não enverga
E quem sou eu pra ficar quebrando regra
Senhoras e senhores estou chegando aos céus
Black Alien bem vindo ao banco dos réus

[Black Alien]

Eu, sou pago pra rimar e rimo pra ser pago
E até preso e desta história ninguém saíra ileso
Não subestime, meu time
Toc toc políce é uma questão pessoal me pegar no crime
Mas eu te trago más novas
O nascer do sol se mantém sublime
De um lado eu tenho bob do outro eu tenho o Jimmy
I rock on the clock, no stile do hip hop
Da lírica bereta ou da lírica glock
Sentado no banco dos réus ao lado do rei
Meu foco é a minha sentença
Eu sei hora do pesadelo bem vindo
Cego num asilo
Mar gelado
Caindo no "pelo"
Luz no fim do túnel
Alarme falso
Prazer em revê-lo
Decepciona-lo
Sangue na cena do crime vaza pelo ralo
Impressionado eu dei um 2 no que Deus não me pôs
E eu estou enjaulado
Mas continuo no pareo Black Alien
Estilo livre função MC
Culpado até que provem o contrário
Pra quem vem do passado o futuro é diferente
O presente no tempo presente
O meu futuro é outro
Eu vou extravasar com o melhor da gente
Eu pico
A mula toca o barco e passa a bola
Urgente como um bravo bombeiro
Meu semelhante eu resgato
Lava jato a visão distorcida dos fatos
A hora é agora e o lugar é aqui
Revolução, televisão não vai transmitir auto-intitulado
Dj's e mc's espaço entre a paz e o inferno é um triz
Não vim a toa e vou ficar para sempre queimando
Espalhando essa lava fervente
Sem rabo preso ou assunto pendente
Ninguém passa o pente no alienígena residente
Me pergunta se eu to pronto e te digo o tempo todo
O tempo passa o tempo passa o rodo
Momentos lentos enquanto detentos
Ano novo nada próspero o fundamento
O escadinha de helicóptero
Detritos federais me botam na sequela
Só quem tem sangue bom que não amarela
Com vocês meu companheiro Marcelo

[D2]

Os cães mordem e a caravana para como você disse otário
Mas estou aqui pra te provar o contrário
Meu raciocino é muito rápido
Vai entrar na sua mente então cuidado
Vai ser assim daqui pra frente
Não gostam do que falo me jogam na jaula
Acho até que tive sorte
Outros vão pra vala correndo atrás de mim
Querendo me pegar
Tão confundindo não sou nenhum Pablo Escobar
D2 não
Somente o rei só me meto onde sou chamado só faço o que sei
Só quem teve lá sabe como é que é
Um abraço seu Raimundo pavilhão 2cpë
Passarinho na gaiola não canta
Mas o bom passarinho bate a poeira e levanta
Sai pra lá pela saco não vai me alcançar
E se alcançar vai ser difícil derrubar
Esse é um pedaço de uma história
Que eu passei a um tempo atrás
Baseado em fatos reais”

Essa letra está no CD solo de D2, Eu tiro é Onda, Marcelo se aventurou solo, pois ainda havia uma determinação da justiça que impedia o Planet Hemp de se reunir em espetáculos, o que gerou episódios curiosos como na apresentação de Marcelo D2 no programa “H” da TV Bandeirantes, em 1999, o rapper estava cantando uma de suas músicas, e de repente se aproxima do câmera e diz, “Não contem pra ninguém não, mas é o Planet Hemp que está reunido hoje aqui”, e assim tirou onda mesmo, como sugere o  título do CD.

O mundo deu voltas, os músicos do Planet Hemp saíram da cadeia, lançaram novo CD, fizeram shows, enveredaram em carreiras solas ou gravando com grandes bandas e continuam trilhando seu caminho, porém o Juiz Vilmar José Barreto Pinheiro, o mesmo que mandou prender os músicos em Brasília, em 1997 foi condenado a aposentadoria compulsória, em 2014, pelo Conselho Especial do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. De acordo com o jornal “Correio Braziliense”, o magistrado foi acusado pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) de receber R$ 40 mil para conceder a liberdade a um traficante quando exercia o cargo de titular da 1ª Vara de Entorpecentes e Contravenções Penais de Brasília. Na época da prisão dos músicos, o juiz também proibiu shows e a venda de discos, fitas e CDs da banda no Distrito Federal.

O juiz foi afastado do cargo através de uma votação, com a aposentadoria compulsória, Barreto não poderá mais exercer a magistratura, mas continuou recebendo salário do tribunal que em abril daquele foi de R$ 28.761,43.

No Facebook, o Planet Hemp considerou a punição ao juiz “se não uma ironia, ao menos uma escancarada safadeza do poder judiciário brasileiro”.


Foto e texto postado pela banda no facebook, após ser divulgado o esquema de corrupção do juiz que colocou o Planet Hemp atrás das grades em 1997.

Em um texto intitulado “Retrato da hipocrisia e falso moralismo da sociedade brasileira”, a banda informa aos fãs o ocorrido e chama a sociedade a desintoxicar a sua percepção:

“Até quando a sociedade dará ouvidos a discursos recheados de interesses e financiados não só pela corrupção, mas pela falta de esclarecimento geral da população? Bater no peito e levantar bandeiras contra as drogas é fácil, ainda mais com o auxílio da mídia atenta em manipular e instigar o senso comum.

Desintoxique-se! E, ao falar isso, não estamos nos referindo a nenhum tipo de substância. Desintoxique a sua percepção! Preste atenção em quem realmente diz ser a voz da justiça desse país, condenando a liberdade de expressão de forma atroz e reflita se é essa a representação que você realmente aceita para si.”

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