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quinta-feira, 22 de março de 2018

LP O Som das Ruas


Antes do rap entrar de vez em cena ouve a fase de transição, das festas de salão para o hip hop, e é inegável que as equipes de bailes foram fundamentais nesse processo. Dynamite, Circuit Power, Black Mad, Zimbabwe, Kaskata's e Chic Show introduziam em seus shows os MC's, DJ's e B.boy's dando espaço e voz para o hip hop nos anos 80, época em que o rock era muito forte no pais , assim como as rádios, que ditavam tendências, e cada vez mais surgiam selos de gravadoras e lançamentos e vinil e k7. O Hip Hop roubava a cena por todo território brasileiro, mas principalmente em São Paulo, em um lugar especifico: A Estação São Bento, lá rolava as rodas de break, com batalhas entre b.boys, cada qual defendendo as cores de sua crew, jovens vinham das mais remotas periferias de São Paulo, e do Brasil para trocar informações sobre moda, grafitti, discos, fotografia, dança e os MC's faziam seus primeiros versos batucando em latas de lixo, ou ao som do beat break que saia dos bons e velhos boombox.

As equipes de baile aproveitavam a febre do break e realizava festas e  concursos apresentando DJ's e MC's, porém o rap de salão era mais festivo, diferente do rap das ruas que já possuía cunho social e letras de denuncia e protesto. Em 1988 surgiram os dois primeiros registros de hip hop do Brasil, o LP "Cultura de Rua" lançado em 02 novembro e novembro e uma semana depois o "O Som das Ruas", essas duas obras tiveram o objetivo de tirar o rap do salão e colocá-lo nas ruas, sendo o embrião da goldeN era do rap nacional. Vale lembrar que os registros são pioneiros, mas não foram os primeiros trabalho de rap no Brasil, outros como o LP "Ousadia Rap" da equipe Kaskata's tinha sido gravado no ano anterior. O que acontece que os trabalhos de 88 inseriram o contexto do hip hop, trazendo para os discos as gangs, tendo MC's, DJ's, Grafiteiros e B.boys.

O disco O Som das Ruas  foi lançado pela Epi e Sony e revelou grandes nomes do rap brasileiro como Ndee Naldinho, na época com a alcunha de Ndee Rap,  Os Metralhas, grupo de onde veio Lino Crizz, Sampa Crew, além de Mister e Dj Cuca. O LP trouxe dez faixas e oito artistas que mesclavam o rap dos bailes com o rap das ruas.
O disco abre com o "Rap da Abolição", do grupo Os Metralhas, com sample de da banda estadunidense Trouble Funk, de R&B e funk, responsavel por popularizar o ritmo em Washington, a música sampleado foi a "Pump Me up", além  desse hit, o grupo paulista usou também sample de Whisitle, em (nothing Serious) Just Buggin', do ano de 1985, e sampleou também a música "Change the beat (Female Version)", do grupo BeSide. Nessa letra os Metralhas abordam a questão racial, o preconceito contra os negros no pais e é um grito de protesto em prol da luta dos irmãos negros. Os Metralhas era formado por Dj Cri e seu irmão Lino Crizz, na época com apenas 13 anos:

"Eu tenho uma vida diferente da sua 
já tive mordomia, mas hoje durmo nas ruas 
não quero nem saber que dia é, que horas são 
pois eu sou um fruto novo de uma nova geração. 
Geração que não pensa, que não sabe o que fazer 
quando ver a burguesia tomar conta do poder, 
e eu sei que você pensa que estou ficando louco, 
talvez o meu futuro seja corda no pescoço, 
mas eu não mudo a minha opinião, 
eu trabalho, dou duro e ainda me chamam de ladrão "

A segunda faixa é "Sem Querer", de Catito, que traz um love song para O Som das Ruas, numa faixa apaixonada e com música lenta, como era comum ter nos bailes dos anos 80 aquele momento de dançar juntinho. Catito também participou de outra Coletânea, Ritmo Quente II, de 1991, com a faixa "Eu Voltei", infelizmente não temos maiores informações da carreira do artista e nem do atual paradeiro do cantor, mas segue trecho de sua colaboração no O Som das  Ruas:

"As vezes deixo de levar, mesmo sem querer
Mergulhando nas lembranças, eu quero saber
Me tiraram as armas, minha proteção
Fragilidade a merce de uma paixão
Você me fez perder a cabeça
Deixei que tudo aconteça
Agora eu sei, já posso dizer
Te amo, não dá mais pra esconder"

Quem ouve o clássico "5º Vigia" do Ndee Naldinho não imagina que seu começo de carreira foi bem diferente, a começar pelo seu nome, que em 1988 era Ndee Rap, e veio com um rap mais festivo e voltado para a tiração de onda , Com dois samples, um internacional de Chubb Rock, onde a letra é cantada em cima da base da musica DJ Innovator. e o outro sample nacional, colagens de "Jack, O Matador", da dupla Léo Canhoto e Robertinho:

"A lagartixa, a lagartixa,a lagartixa na parede
A lagartixa, a lagartixa,a lagartixa
Moeda gozada!
Perguntem como foi, e sobre o que dizem
Em Nova York o rap rock
Just easy!
E imaginem estando ali
Em plena Nova York
Eu cantando assim"
A faixa 4 é a do Mister,  a "Melô da Chic Show",  onde o DJ Mister  trouxe para o LP a essência dos bailes que protagonizava com a Chic Show, discotecando um som que faz a galera vibrar e dançar e introduzindo brincadeiras para interação da massa, a mais tradicional é o grito de guerra da equipe " Everybody Chi… Chic Show":

"Com muito som, imaginação
A minha ideia é misturar
Mixando as músicas pra você
Um novo rap eu vou cantar
Já pensou se eu chegasse aqui nesse salão
Não falasse com ninguém, não agitasse nesse som
Seria uma droga, não iria ser legal
Por isso te convido pra cantar nesse coral

É agora, é agora, é agora (que o bixo vai pegar)
É agora, é agora, é agora (que o bixo vai pegar)"

A próxima música é "Rap Love", escrita por Billy e Paul, integrantes do grupo De Repent, e com refrão melódico feito por Thula Mello, Como o próprio nome da faixa sugere, a música segue uma linha mais romântica e fecha o lado A do disco:

"Ultimamente, estive pensando
Como seria a vida sem você
Não consegui me achar, não consegui imaginar
Realmente, sem você, não dá para ficar
Me vejo orgulhoso de ter lhe conhecido
E por ser algo mais do que um amigo
Acho incrível como as coisas acontecem assim
Espero que o nosso amor nunca chegue ao fim"


Iniciando o lado B do LP, temos novamente Ndee Rap, dessa vez com o som "Festa de Arromba", com rimas ao lado de Frank, seu MC de apoio, o beat pesado entra em contraste com a melodia do teclado e destaque para a roquidão da voz de Naldinho, com um flow direto  certeiro, a música poderia ser inspiração para "Festa da Música' do Gabriel, o Pensador, pois têm uma temática similar, de vários artistas reunidos em uma festa, com direito ao negão Kool Moe Dee xavecando uma coroa:

"Martinho da Vila falou que também curte rap
Mas não deixa seu samba que curte desde muleque
Bomberto amando, dança pop e revela
que ficou apaixonado e só tá pensando nela
Cada um tem sua vez, e de repente surgiu
o grupo Fundo de Quintal com "Morena Partiu"
O Dudu França contente cantando "Eu e Ela"
E apaixonado Bomberto que só ta pensando nela
Eu já disso ao Bomberto que se ligue e não se engane,
Pegue o disco do Tim Maia e ouça "Telefone"

Na sequência Sampa Crew, com a música "Foi Bom", uma das primeiras do grupo, que tem como característica as letras românticas e trazia uma mistura da soul music com as batidas marcantes do hip hop, como era o desejo de JC Sampa, o fundador do grupo e hoje produtor musical, sente o romance da letra do Sampa Crew:

"Me encontrava sozinho, triste e desiludido
Não sabia que o futuro ia ser tão colorido
Você se aproximou e em minha mão tocou
Foi tudo em um só flash, senti que estava vivo
Seu rosto em volta a um leque num ar de misticismo
Eu fiz então meu mito, juro quase não acredito
Momentos de suspense em duelo e comoção
Trocamos mil olhares, soltei meu coração"


Depois temos  "Pega ladrão", outra do grupo De Repent, com o beat acelerado típico de um racha de break mostrando um flow direto e reto que contrasta com os backing vocals, o refrão da música ganha a melodia dos teclados e na segunda parte a nostalgia toma conta com a clássica distorção oitentista dos teclados. A letra fala dos ladrões, tanto os trombadinhas e trombadões do Centro da Cidade como os colarinhos brancos, um verdadeiro rap de denúncia e protesto e que com certeza elevou o nível do LP O Som das Ruas:

"Passeava outro dia pelo centro da cidade,
olhando as vitrines, apreciando as novidades
atravessei a rua, estava no calçadão
quando fui surpreendido por uma aglomeração
em meio toda aquela confusão
saiu uma senhora que gritou "pega ladrão!"
Eu disse pega, pega, pega
Eu disse pega, pega, pega
Pega, pega ladrão!"


"Check My Mix", remix da música Check My Machine feito pelo DJ Cuca, um grande incentivador da música negra naquela época. Então pegou a música de Paul MacCartney, lançada em 1980 e remixou dando uma cara  mais modera, para aquela época, uma cara mais de baile. 

A Faixa seguinte, fecha o disco, é o "Rap do Francês" cantada por Dee Mau, que faz uma brincadeira com o idioma francês, com beat seco e pesado e ganha melodia do teclado no refrão:

"Chegado, cheguei, e vou levando pra vocês
um lance diferente, tipo o um rap no francês
não é nada muito complicado, até que é divertido
é só vocês ficar ligado e repetir comigo
Eu vou dizer muito obrigado e vocês dizem la mon amour
mademoiselle, merci bocu, bo - cu!!!"

O LP O Som das Ruas apresenta a forma como o hip hop nasceu no Brasil, mais festivo e debochado, porém sério e tenso quando é pra ser, do mesmo modo que sabe falar de amor. Em 2018  o rap apresenta uma versatilidade gigante, pois há muitas pessoas fazendo música no gênero no  pais, mas o rap já nasceu diversificado lá no comecinho, a começar pelos samples de outros artistas, pois numa época em que nem se sonhava com FL Studio as batidas vinha de instrumental gringo, que por sua vez derivavam de bandas de funk, soul, R&B, gospel, rock, blues e até country. O rap nasceu diversificado, e depois se segmentou afim de trazer crônicas sobre a realidade na periferia e denunciar as violências vivenciadas., mas com a evolução da cena a diversidade voltou, porém por mais festivo ou romântico que um grupo ou MC seja é importante lembrar da raiz, do protesto e denuncia, pois estamos no Brasil, um pais que não vai bem.

Voltando ao O Som das Ruas, o disco é uma amostra da fase inicial do hip hop, que vale a pena todos os amantes dessa belíssima cultura terem em sua coleção, mesmo que seja em mp3, pois através das letras de Ndee Rap, Sampa Crew, Mister, De Repent, Dee Mau, Catito e Os Metralhas conhecemos um pouco da nossa história que é divertida porém dura, ou é dura , mas é romântica, senão conhece esse álbum cê tá vacilando.

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