Sangueaudiência de O F.UR.T.O. - #submundodosom

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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Sangueaudiência de O F.UR.T.O.


O Furto, é uma banda que se você não conhece ta vacilando! O F.UR.T.O. é um projeto de Marcelo Yuka, ele mesmo, o cara que deu identidade a O Rappa, ex-baterista e ex-letrista da banda carioca. Yuka põem no F.UR.T.O. todo seu sentimento e poesia, num trabalho belíssimo de muita melodia e com aquela coisa de questão social característica do Marcelo.

Apesar de apenas um disco, o Sangueaudiência de 2005, lançado pela Sony BMG, a banda é referência pela qualidade do som e letra que a obra carrega. A sigla F.UR.T.O. prova a que questão social está no nome da banda: Frente Urbana de Trabalhos Organizados, bandeira que que Marcelo Yuka defendia desde O Rappa, é possível ver Falcão com a camiseta do O F.UR.T.O no clipe da música Me Deixa.

O disco é carregado de participações especiais também, como a do parceiro carioca de longa data B.Negão (Planet Hemp, The Funk Fuckers, Turbo Trio, e Seletores de Frequência) na faixa “Gente de Lá”, tem também presença internacional com o parisiense Manu Chao em “Todos de Baixo do Mesmo Sombreiro”, a conhecidíssima e queridíssima da MPB Marisa Monte deixa seu dom na canção “Desterro”. A música “Verbos a flor da Pele” é uma linda poesia em homenagem ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, onde teve participação de um dos integrantes o João Pedro Stédile.

Sangueaudiência começa com a faixa Terrorismo Cultural: “um atentado, contra golpe contra tudo que já se foi falado, jurado, esperado e prometido como solução”, iniciando numa pegada rock n roll, beirando a psicodélica porém sem as cordas. A próxima canção é  Ego City: “Comprando de quase tudo, do orgulho à cocaína, de dólares a meninas. Passando em frente à réplica da Estátua da Liberdade, que nos prende ao consumo siliconizado e farpado urgente que diz bem-vindo a Ego City”. Amém Calibre 12 é porrada nos ouvidos: “Porque só bandido pobre morre cedo, só bandido pobre morre cedo e nunca é tão cedo pra morrer pobre só, mas é tarde demais para explicar”. Já Mental Combate se apresenta em tom mais moderado, mas de igual crítica social: “Nós intimidados somos as ruas que choraram na maior favela do Brasil, onde o soro caseiro é um abraço de mãe”. Manu Chao entra em cena na faixa Todos de Baixa do mesmo Sombreiro, cantando em espanhol, a música denuncia as ditaduras militares e lembra da lenda de Che Guevara: “Do AI 5 ao 11 de Setembro chileno, do Sendero Luminoso, aos filhos encapuzados de Sandino, depois de tantos planos tramados...”

Flores nas Encostas do Cimento, é uma baita poesia musica pelo O F.UR.TO, em um lirismo sem igual que fala sobre clarear tormentos: “Antes que o samba vire só um ruído de fundo, eu vou tocar mais alto para ouvir meu coração, porque não existe enredo do inferno que me tire a emoção”. Em seguida Cidades, canção que lembra o Hip Hop fala: “Quando a arte se torna maior que a criação, muitos a chamam de obra. Quando a obra se torna maior que o homem, ela se chama cidade. B.Negão vem reforçar a poesia de Yuka em Gente de Lá, música que inicia com dialogo real de traficantes, com áudio captado através de rádio amador nos morros do Rio de Janeiro: “...Comemorei na rua um título com alguém que só tinha a mesma camisa que eu. Contei minha vida pro cara da cerveja ao lado e no sábado encontrei alguém que me conhecia muito bem, mas eu não sabia o nome de quem. Mas há um cheiro de pneu queimado no ar...”

Coisas Tão Simples é a próxima música do disco, e essa narra um estereótipo pesado do local, melodia lindíssima: “Mães de leite lutando para alimentar a sua crença, como páginas de um livro xerocado à força, mas quando o básico do mundo fica raro é que vemos melhor nossas paixões”. Paradoxo, outra canção forte, tanto em letra como na musicalidade, que fala dos paradoxos da vida, principalmente do lado mais desfavorecido:

“Olhos negros de olhar azul ao lado dela
Mãe demais para ser jovem
No país do paradoxo o ilegal
Transmitido ainda não é cultural
Pois a maioria de nós como povo
Ainda possui poucas virtudes para o mal
Pois a maioria de nós como povo
Ainda possui poucas virtudes para o mal
Eu sou um misto de ossadas indigentes
Ao lado do cadáver de Tim Lopes
Com fliperama violento de boteco
Informação para desviciar os olhos
Versus a verdade como um bem caro demais
Narco-deputados e um religioso ex-viciado
Equações de um desastre previsível”

A faixa Caio para Dentro de Mim, mostra os fantasmas de Yuka, em relação ao seu “acidente”, quando o músico, ainda no papel de baterista do O Rappa foi baleado, durante um assalto, o que o deixa paraplégico: “...Só aos poucos me traz a minha lucidez, passado o tempo do baque. Superar, me religar com voz que vem de dentro e grita, que depois de tanto tempo, sangue, sirenes, quartos surdos enfim todas as transformações e é ela que cresce pra eu continuar a ser quem sou que o filme da vida passou e eu fiquei pra ver o fim...”. Sombra Liquida é a faixa que mais gosto, sou suspeito pra falar dela, por isso... Vamos pular esse poema, e lê-lo na integra no final desse artigo!

Marissa Monte aparece para agraciar a música Desterro, que fala em âmbito internacional das diferenças sociais: “Turcos na Alemanha. Um Palestino servindo café em Israel. Afro-asiáticos nas ruas de Seatle. E mesmo assim ainda é difícil Vê um beijo multiracial em Hollywood...O mundo migra e dá de cara com fronteiras, as chaves são as mesmas...”. A Canção Não se Preocupe Comigo, é a mais swingada do álbum, é faixa mais rock n’ roll, não em atitute, mas em estilo musical propriamente dito: “O sal da lágrima fica no gosto que é o costume da língua... em duas falas diferentes. Mães de Acari na praça de Maio e outras tantas por ai...Entre o conflito e a indecisão...entre o conflito e a indecisão...”.

O emblemático álbum, e um dos melhores da música e poesia brasileira, sem exagero nenhum, chega ao fim com a música Verbos a Flor da Pele, que homenageia o MST e traz participação de um dos integrantes do movimento que discurta no final da faixa, fechando assim o disco, a música belíssima que diz: “Latifundiário escravagista ou os dois ao mesmo tempo, de norte a sul como pragas, alastrando a fome que acampa em quilombos ambulantes”.

A banda de Yuka é formada pelo próprio maluco que além das letras, foi responsável pelos samplers, percussão eletrônica, baixo sintetizado e programação de bateria, e vocal toca sua bateria eletrônica, do recife veio o conhecido Garnizé (Faces do Subúrbio), na bateria e percussão, e o Jam da Silva na percussão (Orquestra Santa Massa do Dj Dolores). O vocal ficou por conta de Mauricio Pacheco, que também vez guitarra e teclados em Sangueaudiência. Antes de O F.UR.TO, Mauricio Pacheco era membro da banda Mulheres Q Dizem Sim, de samba rock, e foi fundador do Stereo Maracanã.

E como prometido, vamos ver a poesia de Sombra Liquida:
O suor das costas que se apresenta
Como poesia trêmula de pai pra filho
E quando meu esforço quase não me convence
Privatizando a corrente sanguínea
E ela me persegue mais rápida
Que o nosso entendimento
Tão lenta quanto nosso perdão
Visto de cima, meu bairro é torto e glorioso
E se parece com o que nos transformamos em nossa fuga
Porque a sombra líquida, se te ganha
Te escurece os olhos, faz a honestidade vulnerável
E aí fica fácil nos tornar quem odiamos
Sob o céu vermelho das traçantes
O mesmo passado que nos caça nos salvou
E pouco antes do meu futuro enfatizar em convulsão
Eu entendi que caminhar para o fim do túnel
É ouvir um silêncio sem permissão
Essa é minha busca e minha intenção
Porque lá em casa
Mesmo quando não tinha trabalho
Só tinha trabalhador

Dados Técnicos do Sangueaudiência:

Gravadora: Sony BMG
Produção: Chico Neves • Marcelo Yuka • Maurício Pacheco
Projeto Gráfico: Não Consta
Duração: 74 min
Gênero: Rock
Idioma: Português

01 Terrorismo Cultural (Marcelo Yuka) 4:44
02 Ego City (Marcelo Yuka) 4:38
03 Amém Calibre 12 (Marcelo Yuka) 4:28
04 Mental Combate (Marcelo Yuka) 5:36
05 Todos Debaixo do Mesmo Sombrero (Marcelo Yuka) 5:21
06 Flores Nas Encostas de Cimento (Marcelo Yuka) 5:06
07 Cidades (Marcelo Yuka) 5:27
08 Gente de Lá (Marcelo Yuka) 4:54
09 Coisas Tão Simples (Marcelo Yuka) 4:08
10 Paradoxo (Marcelo Yuka) 4:17
11 Caio Pra Dentro de Mim (Marcelo Yuka) 4:33
12 Sombra Líquida (Marcelo Yuka) 4:54
13 Desterro (Marcelo Yuka) 4:36
14 Não Se Preocupe Comigo (Marcelo Yuka) 4:44
15 Verbos À Flor da Pele (Marcelo Yuka) 7:32

Esse texto também foi publicado na Revista OBVIOUS, clique aqui para ver.

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