Entrevista com a banda Asfixia Social - #submundodosom

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quarta-feira, 25 de abril de 2018

Entrevista com a banda Asfixia Social


Salve! O Submundo do Som trocou uma ideia com a banda Asfixia Social que traz uma mistura muita loka de punk rock, reggae, metal, rap, dub, funk, jazz e hardcore e se preparam para lançar o seu terceiro álbum "Sistema de Soma: A Quebrada Constrói", falamos sobre esse projeto, sobre o documentário "O Sepulcro do Gato Preto" e o tour da banda pelo território cubano, o que originou o DVD Cuba Punk. Conversamos sobre algumas questões sociais e os manos mandaram um papo reto que você confere aí:

Submundo do Som - Quem é a banda Asfixia Social? Qual a trajetória dos manos até aqui? Se apresentem ai pra galera


Asfixia Social - Salve! O Asfixia Social é uma banda do ABC/Zona Sul de São Paulo, formada por Kaneda Mukhtar (voz/metais), Rafael Santos (guitarra/voz), Leonardo Oliveira (baixo/voz) e Rodrigo Silva (bateria). A gente se juntou há 11 anos atrás pra fazer um som que expressasse nossas ideias sobre questões sociais, culturais e políticas, assim como nossas influências musicais numa mistura de tudo aquilo que ouvíamos e coisas que fomos adicionando ao nosso Sistema de Soma! Isso é o Asfixia Social!

Submundo do Som - O Nome Asfixia Social, de onde veio?

Asfixia Social - No dia 12 de junho de 2000, Sandro do Nascimento e Geísa Firmo Gonçalves foram mortos na situação de sequestro do ônibus 174. Ela, professora, passageira, levou um tiro. Sandro, sequestrador, sobrevivente do Massacre da Candelária (1993), foi asfixiado no camburão. Essa palavra (“asfixia”) ficou marcada, e desses fatos e dos problemas que cada integrante vivia na época, fazendo uma leitura das nossas quebradas, surgiu a expressão “Asfixia Social”.

Submundo do Som - Quais são as influências da banda? De que fonte vocês bebem e o que da vivência de vocês a banda coloca no som?


Asfixia Social - Influências: KRS One, Nação Zumbi, Motorhead, Luiz Gonzaga, The Clash, Elza Soares, Ratos de Porão, Bnegão & Seletores de Frequência, Black Sabbath, Clara Nunes, Dead Kennedys, Garotos Podres, Chico Buarque, Cólera, Elomar Figueira Mello, Suicidal Tendencies, Lenine, Nomadic Massive, MV Bill, GOG. #rapfunkdubcoreskajazzpunkraggaemetal Tocamos tudo que gostamos de tocar e cantamos as ideias que acreditamos fazer bem pras pessoas que vivem ao nosso redor.

Submundo do Som - 
O estilo da banda é o crossover entre o rock, rap, ska, hardcore né? Como é trabalhar nesse caldeirão musical?

Asfixia Social - Doidera!

Submundo do Som - E a turnê por Cuba, como foi o rolê por lá? Como surgiu a oportunidade de ir pra lá e o que vocês trouxeram na bagagem pra somar com o som do Asfixia Social?

Asfixia Social - Foi foda! Tínhamos ido pra lá com um grupo de teatro (XPTO) em 2014, e deixamos nosso som por onde passamos. A galera curtiu e surgiu a oportunidade de voltar em 2015 pra fazer uma turnê, tocando num dos lugares mais importantes de lá (Fabrica de Arte Cubano, em Havana). Emendamos uma turnê de dez shows em outras cidades, como Trinidad e Sancti Spiritus, passando por lugares totalmente inusitados. Na bagagem, trouxemos a vivência de um país de terceiro mundo muito bem resolvido com relação a sua identidade cultural, que consegue driblar os problemas sociais sem apelar pra violência. O registro da tour tá no DVD Cuba Punk – Asfixia Social: https:


Submundo do Som - Cuba é um caso a parte, e que divide opiniões. Qual a opinião dos cubanos do movimento punk em relação ao governo cubano? Vocês trocaram ideias sobre isso ou perceberam algum posicionamento contrário ou favorável?

Asfixia Social - O pessoal do rock em geral, em Cuba, é uma “minoria da minoria”. Todos praticamente se conhecem, existem algumas tretas e divergências como aqui e inclusive com relação à política. Mas a maioria luta pra ter instrumentos minimamente tocáveis, criam seus próprios pedais, arrumam suas caixas de som, ensaiam em lugares improvisados, e principalmente têm vontade de protestar contra um governo que disponibiliza direitos sociais mas não deixa de ser uma ditadura, limitando a relação do cubano com o resto do mundo. Isso é o que mais amarga as opiniões dos cubanos com relação à Revolução e o que faz com que eles não tenham muita clareza do que é a realidade em outros países.

Submundo do Som - Em relação a estrutura da ilha? Os brasileiros também têm opiniões divididas, de um lado romantismo da revolução de Fidel, e de outro o destrato que as elites têm, subjugando o pais. A verdade é que os brasileiros não conhecem fisicamente  Cuba, mas o que vocês viram lá que vale a pena ser compartilhado e que nos ajuda a ter uma visão mais profunda quanto a estrutura cubana?

Asfixia Social - Primeiro a gente tem que analisar que Cuba, antes da revolução, era um país subjulgado aos interesses dos Estados Unidos (praticamente um casino e um puteiro à serviço dos EUA), desigual, com forte repressão a quem se opusesse à Fulgencio Batista, e a luta travada pela revolução de Fidel e Guevara garantiu pouco a pouco acesso à direitos sociais básicos para todos. Na nossa visão esse é o lado positivo, as conquistas sociais que fazem do cubano um povo altamente educado, culto e satisfeito pessoalmente. Porém, desestabilizado pelo embargo econômico, pela corrupção e uma elite que usou a revolução como forma de se estabelecer ainda mais intocável, a insatisfação do povo cubano é nítida e crescente à medida que o poder econômico do cidadão é baixo, o acesso ao mercado de consumo e informação é praticamente controlado pelo Estado e as pessoas não conhecem a realidade do mundo. O mais curioso disso tudo é observar a ausência de violência no país, que nos leva a crer que a garantia de direitos básicos – como educação, saúde, cultura – eleva a sociedade a um estado civilizatório mais próximo do desejável. É muito diferente de todo o resto da América Latina e, se podemos chamar a atenção pra algo, é isso.


Submundo do Som - 
São 10 anos desde o "A Guerra Tá Na Sua Porta, Não Só Em Bagdá", de 2008, para o "Sistema de Soma: A Quebrada Constrói" que será lançado em 2018, com o "Da Rua Pra Rua" entre um e outro, o que vocês acham que mudou, se é que mudou, nesses 10 anos na carreira e musicalidade do Asfixia Social?


Asfixia Social - Em uma década acontece muita coisa, sobretudo quando você é jovem. Pessoalmente, a gente passou por fases difíceis e soubemos sair bem delas, inclusive nos fortalecendo como grupo e amadurecendo nossa forma de expressão. Esses três discos retratam nossa vivência, em uma sociedade que infelizmente não avançou muito pra solucionar problemas existentes 10 anos atrás.


Submundo do Som - 
Como foi lançar em vinil o disco "Da Rua para Rua"? A banda é amante das bolachas? Pretender fazer mais álbuns nesse formato? O lançamento foi na Alemanha mano?


Asfixia Social - Ter um álbum prensado é uma grande satisfação, em CD, vinil, em vídeo. O vinil porém tem o apelo visual do encarte, por ser maior e valorizar a arte gráfica. Lançar o “Da Rua pra Rua” em vinil na Alemanha trouxe um certo prestígio pro álbum, mas pensamos nos novos discos em novos formatos, assim como em novos territórios.


Submundo do Som - 
E como foi trabalhar com dois monstros da nossa música, o BNegão e Os Seletores de Frequência e o Z'África Brasil?


Bnegão e os caras do Z'África se tornaram amigos, pelos quais temos muito respeito. Já tivemos outras oportunidades de trabalhar juntos em outras áreas, e trazê-los pro disco “Da Rua pra Rua” foi bastante gratificante e verdadeiro das partes. Tem tudo a ver com o som!

Submundo do Som - Conta um pouco do filme "Sepulcro do Gato Preto" e da ligação desse projeto com o Asfixia Social.

Asfixia Social - Fomos tocar em Perus, em 2012, uma quebrada na zona noroeste de São Paulo. Antes do show, tiramos umas fotos na fábrica de Cimento Perus, ali perto do centro cultural Quilombaque. Posteriormente passamos a conhecer a história da greve de 7 anos que foi travada na fábrica, e assim surgiu o filme “O Sepulcro do Gato Preto”, que retrata nossa ida à Perus e ao bairro de Gato Preto, em Cajamar, contando a história de descaso com o Patrimônio Histórico e Cultural da região e o despejo de muita gente de suas casas, num crime contra famílias ali estabelecidas há décadas e que escancara o quanto o dinheiro no Brasil atropela e compra agentes e legisladores. Assistam ao filme:


Submundo do Som - 
Na música "Matar os Ka$$abs", de 2012, o último ano do governo de Gilberto Kassab na prefeitura da cidade de São Paulo, retrata os anos do então prefeito na administração pública e faz um apelo para que o mesmo não volte, ou que ninguém da laia dele. Aqui vão as perguntas, o fato de citar o nome trouxe algum tipo de problema para a banda? Com a saída dele, ficou mais fácil para o Asfixia Social trabalhar em sampa?

Asfixia Social - Não trouxe problemas pra banda. Infelizmente, inclusive, as redes sociais censuraram a música praticamente em todas as publicações. Mas fazemos questão de relembrar que Gilberto Kassab foi presidente do Conselho Regional dos Corretores de Imóveis e entrou na prefeitura pra defender interesses muito específicos relacionados ao setor imobiliário, interesses que não convergem com os anseios da maior parte da população. Esperamos que o povo fique atento a esse tipo de político lobista e patrocinado por grandes corporações.


Submundo do Som 
As letras da banda são carregadas de lutas e criticas sociais, o que faz o som do Asfixia Social um som politico. E falando de politica, qual a visão do grupo com o cenário caótico e polarizado que estamos vivendo no Brasil?

Asfixia Social - Política vem antes de tudo. Política é o dia-a-dia de todo mundo. O simples fato de ter uma banda e poder se expressar, denota que a política vigente foi uma conquista dos que vieram antes de nós. Em outros tempos isso não era possível. O embate contra quem quer regresso é necessário, e precisamos refletir com cuidado e estudar a história pra que direitos que foram conquistas a duras penas não sejam jogados na lata de lixo. A polarização baseada num jornalismo oportunista e irresponsável não é interessante, pois não estão sendo discutidos projetos de Estado, e sim simpatias e antipatias ideológicas. Precisamos discutir políticas públicas, e a partir dessas discussões sérias, pensar nos próximos passos.


Submundo do Som - 
Quais são as armas para combater o fascismo e o racismo que vem em grande ascensão em nosso pais?


Asfixia Social - Informação. Informação de boa procedência e o hábito de revisitar a história, de ter um pouco mais de filtro e senso crítico pra saber quem está por trás de tanta informação na atualidade. Quais os interesses de quem está por trás das informações difundidas?


Submundo do Som - 
Cara, vou dar uma missão para banda: O que vocês indicam de bandas (de ska, hardcore, hip hop do Brasil), tanto os já consagrados na cena underground como as novidades que estão surgindo? E também indicações da cena cubana para que possamos ampliar nossos horizontes musicais.


Asfixia Social - Em Cuba, escutamos bastante os amigos do La Invaxión al Occidente (rap) e Arrabio (hardcore). Aqui no Brasil, acho justo conhecerem as bandas que se apresentam com a gente nos shows, principalmente no Festival Da Rua pra Rua (tem uma lista em www.daruaprarua.com.br) e em projetos como a Frente dos Artistas pela Luta em Movimentos Sociais – FALEMOS. Tem muita banda boa em atividade!


Submundo do Som - 
Quais os sonhos que o Asfixia Social ainda deseja realizar?


Asfixia Social - Apresentar nosso novo Livro-Disco “Sistema de Soma” para o maior número de pessoas. Isso é importante! Quem estiver afim de pensar e sonhar isso com a gente, chega junto!

Submundo do Som - 
Qual a mensagem que a banda deixa para as minas e manos que estão acompanhando essa troca de ideia?


Asfixia Social - Nosso prazer em fazer um som é ver a família cada vez maior, cada vez mais consciente, tendo a oportunidade de conhecer e apresentar gente nova nesse ambiente, propor discussões, ideias, e principalmente em ver essas ideias se propagando por meio da arte original do nosso lugar! As injustiças existem porque nossa voz e ação não são suficientes sozinhos! Se quiser fortalecer com a gente, seja bem-vindo! Somos gratos!



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