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segunda-feira, 9 de abril de 2018

Lula e o Hip Hop


A figura do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, o Lula é uma daquelas que gera amor ou ódio, há quem o ama, e há quem o detesta, assim como as suas politicas durante os anos que exerceu a função de presidente da nação. A ideia é aqui não é avaliar o seu governo ou trazer defesa ou acusação em relação aos recentes episódios envolvendo o Lula, mas sim mostrar com foi a relação do ex-presidente com a cultura Hip Hop, que de antemão informo que foi estreita e muito importante, foi o presidente que mais deu atenção e se aproximou do movimento. 

Desde que o Lula surgiu em 1989 a classe artística sempre o apoiou, como no jingle para a campanha eleitoral daquele ano que trouxe a união de Gal Costa, Beth Carvalho, Elba Ramalho, Chico Buarque e Gilberto Gil, além de vários atores e atrizes. Nessa época o Hip Hop dava os primeiros passo no Brasil, o movimento chegou em nosso pais em 1984 com o a dança, o break, nos anos seguintes foram gravados os primeiros rap's e discos do gênero, sendo o primeiro em 1988, o LP Hip Hop Cultura de Rua.

A cultura Hip Hop sempre se mostrou de esquerda, no espectro politico, pois nasceu nos guetos, como a voz de um povo oprimido que denuncia e protestava sobre as condições precárias de vida que se encontravam e se mantinham como resistência à toda violência, seja ela moral, social ou policial, e através de suas leis próprias, ou mandamentos da cultura, a periferia conseguia se ajudar e auto gerir, amenizando assim a negligência dos governantes.

Pois bem, no Brasil não foi diferente, quem abraçou a cultura Hip Hop foi o gueto, principalmente as favelas de São Paulo. E quando a figura de Lula emerge no começo dos anos 90 com um discuso com tendências socialistas e que convergia diretamente com as ideias propostas pelo movimento, o Hip Hop o viu como uma opção diferente das que estavam ali. Pois um imigrante nordestino, pobre, sem ensino superior, que já bateu ponto e comeu em marmita possuía características comum a muios militantes do movimento, que ao mesmo tempo não se sentiam representados por Fernando Collor, um homem branco, letrado e rico, e que estava distante dos interesses dos jovens ligados ao Hip Hop.

Em 1998 o rap já estava mais consolidado no Brasil, já havia multiplicado o número de grupos, dominado técnicas de gravação e criados selos fonográficos dentro das periferias para lançar seus trabalhos, nesse mesmo ano Lula tentava a ceira de presidente pela terceira vez, havendo perdido as outras duas, e personalidades do meio fizeram campanha para o ex-presidente, como a dupla Thaide & DJ Hum, o dançarino de break Nelson Triunfo e o grupo Racionais MC's. Em 98 Lula não levou, mas a história se repetiu em 2002, até mesmo com uma aproximação entre os dois lados, e nesse ano sim, Lula foi eleito, com ajuda de uma aliança entre músicos da MPB e do Hip Hop, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Paula Lavigne, Djavan, Wagner Tiso, o rapper MV Bill e o empresário de grupos de rap Celso Athayde. Artistas como Racionais MC's, GOG, DMN e Thaide subiram em palanque, todos juntos, para aoiarem Lula:


Movimento Hip Hop de todo Brasil manifesta apoio ao Lula em 2002

No primeiro ano de mandato, Lula nomeou Gilberto Gil como Ministro da Cultura, e uma comitiva formada pelos maiores nomes do rap brasileiro, incluido DJ KL Jay, dos Racionais MC's, MV Bill, GOG e Rappin Hood foram até o Palácio do Planalto para trocar uma ideia com Lula e pedir um olhar especial sobre o Hip Hop, além de mostra. O Rapper carioca MV Bill deu entrevista ao jornal Estadão, sobre esse encontro com o presidente, e disse: "Ele abraçou de cara o pedido de instalação de um grupo de trabalho dentro do governo para criar uma conexão direta com o hip hop. Só o fato do Lula ter reconhecido o hip hop antes mesmo de ser presidente já criou uma relação com a gente".


 "Sou parceiro estou com o Hip Hop na cabeça" disse Lula após receber o boné (ou bombeta como chamam os manos) da coletiva durante reunião no Palácio do Planalto

Os anos que se passaram foram de muita harmônia entre o conturbado movimento Hip Hop, com seu caldeirão de ideias e o polêmico governo do PT, tendo como representantes Lula e posteriormente a Dilma, essa última cogitando o rapper brasiliense Genival Oliveira Gonçalves, o GOG, a ocupar um cargo de ministro (como o próprio GOG comentou em entrevista exclusiva para o Submundo do Som, conferira aqui), mas o poeta declinou o convite. Tal proximidade com os governos petistas não facilitou a vida dos músicos, pois nas prefeituras em que os governos eram de oposição os grupos não conseguiram trabalhar, como no caso dos Racionais em São Paulo, que ficaram vetados de eventos da prefeitura por 6 anos após uma confusão na Virada Cultural de 2007.

Outra relação interessante (e emocionante, porém triste) entre Lula e integrantes do Hip Hop, é com o Mano Brown, pois em 2016 a mãe do rapper, a Dona Ana Soares Pereira, infelizmente veio a falecer, e o ex-presidente foi um dos primeiros a ligar e dar os pêsames a Brown. Já em 2017, Lula infelizmente perde sua esposa, a Dona Marissa Letícia, e Mano retribuiu a gentileza e ligou para Lula pra prestar condolências.    


Lula, Mano Brown e Chico Buarque na inauguração do Campo de Futebol "Dr Sócrates" em um acampamento do MST

Os governos do PT, principalmente os de Dilma, mas incluindo os Lula também, foram duramente criticados por rappers de norte a sul do Brasil, pois uma das responsabilidades do rap, como elemento da cultura Hip Hop é questionar, apontar e cobrar. No entanto, com o golpe de 2016 e o impedimento de continuidade de Dilma a classe artística novamente se posicionou em solidariedade ao ex governo, como no video abaixo que o rapper Emicida opina contra o golpe parlamentar:



Emicida opina sobre golpe de 2016

E assim que Lula manifesta sua vontade de voltar a cadeira de presidente uma enxurrada de acusações sobre ele passam a aparecer, e se processo começa a correr em velocidade anormal para evitar que Luiz Inácio volte a disputar a corrida eleitoral. Muitas articulações e campanhas negativas foram feitas pela mídia, essa que o Hip Hop sempre olhou com desconfiança e evitou uma proximidade, nos anos 90, por exemplo, não tínhamos rap na TV, com exceção da MTV, com seu programa Yo! Nos anos 2000 uma abertura tímida, mas ainda com receio de ambos os lados, nos dias de hoje isso mudou bastante, mas o rap ainda é gênero que pouco visita os estúdios da rede Globo.

Tal aversão do hip hop a TV, fez o movimento observar essa relação de acusações a Lula com certo ceticismo, e retomar aquela aliança mais estreita que ocorreu em 2002. No vídeo abaixo, vemos o rapper Thaide manifestar seu apoio ao Lula, após esse ser condenado a 12 anos de prisão.  


"Eu vinha aqui, para me juntar com as minhas e os meus, para defender um dos nossos" - Thaide sobre Lula

Os apoios não foram casos isolados, foram muitos dentro do movimento hip hop, através de Facebook, Instagram e mensagens em shows e apresentações em programas, a grande maioria dos artistas ligados ao rap se posicionou em apoio ao ex presidente Lula. Ma se engana quem pensa que foi unanimidade, pois não foi, pessoas ligadas ao gênero também criticaram e defenderam a prisão de Lula, esse fato se deve a popularização da cultura hip hop, que acabou englobando novas classes sociais e novas gerações com opiniões contrarias a dos pioneiros da cultura no Brasil.

Após a prisão de Lula, os manifestos em solidariedade, defesa e apoio, por parte do Hip Hop, ao ex-presidente se mantiveram, como no vídeo abaixo de Emicida, falando com seu público, que é gigantesco, primeiro no Instagram e em seguida em seu show. O que mostra que a geração do rap que sempre apoiou Lula e viu em seu governo pontos positivos, mesmo que com ressalvas, principalmente para a comunidade pobre, seguirá manifestando seu apoio ao líder brasileiro que mais se aproximou do Hip Hop!


Depois de prisão do ex-presidente, Emicida manifesta apoio ao Lula.

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