10 anos de Non Ducor Duco do Kamau - #submundodosom

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terça-feira, 1 de maio de 2018

10 anos de Non Ducor Duco do Kamau


No dia 04 de agosto de 2008 Kamau nos presenteou com a obra Non Ducor Duco, seu segundo trabalho, cujo nome é inspirado no brasão da cidade de Sampa, onde está escrito o lema que significa "Não Sou Conduzido Conduzo". Esse trampo trouxe uma sonoridade que ditava uma nova tendência do rap nacional, com rimas mais melódicas, temas introspectivos e até mesmo mais românticos, mas sem deixar de lado as criticas sociais e a realidade dos jovens de periferia.

A faixa que abre o disco é "(Escuto) Vozes)", uma introdução que vem com uma colagem nervosa do DJ Willian, com scratches e frases que juntas formam o contexto da trajetória de Kamau. 

(Tô ouvindo alguém gritar meu nome)
(Kamau!)
(Pra rimar) / (Não teve como evitar)
(E não vou parar) / (Nem pensar)
Kamau, rapaz comum vira H. Aço
(A cada show, a cada passo, a cada linha, a cada traço)(Tô ouvindo alguém gritar meu nome)
(Kamau!)
(Pra rimar) / (Não teve como evitar)
(E não vou parar) / (Nem pensar)
Kamau, rapaz comum vira H. Aço
(A cada show, a cada passo, a cada linha, a cada traço)

Na sequência vem a faixa "", que se inicia com a harmonia de um piano melódico e segue com várias referências numa rima que fala sobre as tretas de ser um artista independente, destaque para os scratches e colagens da faixa:

"Agora sou só eu, minha culpa, meu mérito

Quem vai receber toda critica ou crédito

Cérebro não tava preparado pra isso não

Agora já não sabe o que e como diz pra mão

Escreva, expresse o que o coração sente
Inspiração na frustração infelizmente
Mas eu sigo em frente não quero que tenham dó de mim

Talvez seja melhor que eu me mantenha só assim"

Na faixa 3, temos "Evolução na Locução", uma das canções mais aclamadas do álbum, em que Kamau versa sobre sua evolução, a caminhada entre fazer parte de um grupo e depois seguir numa carreira solo. A curiosidade dessa track, é que na segunda parte o rapper rima com o nome de todas as músicas do Consequência, seu antigo grupo. O Beat é do DJ Suissac, do grupo Mzuri Sana:

"Sabe que eu procuro o certo, até na linha mais errada

chega de história mal contada

tamo junto pra chegar na tal glória não alcançada

pela estrada onde eu caminho, onde xingar é elogio

sigo pela E V O L U Ç A O!
Penso, existo, evoluo
analiso, pesquiso, reconstruo
insisto, resisto, e assim continuo
pra fincar raiz no ramo em que eu atuo"

Seguindo tem "Parte de Mim", que inclusive seria o nome do álbum, mas Kamau flagrou que já havia um trampo com esse nome e então mudou para Non Ducor Duor. A letra da música trabalha com o duplo sentido da expressão "parte de mim", que pode significar que a origem da ação vem do MC, ou seja, parte dele, ou também que uma fração do rapper, uma parte dele tem um pensamento ou ação, saca essa letra que tem beat do Parteum:

"Parte de mim a iniciativa de rimar
o que eu acho que presta
Sem me importar se o meu som
nunca toca na festa
eu sei que parte de mim até ficaria feliz
se tocasse por um minuto
e o DJ trocasse
outra parte sabe muito bem
muita gente não entende o som muito bem
ouve a batida não quer nem saber que assunto tem
se é conhecida da galera então tá muito bem
(Mas tudo bem)
nem é bom ser unanimidade"



"Não Acredite Se Quiser" é a faixa cinco. Uma rima de denúncia e protesto e que alerta sobre o sensacionalismo da TV e das mentiras do livros de história e como isso prejudica o povo pobre e humilde, principalmente quando exploradores da fé tomam as rédeas da situação. A um sample nervoso do Rappin Hood, da música "Us Guerreiro":


"Na TV jornalismo, verdade, Brasil,
gente espalha o alerta pela cidade
perseguições, apreensões, capturas.

tiros, correria, vítimas e viaturas 

E o cidadão recorta o relato 

no momento exato.

Mas só quem tava lá no ato
vai saber se é fato."

Na track seis Kamau traz um time, em que cada um vem com a sua explicação de por que tá no rap, em "Porque eu Rimo", e esse time vem com Rashid, Stefanie, Emicida e Rincón Sapiência, cada qual com seu motivo. Destaque para a "chuva" no beat, como se o instrumental tivesse acabado de sair de um vinil, beat de Kamau e Nave:

"Ô disposto a tudo ou nada, crente que
se só meia dúzia trabalha isso aqui não vai pra frente
é você quem define a parada
cê pode morrer na praia ou então decide pra onde nada
se existe um inimigo a ser vencido
não sei por quem e nem pra quê, só tive a honra de ser
escolhido
e os verdadeiro tão no corre
então deixa eu ir nessa porque se depender de alguns o
rap morre" 

Em "Vida" o rapper fala das noticias que ninguém quer receber, de quando se perde um parceiro, e ai ficam as lembranças dos manos que se foram e a mensagem de que temos que extrair o melhor de nossas vidas, afinal temos apenas uma. A faixa ainda traz produção do Munhoz e feat do Rael:

"Por mais que eu tente, eu nunca vou entendero que passou na sua mente, tirou você da gente derepentenotícias que ninguém querquando o tim me contou não botei fétentei lembrar a última vez que te viindo pra casa, por acaso, na estação Tucuruvitrombei você, me pareceu até felizserá que tava mal já e não quis me contar?"


Na canção 8 Kamau fala de "Equilíbrio", principalmente em relação aquilo que se quer e não se precisa e o que é necessário porém não há mobilização em prol. Deu pra sacar? confere o trecho da letra que tem participação do Jeffe e beat do Nave:

"Não é questão de ver quem é mais forte

Ou quem tem mais pontuação acima da nota de corte

É questão de objetivo na busca

Pra ser iluminado porque brilho se ofusca

Eu só quero o que é meu
Sem tirar de ninguém
Com o dom que Deus deu
Poder ir mais além
No caminho que escolhi pra seguir, progredir
E levantar, se cair, mas manter, prosseguir"

A próxima é "Instinto" cuja letra começou a ser escrita em participação do projeto do Instituto, e como o próprio Kamau se refere, é um letra de exercício, de instinto, como se fosse psicografada, as ideias vão surgindo e o rapper vai colocando no papel e dando sentindo e concluindo várias confusões na mente. Beat do Kamau e do DJ Primo.

"Ao vivo e direto da selva de concreto

Transmitindo em dialeto

Mas eu sei que cê entende sem legenda

Se não aprendeu ainda, aprenda, entenda
É uma questão de sobrevivência
Na hora H quem vai ter muito que pensar
Só deixar te levar se puder contar com seu"


Faixa 10 "Dominium" e traz o Dominante, uma junção entre Kamau, Rick e Parteum, que já rolou várias outras vezes. Nessa track, como o nome sugere, é sobre a arte de dominar, dominar a própria vida e os dilemas que a cercam, em mais uma produção do Parteum:

"Sigo meu próprio rumo, me arrumo com minhas condições
Pro meu consumo sem maiores ambições materiais
Quero minha paz, meu lugar
Me livrar das correntes pra mente respirar
Coloco ordem no meu caos pessoal
Pra encontrar um sentido no qual possa me inspirar
Meu motivo pra acordar em qualquer horário
Abrir os olhos pra enxergar o itinerário"


"Resistência" é a faixa 11, que já começa com uma introdução do mestre KL Jay, que faz feat na música, juntamente com Carlus Avonts, numa letra que fala sobre resistir, persistir, ficar raiz e não se desviar das vozes do inicio, pela canção:


"Pela raiz me fortaleço, me alimento

Agradeço e represento a resistência
Coerência, competência
Sem deixar de ouvir a voz da experiência
Pela raiz me fortaleço, me alimento
Não esqueço e represento a resistência
Inteligência, inevidência
Por preferência, máxima potência"


Seguindo temos "Sabadão (Os embalos de...)", num track mais descontraia onde Kamau roleta sobre os rolês num sábado, desde conseguir um ingresso até entrar no baile e se sentir tiozão. O Beat dessa pedrada é do Nave:

"Sabadão quem quer ser figurante? (Eu não)A diversão é parecer importante. (Né, não?!)Melhor pisante, melhor roupa, vai pra rua....E o embalo de sábado continuaSabadão quem quer ser figurante? (Eu não)A diversão é parecer importante. (Né, não?!)O holofote é a Lua, a passarela é rua e o embalo de sábado continua"

Na track de número 13, o som é "Komwé" que significa "E aí?" em dialeto angolano, essa palavra em especifico foi ensinana ao Kamau pelo MC Kappa (MCK), num rolê que ele fez aqui pelo Brasil, e tem relação com as pessoas que falam da vida das outras sem saber, com beat do Kamau e participação do Emicida:

"Diz que diz, sem noção, sem razão

Fala um monte, mas a fonte é geralmente duvidosa
Muita prosa, pouco verso, sem batida
Mutante de zói grande e língua comprida
Que quer me alugar, quer meu lugar
Ao invés de se levantar, quer me derrubar
Ô dó, mas quê que eu posso fazer?
Cê sabe demais de mim e eu nem sei quem é você
Nunca vi no rolê, no metrô, no busão
Na função, no perrê pra pagar condução
Pensa que eu tô patrão, te devo satisfação?
Nunca me deu um tostão e agora quer dar palpite?"  


Na faixa 14, "Amar É" produzida por Filiph Neo e pelo próprio Kamau, que como o titulo sugere a canção fala de amor, mas não do amor no singular, e sim no plural, onde o rapper tenta definir o que é essa palavra que remete ao mais belo dos sentimentos:

"Amar é:

Se esforçar sem esperar recompensa
É tentar ao máximo e depois pensar se compensa
Amar, é bem mais difícil do que se pensa
Ficar sem reação, simplesmente pela presença
(De quem...)
Faz sorrir, faz chorar, sem saber
Faz refém sem prender
Faz a gente aprender
A tentar se entender, relevar, compreender
Abrir mão, renovar, surpreender"


"Tambor" é a faixa 15, que trata-se de um resgate das origens africanas, da música feita por esse povo através do toque do tambor. Aqui Kamau aproveita para incluir uma modernização dos tambores através das MPC que contém os samples desse magnifico instrumento. A faixa tem participação de Rincón Sapiência e de Thalma e a produção assinada pelo próprio Kamau:

"Pra bater do djembê à MPC

Evolução pra vencer, como tem que ser

Sem se render, diluir o moi que é nosso
Fortaleço como posso, faço mais que entreter

Entre ter, identidade, perder dignidade, vou...
Pela liberdade de ser
O que sou, onde for, pra honrar, quem lutou
Derramou sangue e suor pra resgatar o valor
E a luta não acabou, infelizmente
Ainda tem ideia errada pra bater de frente"

A penúltima música é "A Quem Possa Interessar", canção que virou um hino e que homenageia todos aqueles que acordam cedo, pegam condução lotada, ouvem desaforo do patrão e que faz um corre todo dia pra conseguir bancar os estudos, com a esperança de que o futuro será melhor. O beat é de do DJ Primo e a faixa tem participação de Jeffe:
"Essa é pra você que acorda cedo sem medo, sem receio
De reclamação de patrão, de busão cheio
Sei que não é o trampo que cê sempre quis
Mas ter o seu, sem pedir, já te faz feliz
Então vai reclamar de quê? (Pra quê? Pra quem?)
Não tem tudo que ama, mas ama tudo que tem
Sabem bem o valor, o calor do suor
Não esbanja mas quando pode tem do melhor
E o pior, é o olho gordo de linguarudo
Que fala como se tudo viesse de mão beijada
Mas deixe estar que esses a vida ensina
Segue sua rotina, já que não deve nada pra ninguém"

E fechando o disco, temos a faixa "Homens Trabalhando" que não é bem uma música, e sim um epilogo que encerra a beleza do Non Ducor Duco. Aqui uma conversa telefônica entre Kamau e o Nave Beatz, produtor que esteve presente em várias tracks e que vive em Curitiba, então o contato entre os manos é via telefone:

"-Alô
-Alô, Nave?
-E aí?
-E aí, tio? Kamau, certo?
-A pampa
-Se liga aí, é... Terminei o disco já. Vamo trabalhar? Vamo trabalha?
-Pô, tamo em casa aí. Tô, tô fazendo aqui
-Tem alguma coi...
-Quer alguma coisa?
-Tem alguma coisa aí, pra mim?
-Ah, tem uma que eu fiz ontem, aqui. Não sei se tá assim...
-Não, põe aí, lógico
-Então peraí, ouve aí

(Instrumental)

-E aí, titio? Vai dar trabalho, hein?! Hahahaha!
-Oow! (Hahaha!) Go!"

O Non Ducor Duco é um clássico do rap nacional, muitos nomes novos da atual cena beberam desse disco. O álbum consagra a transição entre fases do rap, quando a clima mais pesado, gangsta, é deixado de lado e entra uma parada mais introspectiva, reflexiva, o que na época era o underground do gênero no Brasil.

Mas o registro de Kamau é importante, também, pela sua concepção e construção, o fato de trabalhar com diversos beatmakers diferentes, um álbum de 17 faixas com letras que conversam diretamente que o jovem, abordando seus dilemas, a atmosfera paulistana, que vai desde o nome do disco a locações citadas nas músicas, tudo isso traz algo memorável, e pode ser sintetizado como Kamau cita em seu verso na letra "Avuá", do Emicida e da banca do Laboratório Fantasma:

"Turbulência lapida o piloto
Pra chegar não é só por talento (não)
Pra que alguns se sentissem no topo (e fui)
Alguém tinha que ser fundamento, então
Fui"


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