Entrevista com a cantora Nathalia Ferro - #submundodosom

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terça-feira, 28 de agosto de 2018

Entrevista com a cantora Nathalia Ferro


Salve, o Submundo do Som trocou uma ideia com uma filha de Jah, a cantora e compositora Nathalia Ferro, um talento que vem do Maranhão, com sua poesia contestadora, veio pra somar e bater um papo sobre sua carreira, projetos, sonhos e seu novo vídeo clipe: "A Revolução das Bruxas". Confere aí:

Submundo do Som - Quem é Nathalia Ferro? Qual sua trajetória até aqui? Se apresenta aí pra galera.

Nath Ferro - Sou uma mulher brasileira nascida no Nordeste, na ilha de São Luís do Maranhão. Minha principal área de desenvolvimento se deu através da música e da performance nos palcos, mas sou curiosa de muitos saberes e hoje moro em São Paulo, onde sigo meu processo.

Submundo do Som - E como foi participar do Filhos de Jah?

Nath Ferro - Um aprendizado do qual muito me orgulho. Foi cantando reggae que tive os primeiros contatos com uma carreira profissional. Abrimos shows de artistas incríveis como Gregory Isaacs, Alpha Blondie, Migthy Diamonds, S.O.J.A e Ijah Man, em festivais na ilha. Os shows no Trapiche, no Bar do Nelson e Chama Maré eram demais.  Meu primeiro vídeo no Youtube é cantando com esta banda, em 2006, a 12 anos atrás. Less is More, da Joss Stone.  Até hoje guardo um carinho e uma gratidão muito especial aos meninos da banda, principalmente Fabinho, por ter me dado essa oportunidade.

Submundo do Som - O que influencia e inspira a Nathalia Ferro? Quais referências tuas podem ser encontradas em suas músicas?

Nath Ferro - Eu sou uma criatura de alma muito porosa, então tudo que me atravessa acaba me inspirando e influenciando. Gosto de prestar atenção em tudo, desvendar as motivações das pessoas para agir e criar, perceber as sicronicidades do dia-a-dia, sou uma observadora quase obcecada eu diria. A vida me inspira sobremaneira, as relações humanas, os humores do espírito, os movimentos do tempo e da natureza. O presente é a força que mais me ajuda a criar.

Submundo do Som - Como acontece o processo de composição de suas músicas?

Nath Ferro - É bastante intuitivo, não tenho um método. Se algo me pega e preciso dizer tenho que anotar correndo senão perco. A maior parte de meus escritos não vira música, uma ideia precisa me instigar muito pra virar canção, ou então vir pronto, letra e melodia, algo que já aconteceu algumas vezes.

Submundo do Som - Você tem dois belíssimos discos né? O Instante de 2013, e o Alice Ainda, de 2015. Conte-nos um pouco o que esses dois trabalhos representam em sua vida.

Nath Ferro - Obrigada. =) O Instante foi a minha primeira aparição como compositora, responsável pela minha mensagem, pela minha proposta estética. Nessa época eu queria meio que sair do reggae e tava muito envolvida pela sonoridade da cena brasileira independente de 2010 (Tulipa Ruiz, Karina Buhr, Otto, Céu, Tiê, entre outros). Então eu me juntei com os meninos da banda (André Grolli, João Simas e Marlon Silva) e criamos os arranjos do Instante. O disco ficou pronto em menos de 2 meses e foi muito bem recebido pelo publico da época, saiu na musicoteca e toca nas radios até hoje. Já o Alice foi um processo de 8 meses entre pré-produção e lançamento, eu queria uma narrativa mais bem delineada, explorar um pouco mais o que era a cena de compositorxs de São Luís nesse período. Então saiu um disco que tem ao todo 12 compositores, dá uma janela interessante pra cena de 2014/2015 em São Luís. Ele foi produzido por Adnon, em genio da musica que a gente tem na nossa cidade e mixado pelo Memel, o mesmo que gravou o Instante, e que tb é maravilhoso. É outro trabalho do qual me orgulho muito.

Submundo do Som - Revolução das Bruxas é um som pesado e que vem batendo forte, tendo uma grande repercussão, tanto pela beleza da canção quanto pelo forte teor da letra que é um grito de manifesto para as mulheres. O que significa o nome da música? E qual mensagem você quis passar?

Nath Ferro - Essa canção fala sobre um processo de transformação e libertação que venho vivendo há alguns anos. Foi a minha maneira de dizer "não sou obrigada". A música foi composta em 2016, menos de um anos após chegar em São Paulo. Ela tem esse teor de manifesto, mas na verdade eu estou falando pra mim mesma, acordando as bruxas dentro de mim, buscando resistir e me valer. É um canto sobre o valor da vida e a responsabilidade que vem quando se descobre que é possível dizer não e que posso me exercer enquanto indivíduo.

Vídeo clipe "A Revolução das Bruxas"

Submundo do Som - Vivemos no Brasil, que infelizmente é um pais machista, isso já te trouxe dificuldades  na carreira? O fato de ser mulher e esbarrar no machismo de produtores, agentes culturais, casas de shows , por exemplo, já lhe fechou portas?

Nath Ferro - O pior machismo que tive que enfrentar foi o meu próprio, pra te ser sincera. A gente não tem ideia de quantas convicções limitantes compõe a psique de uma mulher educada sob a batuta do patriarcado. Agora o machismo da rua e do dia-a-dia é nossa luta diária, está em todos os lugares, sem exceção. A consciência das coisas tem nos feito despertar e pontuar melhor essas relações, mas ainda existe um longo caminho a ser trilhado no que diz respeito ao reconhecimento da mulher como indivíduo, e não como objeto ou ser inferior ao homem.

Submundo do Som - Na sociedade atual muitos ainda tem a visão que o machismo é apenas a violência física contra uma mina. Principalmente para nós, os homens, que alerta  você poderia nos dar, em relação as nossas ações cotidianas para que evitemos atitudes e pensamentos machistas que possam passar despercebidos?

Nath Ferro - O primeiro seria exaltar mulheres admiráveis por capacidades que não sejam meramente físicas ou sexuais e se inspirar nelas, falando sobre esse assunto sempre que possível com outros homens. Homens se deixam inspirar pouquíssimo por mulheres que se destacam e isso é um problema. Entender que temos inteligência e competência, esquecer as rixas de gênero e nos deixar falar e resolver as coisas também seria um bom passo. Colocar o cavalheirismo de lado e entender que uma mulher pode ser uma ótima parceira de aventuras, uma amiga atenta e sábia que pode te ajudar tanto a acessar e compreender melhor os sentimentos e subjetividades, mas também as coisas práticas. Respeitar as nossas escolhas, não nos julgar ou condenar, muito menos ofender ou agredir, estar do nosso lado na luta por nossa autonomia e dividir as tarefas de forma justa em assuntos que envolvem responsabilidade mútua. Acabar a ideia de que mulher é essencialmente mãe, esposa ou objeto sexual. E antes de tudo, entender de uma vez por todas que uma mulher é um ser humano como você e merece dignidade e respeito.

Submundo do Som - A decisão de viver em São Paulo, pelo menos na grande parte de seu tempo, se deve a facilidade que SP proporciona ou pelas dificuldades de fazer música no Maranhão? O que os dois estados têm em comum e quais as diferenças, nessa questão musical?

Nath Ferro - São Paulo é uma metrópole, aqui o mundo inteiro está bem mais próximo, isso facilita muito o processo de expansão do artista, a diversidade é um excelente professora nesse sentido. Julgo hoje em dia menos a dificuldade pra atuar no Maranhão, pois a verdade é que é difícil em todo lugar rs. Aliás em São Luís tem pintado muitos projetos ótimos e tb iniciativas para profissionalização e aquisição de público, como o Br 135 e o Mostra Sesc Guajajara de Arte. Acho que quando a gente faz parte de um determinado nicho ele acaba se encontrando em todo lugar onde se vai, e como quase todo mundo vem pra SP, aqui a gente encontra mais seres da nossa tribo. Quanto a semelhanças e diferenças.. São Luís é boêmia e meio como SP e em ambos lugares existe muito amor. Mas São Paulo capital não tem mar e São Luís é uma ilha... na questão musical isso impacta muito, porque o horizonte que pra mim era gigantesco, infinito, não tem aqui... Então é como se ele se virasse pros sentimentos e para as relações com os outros, é uma coisa muito louca, não sei se faz muito sentido, minha namorada (Maria Ó, compositora paulistana) um dia falou disso e percebi que é assim que me sinto.

Nathalia Ferro em performance

Submundo do Som - São Luiz do Maranhão, a Jamaica Brasileira, lá tem uma cena fortíssima na música alternativa, principalmente no reggae, com as radiolas e a lendária Tribo de Jah, como é vir de um estado tão importante para a música brasileira? E para aqueles que não estão ligados na relevância do Maranhão para cultura brasileira, o que você pode acrescentar de informação?

Nath Ferro - Eu me sinto portando um grande ouro cultural e sou feliz de poder contar com essa bagagem e esse valor. Cada vez menos quero me ver como pertencendo a algum lugar, seja ele qual for, mas ter São Luís como ponto de partida para minha jornada é uma sorte muito grande.  Acho que conhecer e se conectar com as raízes culturais do Maranhão pode ser um portal pra qualquer um que queira se expandir criativa, artistica, ancestral e espiritualmente. 

Submundo do Som - Vamos falar de sonhos? O que a Nathalia ainda quer realizar nessa carreira musical?

Nath Ferro - Eu tenho uma vida inteira pela frente e muitos sonhos mirabolantes. Mas trabalho sempre em segredo, pois a regra é antiga e verdadeira: o que queremos realizar não devemos contar. Aguardem. rs

Submundo do Som - Nathalia, para as minas e manos que desejam ouvir um som novo e  da hora, o que você poderia indicar?

Nath Ferro - Eu sou apaixonada pela Maria Ó e suas composições simples e profundas. Também sou fã da Anelis Assumpção e tenho curtido muito o disco do Bolerinho e tb o do Daniel Medina.

Submundo do Som - E no meio de toda essa correria, o que vem de novo? O que você vem preparando e pode adiantar para nós?

Nath Ferro - Em 2018 muitas feats interessantes vão rolar. Inclusive o álbum do MANA, a parceria autoral que tenho com a Maria Ó. <3

Submundo do Som - E que mensagem você deixar pra galera que tá acompanhando esse bate papo?

Nath Ferro - Sejam vocês mesmos a mudança que querem ver no mundo. Hoje mais que nunca. Ah e apoiem projetos de arte/cultura/educação. Por fim, votem direito!

Nathalia Ferro em "A Revolução das Bruxas"

Submundo do Som - Como faz para acompanhar seu trabalho mais de perto? Quais os contatos?

Nath Ferro - Eu estou em todas as mídias sociais e plataformas de streaming. Praticamente moro na internet rs. É só colocar Nathalia Ferro que apareço e adoro responder os salves da galera, trocar figurinha e receber feedbacks. ;)

Querido, muito obrigada pelo espaço, oportunidade e paciência!!! Desculpe a demora em responder!! Beijos!

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