Entrevista com Enidê MC - #submundodosom

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quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Entrevista com Enidê MC


O Submundo do Som trocou uma ideia com el callejero Enidê MC, rapper originário de Guaratinguetá, que em 2018 lançou sua mixtape "Mangueando Vou", um trabalho fantástico que desponta do óbvio do rap. Enidê também peregrinou pela América do Sul, e nesse bate papo conta um pouco da sua vivência, as colaborações em seus trampos, seus sonhos e sua visão pela cultura hip hop. Se liga aí:

Submundo do Som -  Mano, quem é el perigrino Enidê MC? Qual sua trajetória na música até aqui?

Enidê MC - Perigrino Enidê porque eu aderi a prática de visitar cidades, estados e um ou outro país para vender os CDs de mão em mão pelas ruas, participar das batalhas de freestyle e de alguma  maneira contribuir com a cultura de rua com minhas rimas. Como disse o Mattenie: "Só quem é fica de pé, tipo tioman no Mangueio, segunda em Floripa, sexta em Taubaté!". (Risos). O contato com a música começou dentro de casa e com os amigos do bairro (Beira Rio), mas a trajetória eu acredito que começou através do skate! Até foram vários aprendizados, seja nos eventos comunitários, nas oficinas, nas batalhas de freestyle, nas vendas de discos na rua ou nos shows. Agradeço a oportunidade de dividir palco com meus grandes ídolos: Gabriel O Pensador (que me inspirou a escrever o meu primeiro rap, em 98), Marechal, Max B.O., Criolo e DJ Dandan (Campeão do circuito Rinha dos Mc's) e abrir shows de outros ídolos como: Planet Hemp, RZO, SNJ, KL Jay, conseguir levar o Eduardo (ex - Facção Central) para lançar o seu livro e palestrar na minha cidade natal (Guaratinguetá) e produzir o meu primeiro trabalho solo com o saudoso Speedfreaks.

Submundo do Som - O que te influencia e te inspira? O que das observações diárias você absorve e coloca no teu som?

Enidê MC - Absorvo que caráter e boa aura não tem cor e que sabedoria e humildade não tem nada a ver com classe social. E também eu sinto muito forte na prática, aquela frase do Vinícius de Moraes: "A vida é a arte do encontro embora haja tantos desencontros nessa vida". Busco colocar as lições de cada final de tarde, o perdão de cada noite e a benção de cada manhã. Mas também compartilho a existência das colisões sociais que nos espancam no dia a dia.

Submundo do Som - O nome “Enidê MC”, veio de onde mano?

Enidê MC - O nome Enidê MC veio da tag e do bomb ND (um paradoxo de Nosso Dialeto com a abreviação do nome Fernando - Nando - ND), que era muito utilizado pela rapa do pixo. Logo que eu o conheci em meados de 98/99.

Submundo do Som - Cara você é um mano das batalhas de freestyle, já se consagrou campeão de várias, e a cultura freestyleira está em alta no Brasil, com várias batalhas de norte a sul pais. Como você vê isso? Qual a importância das batalhas de Freestyle na formação de um MC?

Enidê MC - Sempre fui influenciado pelo Marechal, Max B.O., Aori e MC Ralph, foram quem me despertaram para o freestyle de batalha, numa época que eu só fazia freestyle com os amigos na rua e nos luaus de quebrada. E escutava só rap gangsta. Eu vejo isso como vontade de rimar, oportunidade de conhecer cidades e movimentações para aproveitar o "microfone aberto" para rimar, informar e consequentemente contestar algum ataque direcionado a mim. (Risos)

Submundo do Som - Seu álbum "Mangueando Vou" saiu em 2018 e tem um significado especial né? Comente um pouco desse trabalho.

Enidê MC - Esse trabalho tem um significado muito forte porque foi escrito no período que eu me afastei das apresentações e vivi escrevendo e vendendo CDs pelas ruas. Vivendo disso mas ao mesmo tempo sem estrutura para gravar um disco pesado. O "Mangueio" fortaleceu a minha fé, inspirou minhas escritas e me deu uma possibilidade de dar continuidade a minha missão. Agradeço muito aos beatmakers que colaboraram com a obra e mais ainda ao Bruno Alvarenga (Mascarenha) que acreditou e mergulhou na construção dessa obra.

Submundo do Som - Qual a diferença desse trampo para os projetos anteriores do Enidê MC? O que você sente que mudou desde o primeiro EP até o “Mangueando Vou”?

Enidê MC - A diferença está na maturidade e nas diferentes fases da vida. Em cada álbum eu estava vivendo uma etapa. Mas todos pertencem à mesma missão e à mesma caminhada. Um complementa o outro. Mas eu sinto que o "Mangueando Vou" é um pouco mais leve e ao mesmo tempo mais maduro do que os outros. Grande parte da obra se resume mais na necessidade de agradecer e louvar a Jah.



Enidê MC - Mangueando Vou

Submundo do Som - E como surgiu a ideia da “peregrinación” pela América do Sul?

Enidê MC - Desde criança eu sou antenado em conteúdos em espanhol e nos povos vizinhos que eu via aqui Brasil. Com o rap não poderia ser diferente. Quando eu dedicava o meu dia-a-dia ao skate, eu pude conhecer vários rap em espanhol, que interagiram comigo de uma maneira muito forte, fazendo com que eu buscasse mais conhecimento sobre a cena do rap latino e automaticamente transformasse a influência inconsciente em uma responsa consciente. No entanto eu tive e tenho anseio de estar mais próximo desse movimento que salva vidas aqui e nos países vizinhos. Necessito visitar outras terras para aprender e me conectar com quem ama o que eu amo.

Submundo do Som - Nesse rolê mano, o que de mais marcante você vivenciou?

Enidê MC - O amor pela cultura de rua, seja pelo rap, pelo graffiti ou pelo skate. A força de vontade em se expressar é muito forte, então a oportunidade de fazer um freestyle em espanhol dentro do ônibus, nas praças e no metrô com a família da rua foi uma experiência muito boa. E reforçou que caráter não tem cor e nem nacionalidade. Os dispostos se atraem e se compreendem.

Submundo do Som - O Hip Hop brasileiro, para Hip Hop de los hermanos, tem alguma diferença? Ou a cultura é a mesma lá e cá, e já era?

Enidê MC - O Hip Hop é universal, quem ama a cultura, ama em qualquer lugar do mundo (acredito eu). Mas eu noto que hoje (2018) o discurso dedo na ferida, dos problemas sociais é um pouco mais forte nos países vizinhos do que aqui no Brasil. E em relação às batalhas de freestyle eu posso afirmar com certeza que é mais forte no Chile e na Argentina, do que aqui.

Submundo do Som - Tem um time embaçado de beatmakers no projeto “Mangueando Vou”, mas tem um nome que chama a atenção, que é o do saudoso Speed, como é rimar em cima de um beat dele, e como aconteceu essa parceria?

Enidê MC - É um sonho realizado e uma energia que me da mais força para continuar. O Speed é uma das minhas maiores influências na música, então ter tido a oportunidade e o privilégio de ter o meu primeiro trabalho solo produzido por ele, é algo inexplicável. O Bang aconteceu quando o meu grupo Justiça Verbal tinha dado uma parada nas atividades por tempo indeterminado e eu senti a necessidade de apresentar novas idéias ao mundo. Fui de porta em porta quebrando a cara com os "NÃO" da vida, nas solicitações de beat e de produção. Até que um dia sem pretensão nenhuma de ganhar  um "SIM", eu dei esse salve no Speed (quem eu já trocava ideia e tinha uma sintonia de fã), aí então voltando do trabalho eu abro o computador e vejo a mensagem dele dizendo que toparia chegar na produção do single "Los Hechos Jamás Se Acaban", que depois viria a ser a faixa título da EP. Trabalho que o mesmo sugeriu produzir, após a aprovação do resultado dessa faixa feita em parceria comigo. E segundo relatos do jornalista e cineasta Rafael Porto (quem está cuidando do seu acervo e produzindo o seu filme), foi o único trabalho todo produzido pelo Speed, sem ser os seus próprios discos. Isso só reforça a minha fé no corre,  porque desde o primeiro disco solo do D2, o Speedfreaks é uma das vozes do rap que mais me marcou. Acredito que nada é por acaso e agradeço muito ao meu irmão Lucas por ajudar a proporcionar esse trabalho.


Submundo do Som - Recentemente o Enidê MC lançou a música "Traizonero", um projeto em espanhol, como foi fazer esse som e o que ele representa nesse momento de sua carreira?

Enidê MC -  Lancei essa track em parceria com o Mascarenha (Bruno Alvarenga e Caio Fernandes) e também tivemos a honra de contar com a participação do Paul Aka Bad Panda, da Cidade do México, um DJ que tem várias iniciativas de respeito no México, que movimenta a cena de la com grande estilo.
A ideia foi lançar um som que comunicasse bem com os nossos vizinhos, sem o intuito de lecionar espanhol a ninguém, mas sim, expressar e conectar com pessoas que pensam da mesma maneira. Até porque, infelizmente o idioma ainda é um muro para a gente. A música foi produzida pelo Mascarenha, tanto o Bruno quanto o Caio são excelentes músicos, antenados em produção e muito conhecedores de instrumentos. Os scratches foram feitos pelo Bad Panda e a arte de divulgação foi feita pelo GBR, parceiro de longa data, que inclusive foi DJ do meu primeiro grupo de Rap, o Justiça Verbal (2004). A ideia do som é jogar umas verdades na lata de quem abandona os princípios em troca de prata, falha na conduta, trai a nação, a família e a essência do ser humano na terra. Corruptos e corruptores não merecem o nosso respeito, principalmente na esfera política! As filas dos hospitais continuam cheias, as escolas estão cada vez mais em declínio, os impostos estão cada vez mais altos. Por isso não da para fechar com quem quer o nosso mal.

Submundo do Som - Você também tem um trabalho como arte-educador e jornalista né mano? Como é isso? E como você divide a atenção dos projetos?

Enidê MC - No momento eu dei uma pausa nos trabalhos de jornalismo (exercia a responsa de vincular conteúdo cultural independente) e também de arte educador, para me dedicar legal na finalização e no lançamento da mixtape "Mangueando Vou", mas é algo que eu sempre estarei exercendo, independente da regularidade. Realmente era um pouco difícil conciliar tudo, mas como são galhos da mesma árvore, a gente conseguia linkar uma atividade na outra. Mas para fazer de maneira impactante alguma dessas atividades, você precisa dedicar o seu tempo e mergulhar nas tarefas com muita exclusividade. Por isso eu dei uma pausa.


Single "Traizonero"

Submundo do Som - Pra rapaziada que tá a fim de conhecer um trampo novo, que som você pode indicar para os manos? Principalmente, do rolê que você fez pelos países vizinhos, o que você indica?

Enidê MC - Posso indicar a música "Traizonero" produzida em parceria com os meus manos do Mascarenha (Bruno Alvarenga e Caio Cabeça) e Bad Panda, dj da Cidade do México, indico E-Zílio (Mattenie e Rato), D'Origem, Apache e Canserbero (Venezuela) Norick (Peru), T & K (Argentina) N. Hardem (Colombia), Chilenos Mc's (Chile), Kase-O (Espanha), A.X.L., Banca do Loko e Samuca e a Selva.

Submundo do Som - Quais sonhos o Enidê MC ainda pretende realizar nessa caminhada pelo rap?

Enidê MC - Pretendo fazer show nos países que falam espanhol, gravar com alguns ídolos, conhecer lugares que ainda não consegui, fazer bastante shows, organizar uma batalha com uma estrutura e uma premiação foda, para ajudar a impulsionar a caminhada do MC, gravar mais pelo menos 10 discos, lançar disco colaborativo com pessoas que admiro, participar de alguma batalha em espanhol, ter estrutura para ajudar os talentos sem recursos, derrubar o muro do idioma que nos impede de comunicar com os nossos irmãos latinos e centenas de outras responsas.

Submundo do Som - Pra galera que curtiu esse bate papo mano, que mensagem você deixa?

Enidê MC - Faça o que pode com o que tem aonde estiver. Se eu não me engano essa frase é do São Francisco de Assis.

Submundo do Som - Pra quem quiser acompanhar o trampo do Enidê MC, quais são os canais de comunicação?

Enidê MC - @enidemc no Instagram
Enidê Mc no facebook, Enidê Mc no Spotify e nas principais plataformas de streaming.
Um forte abraço para o meu mano MP, que é um dos irmãos que mais acredita no meu corre! Valeu Jefferson, Submundo do Som e toda família que se doa para essa cultura que salva vidas.

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