Entrevista com o MC Teagacê - #submundodosom

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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Entrevista com o MC Teagacê


Salve! O Submundo do Som trocou uma ideia com um homem bom dentro de um blusão dos Racionais, o rapper Teagacê, direto de Natal, Rio Grande do Norte. Ele que veio para falar sobre a sua correria e da cena do rap no Nordeste. O MC falou do seu mais recente trabalho o disco #AkêOrô, que vem fazendo barulho, além de falar sobre suas realizações, sonhos e projetos. Então confere aí que tá da hora:


Submundo do Som - Salve, salve Teagacê! Satisfação mano, se apresenta aí para galera.

Teagacê - Salve meu amigo Jeff, meu nome é Tarcísio Galvão, tenho 33 anos e sou conhecido em meu estado como Teagacê, sou músico há 15 anos e sempre me apresentei em barzinhos, festivais de blues e jazz da minha cidade e no interior do estado, aproximadamente dez anos atrás eu comecei a escrever meus primeiros sons motivado primeiramente pela paixão pelo rap e pela necessidade de fazer música autoral, sempre escrevi muito e sempre escrevi de tudo: cordel, conto, letra, textos... e fazer música foi uma evolução natural, ainda guardo comigo alguns costumes, como não terminar as frases em verbo e optar por rimar palavras menos comuns pra enriquecer os textos.

Submundo do Som - Quais as influências e inspirações que você absorve e coloca no seu som?

Teagacê - Hoje em dia eu ouço pouquíssimo rap, escuto todo mundo de Natal que me manda música, escuto meus parceiros de gravadora (Marti, Jeff, Ujó), os sons mais clássicos da minha cidade, e do Rap BR eu escuto Bastante Xará, Makalister, Amiri, Beni. A fonte que mais bebo é o blues e o rock setentista, Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd, Led Zeppelin, Robert Johnson, BB King, Mutantes, Clapton estão entre os preferidos. Eu tenho escutado muito trap mainstrean americano, mas geralmente só para referência de mixagem.

Submundo do Som - As suas letras são introspectivas, porém atingem no plural, fazendo com que muitos se identifiquem. O que você acredita que motiva esse fato?

Teagacê - Quando comecei a compor novamente eu estava passando por muita coisa ruim e escrever foi a saída, são problemas que passamos ao longo da vida, a forma que eu escrevo sempre em primeira pessoa trata de assuntos corriqueiros, saudades, abuso, relacionamentos, depressão, eu acredito que vivemos numa era em que as coisas acontecem muito rápido e pessoas muito novas se expõem muito e muito cedo, então existe muita gente vulnerável à muita coisa, aqui onde moro vejo muita gente que chega em show, batalha, ou até que me tromba na rua agradecendo por sons que narravam exatamente o que elas passavam naquele momento, quando eu sei de algo desse tipo eu incluo essas canções nos shows de propósito pra que seja especial aquele momento pra quem me fala isso, pois quando escrevi era o que de mais especial eu tinha, sempre fiz um som que não era de fácil digestão, não tenho refrões pegajosos, não gosto de desperdiçar linha e viso muito o lado técnico mas procuro dar um sentido real a cada palavra.

Submundo do Som - O EP #AkêOrô, seu novíssimo trampo, traz um conceito bem original ao rap nacional, com uma atmosfera formidável e poesia marginal afiada, qual foi o conceito ao realizar esse projeto?

Teagacê - O Okê Arô é meu segundo trabalho pela StoneOne Records, esse é o primeiro EP que produzo todo do zero, com exceção dos beats, eu tenho um emprego convencional e quando estou em casa trabalho todo o meu tempo com música, eu queria fazer algo sólido com faixas que se conectassem, algo que envolvesse fé, dúvida, amor e perda, comecei a escrever as faixas enquanto escrevia as outras dos projetos semanais, o que tinha "cara" do EP eu ia separando, assim fiz “Demi Lovato”, “Mescalina” e “Diamantes”. “Leões” foi automático, comprei o beat e já comecei a escrever, em uma tarde estava pronto, “Korengal” foi fruto de alguns acontecimentos familiares que se desdobraram na semana do EP e “Jovens ricos” eu fiz enquanto upava os outros sons. Tinha uma crítica muito grande em relação ao visual dos meus trabalhos, estudei um pouco e fiz eu mesmo os vídeos trazendo as legendas sincronizadas e sem erros de português, 12 dias antes do lançamento estava tudo no youtube, comecei a mixar e masterizar outras faixas e decidi tirar tudo e refazer, 3 dias antes refiz com a masterização mais limpa e correta, como também gosto da imperfeição da primeira versão eu subi ela no Soundcloud, e o conceito do disco mesmo é a beleza da dúvida, das imperfeições, a tarefa de extrair poesia de uma vida cinza.


Capa do EP #AkêOrô

Submundo do Som - Na música Korengal há uma relação conflituosa entre pai e filho, o Teagacê hoje é pai, como que você vê a relação com seu coroa e a relação com teus filhos, que paralelos você traça dessa vivência?

Teagacê - Eu amo muito meu pai, hoje não nos falamos, mas foi devido a escolhas que ele fez, eu realmente o amo e fiz esse som pra ele, meu pai era casado e sofreu uma série de complicações de saúde, ele teve uma leve demência provocada por mau uso de medicamentos ministrados por sua cônjuge, tiramos ele de lá e ele foi melhorando, na primeira oportunidade ele retornou e não teve a consideração de ao menos me avisar, me senti um lixo mesmo. Eu convivo com meus filhos bem menos do que gostaria devido as minhas escalas de trabalho e show, um dia espero poder recuperar o tempo perdido, com o meu filho mais novo eu cuido e sou bem presente.


lyric video da música Korengal

Submundo do Som - Como você vê a cena do rap no Nordeste hoje?

Teagacê - O Nordeste é um celeiro, existe uma camada muito fina de gente que consegue lucrar com o rap, mas hoje graças ao que Diomedes e Baco fizeram nós conseguimos ser pagos em eventos, conseguimos lotar eventos com rap local e conseguimos tocar com o mesmo padrão de uma atração nacional, no meu estado em particular, não temos ninguém que se destacou nacionalmente, mas temos muita gente cujas músicas são cantadas por todos os presentes durante os shows. A evolução dessa geração nos últimos dois anos foi absurda, hoje quando gravamos alguém ele já tem noção de rimas duplas, multissilábicas, sabem onde encaixar uma punchline, muito disso se deve à sites como o Genius e principalmente a uma cultura de Sarau que tem se espalhado pela comunidade daqui, além dos nomes que minha cena tem que já enchem casas temos por exemplo um caso de uma cidade vizinha, chamada Extremoz, onde temos uma batalha, um Sarau, eventos periódicos e temos pelo menos 10 artistas maravilhosos, todos muito líricos e todos completamente preparados, quando fui pra lá, levamos uma galera para um debate sobre o machismo, um Sarau e uma batalha, voltamos todos chorando e arrepiados.

Submundo do Som - Para os manos de outros estados que não estão ligados, o que você indica do rap nordestino para galera daqui se conectar?

Teagacê - Tem muita gente que gosto de verdade, além de todo mundo do meu estado eu recomendo começarem pelos clássicos, Recife tem a Chave Mestra, Chinaski, Cuscuz Clã, Hórus Beatz, Rimocrata, Sang, Og Thug, só em um estado tem rap pra todos os gostos, aqui de Natal eu ouço muito Marti, Slam, aguardo os trampos do Nobre, Cargo Chefe, Ujó que tão chegando esse ano, temos algumas mulheres maravilhosas que estão trampando em discos e em projetos maravilhosos como são o caso da Luanda Luz, Jujux, Pretta, Flori, Bex e Nathalia Ore, temos os clássicos Preto Bronx que tá lançando um trampo maravilhoso,  Chico Bomba e Zé Baga, esse ano tem CD dos meus padrinhos Time de Patrão, tem um EP da Frente Fria, tem a volta do Samsara, Flow de Cria, tem Mano Edu que lança trabalhos lindos solo e com a quadrilha da rima praticamente todos os meses, o nordeste é uma região que as coisas vem acontecendo, essa hora mesmo tem um moleque fazendo um bagulho doido dentro de um quarto escuro

Submundo do Som - Mano, você como músico há 15 anos, como você vê todas as transformações do rap, como enxerga o gênero nos dias de hoje?

Teagacê - Eu enxergo com bons olhos, principalmente a evolução dos artistas em um espaço curto de tempo, hoje na minha cidade, poucas músicas saem sem beat próprio, existe uma preocupação do artista em preencher todas as lacunas que a falta de costume deixou, hoje temos uma apresentação visual muito bonita, são clipes em 4k com steady cam, são filmagens com drone, temos imagens de shows em full hd, 24 frames por segundo, tudo com color grade, editado bonitinho, as letras são mais bem elaboradas, elas expressam o sentimento do artista, os temas são diferentes, gente que fala sobre assuntos diversos ao invés de insistir no mesmo discurso (não que seja ruim), e quando o rap pende para o protesto, ao invés de apenas atacar, ele engrandece o excluído trazendo esperança. Gostaria que essa geração tivesse mais posicionamento em causas que englobam a sociedade como um todo, poderíamos debater questões sociais e cobrar com mais argumento do que atualmente fazemos, estamos por exemplo a beira de uma eleição e vejo gente do movimento compartilhando coisas de extrema direita que seriam deveras prejudiciais para o movimento como um todo, ainda vejo uma falta de sensibilidade com causas como o feminismo e a inclusão LGBT, por exemplo.

Submundo do Som - E quais os sonhos que você pretende realizar na sua caminhada pela música?

Teagacê - Eu quero que meus pais ainda em vida saibam que deu certo, que fui atrás e fiz barulho, esse ano minha mãe me deu um microfone de presente de aniversário, ela me deu e disse que acreditava no que eu estava fazendo, eu quero que ela veja que mais gente acredita, estamos nos preparando pra sair de Natal algumas vezes esse ano, fizemos inscrições em alguns festivais pelo Brasil que dão abertura pra isso e estamos concorrendo no maior festival de música independente do meu estado (MADA), esse ano abrimos todos os shows de rap de nossa cidade, com exceção de 2 shows, vimos que conseguimos sustentar um show de uma hora com todo mundo pulando e cantando as músicas, fizemos um clipe com imagens de nossos shows e eles estão muito bonitos, a ideia é que esse sentimento cresça e que possamos primeiro tocar pelo Nordeste e depois pelo Brasil todo, temos feat com gente do Brasil todo que saiu ou que está pra sair, vamos tentar encontrar essas pessoas e viver um pouco da cena deles, temos a ambição como gravadora de colocar todos os nossos artistas no mercado com trabalhos sólidos e fazendo música boa, tenho como ambição pessoal trazer um Prêmio Hangar para a sala de nossa gravadora, nem que pra isso eu trabalhe 10x mais do que tenho trabalhado.


Teagacê em ação!

Submundo do Som - O que o Teagacê tá preparando de novo e pode adiantar aí pra galera?

Teagacê - Tenho um CD sendo feito com produção de Hórus Beatz, será um trampo feito entre Natal e Recife com influencias diferentes do que eu estou acostumado a fazer, tenho um EP com o Marti de 5, 6 faixas que já terminamos metade e algumas, inclusive, tem uma aceitação ótima em shows, tem um EP com Doggie Killa que é meu ex-companheiro de grupo, esse EP vem numa pegada bem melancólica com todos os sons sampleando Shiloh Dynasty, tenho um EP de Drill/Grime/Funk de 6 faixas que já está pronto, inclusive com os lyrics, e temos algumas participações, vamos só organizar pra não lançar de qualquer maneira e não saturar o público. Quando voltamos tínhamos a meta de finalizar o ano com 1000 inscritos e 50 mil visualizações no canal, atualmente temos 800 inscritos e faltam pouco mais de 1000 views para bater a meta, a partir daí vamos pensar em mirar outros mercados.

Submundo do Som - Qual mensagem você deixa pros manos que acompanharam esse bate papo?

Teagacê - Que acreditem, mirem o mais alto que conseguirem, vivemos num período onde podemos ver nossas referências, não parem, as vezes precisamos de um tempo para juntar os pedaços, mas sempre voltem, mirem no melhor, tentem lançar sempre algo melhor do que o anterior e se joguem, tocar em batalha, pocket show, se posicionem sempre que preciso, corram atrás sempre, tá perto!

Submundo do Som - Tem alguma coisa que eu não perguntei, que você queria falar mano?

Teagacê - Primeiramente agradecer pela oportunidade meu amigo Jeff, pouquíssima gente dá essa importância a um trabalho tão longe do que é vendável como o meu é hoje, obrigado pelo respeito que nos tratou, se um dia virar alguma coisa você vai receber toda novidade antes, segundo pra quem me segue que continue acreditando, vamos procurar melhorar sempre, tentar sempre fazer algo que ninguém fez, vamos pros caminhos mais alternativos e vamos produzir muita coisa, não sei se daqui a um ano, daqui a 10 anos, mas vamos fazer barulho ainda e vamos levar quem a gente puder.

Submundo do Som - E pra quiser acompanhar mais de perto o trampo do Teagacê, quais os canais de comunicação?

Teagacê - Nós somos muito ativos no facebook no link:
temos nosso canal no Youtube: https://www.youtube.com/teaga6,
No instagram somos @thcdiaspora,
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