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quinta-feira, 20 de junho de 2019

As Referências em "Senhor Tempo Bom", o Clássico de Thaide & DJ Hum

A dupla pioneira do Hip Hop nacional, no ano de 1996 laça o álbum Preste Atenção, o quinto disco de Thaide & DJ Hum (além da coletânea Hip Hop Cultura de Rua de 1988 e do sigle Afrobrasileiro, de 1995). Nesse registro apresentou sucessos como "Malandragem dá um Tempo", "Mó Treta" e "Desabafo de Um Homem Pobre", no entanto o grande hit foi a música "Sr Tempo Bom", canção ímpar na história da música brasileira e o maior sucesso da dupla.

Nesse som, DJ Hum discoteca em cima de sample da música "Mr. Big Stuff", da cantora de Nova Orleans, Jean Knight, enquanto que na letra Thaide versa sobre seu tempo de criança até a sua juventude, fase que é marcada pela transição dos bailes blacks, da soul music e do funk para o Hip Hop, uma nova cultura que abraçava os jovens, principalmente negros e periféricos

Nos primeiros versos Thaide remonta a primeira infância e a lembrança da religiosidade no gueto onde nasceu. O candomblé, religião de Thaide, e outras de matriz africana sempre desempenharam importante papel social e de inclusão nas periferias. Muitos artistas tiveram seu primeiro contato com a música através da religião, seja os tambores em terreiros ou violões e teclados em igrejas. A memória do rapper traz o toque do atabaque, e hoje bumbo e caixa do rap dão continuidade a essa precursão, como Santiago Ramirez explora em seu livro "Infância é Destino", as vivências do tempo de meninice se encontram novamente na fase adulta, direcionando a vida:  

"Que saudade do meu tempo de criança,
Quando eu ainda era pura esperança,
Eu via minha mãe voltando pra dentro do nosso barraco,
Com uma roupa de santo debaixo do braço.
Eu achava engraçado tudo aquilo,
Mas já respeitava o barulho do atabaque,
E não sei se você sabe,
A força poderosa que tem na mão
De quem toca um toque caprichado, santo gosta."


Batuque do candomblé, um toque caprichado o santo gosta!

No final dos anos 70 e por toda década de 80 o movimento black do Brasil estava em ebulição, nomes como de Tim Maia e Cassiano despontavam na soul music, Jorge Ben e o Trio Mocotó no samba-rock, e as equipes de som organizavam grandes festas e bailes memoráveis, e essa era a diversão e a música da rapaziada da época:

"Então me preparava pra seguir o meu caminho,
Protegido por meus ancestrais.
Antigamente o samba-rock, black power, soul,
Assim como o Hip Hop era o nosso som"


Gerson King Combo, inspiração da soul music na virada para o Hip Hop


Os bailes blacks dos anos 70 eram a diversão  de Thaide e sua rapaziada, a disco music também estava em alta no Brasil, assim como o funk, soul e o samba-rock, que contagiavam o país todo, mas principalmente em lares de periferia é que eram mais difundidos. E o barato da época eram os passinhos nos salões:

"A Tranza Negra quem rolava as bolachas,
A curtição do pedaço era o Lar Croatia,
Eu era pequeno e já filmava o movimento ao meu redor,
Coreografias, sabia de cor"


DJ da Tranza Negra, rolando as bolachas nos anos 80


Quem cresceu nas periferias nessa época foi cercado pela cultura afro, rádios como a Tranza Negra executava os sons negros, e fazia a juventude sintonizar para ficarem a par das novidades, assim como as casas de shows como o Lar Croatia, onde rolavam o som que a galera curtia.

E fui crescendo rodeado pela cultura afro brasileira,
Também sei que já fiz muita besteira,
Mas nunca me desliguei, das minhas raízes,
Estou sempre junto dos blacks que ainda existem.


Huey Newton, líder revolucionário do partido dos Panteras Negras

A medida que Thaide crescia, experimentava novas sonoridades, mas sempre conectado as raízes, e foi vendo TV, mais precisamente o programa Comando da Madrugada, de Goulard de Andrade, que viu nomes como os dos pernambucanos Nino Brown e Nelson Triunfo, e seu grupo de dança, a Funk Cia, no movimento soul paulistano, mostrarem seus passos de breaking, de Hip Hop, para aquilo que viria a ser febre no Brasil, um movimento que ainda iria eclodir.

Me lembro muito bem do som e o passinho marcado
Eram mostrados por quem entende do assunto,
E lá estavam Nino Brown e Nelson Triunfo,
Juntamente com a Funk Cia que maravilha.


Nelson Triunfo e Funk Cia, nas ruas de São Paulo

Final dos anos 70 e comecinho dos anos 80, a moda era o cabelo black power e a calça boca de pizza, ou boca de sino, esse era o visual dos adeptos do movimento Black Rio, pela resistência negra e inspirado nos Black Phanters e Black Power, tendo como ritmo o soul, que acabava de ganhar o Brasil. E os nomes da música dessa eram Gerso King Combo, Toni Bizarro, Tim Maia, Tony Tornado e Lady Zu, ao mesmo tempo que outros gêneros ganhavam força, como o samba-rock de Jorge Ben e o Trio Mocotó que ganhava as ruas através do som "Cosa Nostra", enquanto que a música do grupo Originais do Samba também ganhava destaque nas periferias, principalmente com o hit "Falador Passa Mal".

"Calça boca de sino, cabelo black da hora,
Sapato era mocassim ou salto plataforma.
Gerson King Cmbo mandava mensagens ao seus,
Toni Bizarro dizia com razão, vai com Deus,
Tim Maia falava que só queria chocolate,
Toni Tornado respondia: Podê Crê,
Lady Zu avisava, a noite vai chegar,
E com Totó inventou o samba soul,
Jorge Ben entregava com Cosa Nostra,
E ainda tinha o toque dos Originais,
Falador passa mal rapaz"


Jorge Ben, no estilo Black Power nos anos 70


As equipes de som que organizavam as festas eram a Chic Show, Zimbabwe e Black Mad, que inclusive estavam envolvidas nos lançamentos das primeiras coletâneas de Hip Hop do Brasil. o clube da Sociedade Esportiva Palmeiras era palco para artistas como Earth, Wind and Fire, Cool and the Gang, James Brown, Areta Franklin, Betty Wright, Zapp, Tim Maia, Jorge Ben e outros. O envolvimento do Palmeiras com a música negra se deu através do Luizão, da Chic Show, que na adolescência pisou no salão de festas da SEP e gostou do ambiente e mais tarde negociou com o clube para levar os eventos da Chic Show para o local, estreando com Jorge Ben, o Palmeiras foi grande difusor da música negra nos anos 70 e 80, sendo referencia e responsável por bailes memoráveis:

"Saudosa maloca, maloca querida,
Faz parte dos dias tristes e felizes de nossa vida.
Grandes festas no Palmeiras com a Chic Show,
Zimbabwe e Black Mad eram Company Soul.


Flayer de show de James Brown, no clube do Palmeiras


E a medida que o tempo avançava na década de 80, novos bailes surgiam, aumentado o leque de lugares para curtir a festa black. O Clube da Cidade, Clube Homes, Roller Super Star, Jabaquarinha, Saquat e os bailes do clube Guilherme Giorgi eram exemplos de festas que agitavam a rapaziada.

Anos 80 comecei, a frequentar alguns bailes,
Ouvia comentários de lugares"

Clube da Cidade, Guilherme Giorgi,

Clube Homes, Roller Super Star,
Jabaquarinha, Sasquat, como é bom lembrar.

Baile no Clube Guilherme Giorgi nos anos 80.

No próximo verso, Thaide lembra da TV da época, como a serie infantil Vila Sésamo, exibida desde 1972 pela TV Cultura, com icônicos personagens como Garibaldo, Elmo, Funga-Funga, Gugu, Gabriela e companhia. Havia também o paranormal israelense Uri Geller, que se apresentava em programas de TV dizendo usar a telecinese e prometia dobrar objetos metálicos como talheres, e mais tarde foi comprovado como uma fraude. E logo no inicio da década, em 1970, a seleção brasileira de futebol se sagrou campeã da Copa do Mundo de Futebol, conquistando o tri-campeonato, com a lendária imagem de Carlos Alberto Torres levantando o troféu Jules Rimet, que na década seguinte foi roubada e destruída. Como Thaide cita, os anos 70 foram um década de magia!


Agradeço a Deus por permitir,
Que nos anos 70 eu pudesse assistir, Vila Sésamo,
Numa década cheia de emoção,
Uri Geller entortando garfos na televisão,
10 anos de swing e magia,
Que começou com o Brasil sendo Tri-campeão.

Garibaldo, personagem da Vila Sésamo

Na primeira metade da década de 1980, o break chega ao Brasil, como o primeiro elemento da cultura Hip Hop em desembarcar em nosso solo. A Funk Cia, do Nelson Triunfo, foi responsável de tirar a dança dos salões e levar para as ruas, e com isso Tahide foi se adaptando, aprendendo novas gírias e malandreando, como cita no verso. E com isso houve a adeptação dos jovens da época, que viram no Hip Hop um veiculo de transformação, onde a mensagem, principalmente através do rap pode transmitir as insatisfações da periferia. Rimas de denúncia e protesto começam a fazer parte da vida desses jovens no final dos anos 80, ditando como seria a cara do hip hop brasileiro nos anos seguintes.

O tempo foi passando, eu me adaptando,
Aprendendo novas gírias, me malandreando,
Observando a evolução radical de meus irmãos,
Percebi o direito que temos como cidadão,
De dar importância a situação,
Protestando para que achamos uma solução.

Thaide no final dos anos 80, no filme Lucy Puma

Thaide lembra também a passagem do movimento Black Rio, o equivalente ao movimento Black Power no país, para o Hip Hop, a galera que curtia os bailes blacks, passaram a graffitar, exercer a função de b.boys e b.girls, discotecar como DJ de rap e assinar letras como MC's.


Por isso black power permanece vivo,
Só que de um jeito bem mais ofensivo,
Seja dançando break, ou um DJ no scratch,
Mesmo fazendo graffiti, ou cantando rap.

Os quatros elementos do Hip Hop


Nos anos 80, outra vertente que ficou famosa foi a dos Função, onde jovens periféricos ficaram mais malandros e radicais em seu modo de vida, roupas e atitudes, era uma mescla do movimento punk e Hip Hop, e queriam se afastar dos playboys, que dividiam espaços nos bailes de salão, e na rua queriam desvincular dessa galera, mostrando que a periferia tem sua cara e próprio estilo, com gírias e ginga da favela, sempre com cabelo black e amor a causa negra. Arrancar o couro dos bancos dos ônibus para fazer um jaco ou fazê-lo com cobertor, era uma das formas de resistência periférica da época, e dava um estilo único aos seus adeptos.

Lembra do função, que com gilete no bolso
Tirava o couro do banco do busão,
Uma tremenda curtição,
E fazia na calça a famosa pizza.
Estilo Função!

Na rua 24 de Maio, no centro de São Paulo, a Galeria do Rock, cujo nome oficial é o Centro Comercial Grandes Galerias, dedica em seu subsolo lojas de discos de vinis e salões de cabelereiros especializados em moda afro, assim como na galeria ao lado, que também tem suas lojas de discos e salões, inclusive nas calçadas em frente as galerias é natural ver a céu aberto profissionais fazendo tranças e dreads em clientes. Tudo isso mantém a tradição negra viva no coração da maior cidade da América Latina.


No Centro da cidade as grandes galerias,
Seus cabelereiros e lojas de disco,
Mantém a nossa tradição sempre viva.

Loja de discos na Galeria do Rock


Passado o tempo, mais precisamente no ano de 1996, ano de lançamento da música, Thaide olha para o passado, 10 e 20 anos atrás, e percebe a evolução da cultura de rua, como o funk e soul foram substituídos pelo rap, os passos de salão pela dança break, mas a força de vontade e levar a voz da periferia adiante se mantém firme e unindo as quebradas.


Mudaram as músicas, mudaram as roupas,
Mas a juventude afro continua muito louca.
Falei do passado e é como se não fosse,
O que eu vejo a mesma determinação no Hip-Hop
Black Power de hoje.
Hip Hop nos dias atuais, mudança no estilo das roupas

Thaide e DJ Hum terminam o clássico afirmando que essa é uma homenagem a todos que fizeram e fazem parte dessa história, participaram dessa transformação e animaram bailes do passado, sejam DJs, radialistas, equipes de som e casas de bailes, todos foram importantes para a contextualização da obra da dupla pioneira:

Essa é nossa homenagem, a todos aqueles,
Que fizeram parte ou curtiram Black Power.
Luiz Carlos, Africa São Paulo, Ademir Fórmula 1,
Kaskata's, Circuit Power.
Bossa 1, Super Som 2000, Transa Funk, Princesa Negra,
Cash Box, Musícalia, Galote, Black Music,
Alcir Black Power, e a tantos outros,
Obrigado pela inspiração.

Logo da Kaskata's, uma das maore equipes de baile do Brasil

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