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segunda-feira, 3 de junho de 2019

Ponto Cego: Uma Pintura do Brasil Atual por Dead Fish


Ponto Cego é aquele que nos oculta visão, passível de propiciar acidentes.Nome apropriadíssimo para o Brasil de hoje, onde um ponto cego na vista da classe média jogou o país num abismo, acidentando os desfavorecidos. Nessa pegada o Dead Fish apresenta seu nono disco, com produção de Rafael Ramos e mixagem de Bill Stevenson, baterista do Descendents.

O álbum tem catorze faixas e trás o conceito de um prédio de um condomínio, com as vivências internas, a vida mediocre, fascista e racista, burra, e os pontos de cegueira, e que vão se conectando em todo edifício em músicas como "Descendo as Escadas" e "Janelas". O álbum é conceitual e deve ser ouvido na integra do começo ao fim para uma melhor experiência.

A exemplo da música "Modificar", do álbum Sonho Médio, de 1999, os acontecimentos históricos do Brasil são narrados em uma linha do tempo sem o uso de sujeito, sem apontar o dedo, mas incomodando, fazendo aqueles que têm culpa vestirem a carapuça. Do meio do álbum em diante as letras já passam a utilizar de primeira e terceira pessoa, a essa altura os cidadãos de bens responsáveis pelo desastre já foram identificados.

Nunca mais será - O disco abre com "A Inevitável Mudança", aqui o Dead Fish inicia a saga que passa por faixa a faixa desse ponto cego, para isso remetem ao passado desgraçado dessa nação, os tempos de colonia insistem em voltar, financiada por aqueles que querem reescrever a história, dando dados e fatos do que passou, enquanto que no presente são dão desgosto. No entanto há contenção: "Do ponto cego da história brotam vozes de resistência e de luta"

"A narrativa vinda do colonizador
Tingiu de branco nossa história
E sem escrúpulo omitiu e apagou
O outro lado da moeda
Mas cada dia mais
Janelas vão se abrir
E a diversidade vai brilhar ao Sol"

Sim, foi golpe! - A segunda faixa é "Sangue Nas Mãos", que ganhou lyric vídeo como prévia do álbum, a música não perde tempo e joga na cara as provas de que espancaram o Brasil, como o famoso áudio de Romero Jucá, um conspirador filho da puta que plantou o embrião da distopia de 2019, e que foi apoiado pelo cidadão de bem ao som de suas panelas batendo:

"Uma jovem democracia
Acorrentada nos porões
Pra que velhos ratos
Possam voltar a reinar
Comprando a justiça
Não há corrupção
Entre brancos e ricos
Pois ninguém é julgado
E a vida segue"

Lyric vídeo de "Sangue nas Mãos"
O lado certo da história não tem sangue nas mãos"

Vigilância para o bem - "Pobres Cachorros" é uma das faixas mais raivosas do projeto, e aqui o misto de pena e ódio, a elite brasileiro latiu feito um cão raivoso, vociferando contra pobres e propagando discurso de ódio, se mostrando a sarna desse país. A pena se dá ao comparar tais animais com os cachorros:

"Pelas passarelas de concreto
O idiota, o cidadão de bem
Desfila com seus cachorros de marca
Acessórios do status quo
Fetiche do autoritário
A rédea curta em suas mãos
Subordinado adotado
Pra aliviar sua tensão"

Estamos prontos pra lutar - Seguindo temos "Não Termina Assim", a resistência, uma canção que mostra que apesar de todo o cenário apocalíptico é necessário resistir, lutar e enfrentar esse governo fascista, e toda essa mediocridade brasileira que apoia cegamente circo que foi instalada:

"A distopia que era mito
Fundamentada por debates mudos e evasivas
Foi endossada, foi eleita
A voz daqueles que só pensam em si
Pra defender o status quo
Que foi imposto
E governar pelo dinheiro"

Remediados criminosos - Pra manter tudo igual - Em "Sombras da Caverna", a banda remete a Caverna de Platão, ou seja, a metáfora usada pelo filósofo grego sobre a ignorância a cerca de assuntos que fogem da zona de conforto dos indivíduos. Os bolsonaristas só enxergam aquilo que querer ver (isso é fake news de vocês tá ok!?), se recusando a assumir que escolheram o pior:

"Só existe o que vê
E o que vê é só o que há
A todo o resto é permitido suprimir e eliminar
Mas as sombras da caverna permanecerão lá"

Na música seis, "O Melhor em Um", traz nas entrelinhas a vida da classe média dentro de seu apartamento, seu reino, onde é permitido o racimos e ser fascista, onde os direitos das minorias são mimimi, arma de fogo é necessidade fisiologia e para o governo aplausos e risos, kkk!:

"Parece que hoje vai chover
Veja a verdade na TV
Quatro paredes e o chão sagrado
Onde vigoram suas leis"

O predador neoliberal - Já na faixa sete, “Doutrina do Choque”, que leva o nome da teoria da filosofa Naomi Klein, sobre o choque que é dado na sociedade afim de que o capitalismo ganhe ainda mais poder, e a exploração estadunidense, buscando influenciar governos em prol de seus interesses:

"Abrindo espaço para o Chicago boy
Privatizar todas estatais
Favorecer os ricos às custas dos pobres
Eliminar programas sociais
Arma na mão pra garantir a paz
Do virtual ao institucional"

Punir e delatar - "Etiqueta Social" é a faixa oito e contextualiza o futuro da nação, casas com murros altos, policia protegendo os ricos e reprimindo pobres, a serviço de uma elite conservadora, hipócrita e radical, que busca doutrinar crianças e rechaçar qualquer opinião contrária,numa ditadura 2.0:

"Parece que hoje vai chover
Veja a verdade na TV
Quatro paredes e o chão sagrado
Onde vigoram suas leis"

Autoajuda, gasolina!  - A canção nove "SUV's (stupids utility vehicle)" uma brincadeira com o acrônimo do nome do carro, um dos preferidos da classe média burguesa (custando cerca de 300 mil golpes!), resinificado para veiculo de utilidade estupida, nessa faixa a critica sobre o comportamento elitista e hipócrita:

"Atropele pobres marginais
Na velocidade da luz
Sua ética do tanto faz
Tornando mais leve a cruz
O conservadorismo hipócrita do pregador
Elege seus bolsos
A justiça tira a venda e escolhe o vilão"

Fez-se o tumulto - Seguindo temos "Apagão", faixa mais melódica com mensagem mais acida, a critica é sobre uma gama da sociedade que tomo decisões erradas em nome de todos, fodendo com a massa: "Incentivando a privada em detrimento de todos, uma cagada liberal:

"Imediatista imoral
O fascismo informal
Noite infértil, escura, longa e fria
O grito é em vão
Os absurdos
Em meio ao apagão
A quem foi dada legitimidade?
Cegos e surdos
Em meio ao apagão
A vida tem suas fatalidades"

Panorama limitado - na música "Janelas" a esperança de que as persianas se abram e o sol bata e clareei a mente dessas pessoas. O primeiro passo para a volta por cima é que os responsáveis pelo desastre enxerguem seus erros e assumam seus atos:

"Janelas abertas
Mentes fechadas
Cortinas bonitas
Ideias erradas
A luz que não penetra a escuridão
Escolhas que restringem a visão"

Bom dia grupo! - "Messias" narra o passo a passo de como o Brasil fracassou, ao escolher o pior candidato, o mais despreparado e coloca-lo num pedestal de salvador da pátria. A música faz alusão a enxurrada de noticias falsas que ele e sua corja inundaram nos grupos de whatssap. 

"Preste atenção ao demagogo
Há trinta anos nesse jogo
Ele agora é a salvação
Ele agora é a salvação
Sem diálogo, nem projetos
Dando graças ao ódio e ao medo"

"Receita Pro Fracasso" dá maior destaque para a voz de Rodrigo, aqui a letra trata das consequências, cortes em necessidades básicas da população, desmantelamento dos direitos trabalhistas, tudo isso são os ingredientes para essa formula do desastre. E não somente os pobres irão se alimentar dessa desgraça, mas toda a elite cega também:

"Congele o investimento em saúde e educação
Reduza a idade de trancá-los na prisão
Desigualdade aumenta, a repressão também
Uma guerra de classes beneficia a quem?"

Roubar pra empreender - Fechando o álbum tem "Descendo as Escadas", música que apresenta poesia mais abstrata, no entanto mais precisa e que sintetiza todo o álbum, mostrando que os principais responsáveis pelo caos que nos encontramos não são as grandes corporações (as quais também tem culpa), mas sim o cidadão classe média, branco e elitista, que sentiu a necessidade de não se misturar, de não se sentir parte do meio, puxando o gatilho e disparando contra o próprio pé, mas antes ferindo os mais pobres:

"Água empoçada, rigidez, torpor
Discurso de casta, modelo importado
Baixa tolerância, alta infração
Seguindo a hierarquia e vivendo em negação"

Ponto Cego está em todas as letras desse álbum, não somente como palavra, mas mostrando a cegueira coletiva que banhou o território brasileiro, bem verdade que o crescimento da estrema direita é um fenômeno mundial, mas o Brasil, nessa aurora atual, quis estar na vanguarda do fascismo e parte de sua população, a classe média alta, burguesa, branca, burra, de condomínio é retratada nessa obra fonográfica. 

Dead Fish tira uma foto do Brasil atual e imprime no seio da nossa história, sendo resistência ao apagamento compulsório que o desgoverno tenta a cerca dos fatos. O disco Ponto Cega vem pra tampar algumas lacunas que o rock nacional deixou ao longo dos anos, quando o assunto é politica.

Extremamente urgente e necessário, Dead Fish assume o protagonismo da resistência no hardcore, e acende a esperança de que mais bandas tragam coquetéis molotovs sonoros para munir seus fãs contra o Bozo fascista! E se há algo de bom desse desastre democrático é a produção de música de verdade, crua, e como diria Chico Science: Diversão levada a sério".

Sem mais, escuta aí:

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