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terça-feira, 24 de setembro de 2019

Hip Rap Hop do Região Abissal



1988, três anos após a redemocratização, e o Brasil ainda aprendia o que é isso. Por 313 votos favoráveis, e 5 contra, a Assembléia Nacional Constituinte aprova o fim da censura e da tortura e a liberdade de expressão intelectual e de imprensa no pais. Ainda em 1988 é criada a nova constituição federal, e o pais vivia os altos e baixos (na verdade mais os altos) da inflação do governo de José Sarney.

E é nesse panorama que em 1988 o grupo Região Abissal entrava pra história como o primeiro grupo de rap do Brasil a ter seu álbum, o disco Hip Rap Hop, contemporâneo das coletâneas Hip Hop Cultura de Rua e O Som das Ruas, reunia dez faixas e toda a atmosfera da fase inicial da cultura no Brasil, em um projeto totalmente experimental e de impacto.

Formado por Adilson, Guzula, Bafé, DJ Giba, DJ Kri, Marcelo Maita e Athalyba, esse pessoal do Região Abissaldo bairro do Bexiga, em São Paulo, era vizinho do produtor musical da Ricardo Lobo, que apresentou o conjunto à gravadora Continental, propondo o LP. Assim a nasceu o primeiro disco de hip hop de um único grupo no Brasil, que também foi lançado em fita k7.

O experimentalismo do grupo começa em sua formação, dois DJs, algo incomum de se ver no rap, seja em qualquer parte do pais, além disso uma banca de quatro MC's e um tecladista. As letras também arriscavam e experimentavam, temperadas pelo contexto sócio-politico que o pais atravessava. 

"É isso mesmo. E assim, eram sete caras, sete influências e tinha espaço pra todo mundo. A gente era bastante eclético, nesse sentido. Queríamos fazer aquilo que a gente conhecia, a gente começou e aprendeu a fazer rap praticamente sozinho."

Essa é a resposta que o DJ Kri deu quando perguntado sobre a variedade das letras do Região Abissal, em entrevista para o portal da Vice. E por falarem letras, vamos a elas:

O álbum abre com a música “Alô Papai”, que em cima dos BPMs acelerados da lendária bateria eletrônica de Giba, o grupo aborda com malandragem o tema da liberdade sexual, com o refrão:

"Alô papai, libere sua filha
Faça um desacerto
á relação de vocês dois
Alô papai, libere sua filha
Deixe que a menina tome a sua decisão
de viver a vida, ou reprimir o seu tesão"

Na sequência tem “Sistemão” umas das músicas mais densas do álbum, recheadas de colagens e scratches e peso na bateria, aqui o Região Abissal, na voz de Athalyba, faz uma critica ao estado de vários menores abandonados nas ruas pelo estado, mostrando sua realidade e consequência dessa violência vivida:


"Religião não sei
sexo conheço
ouvi falar da AIDS
Mas nunca li um jornal
nunca peguei um teatro
eu nunca fui pra escola
eu sei jogar uma bola
meu barato é furto
eu cheiro muita cola
Foi o sistemão que me jogou na rua na Praça da Sé"


Seguindo tem a faixa “Falso Inglês”, levada por Bafé, o M.C.B. Nessa música o grupo tira  onda em cima de uma base robusta e tensa, com um embromation, já entregue no titulo da faixa. A brincadeira vem para valorizar a diversidade do RA, que pôs um flow malandriado encaixando com o beat de forma harmoniosa para os ouvidos.

Na sequência uma das marcas registradas de Athalyba, as love songs, aqui representadas pela música “O Amor Inovou”, com BPMs mais lentos para uma declaração de amor, singela, em apenas dois versos, que também viram refrões, mas que são eficazes na mensagem:

"Não sei se cê sabe
O amor inovou
Nossa pura amizade
Hoje virou saudade
O amor inovou
Sonhar contigo
é o meu fim"

Fechando o lado A, tem a faixa "Cruz de Prata", com riscos precisos e samples de risadas diabólicas (provavelmente gravadas por algum integrante), em letra que aborda os assuntos do além, a fé e o medo humano perante ao tema:

"Os mistérios do mundo se fazem na escuridão
Não é de hoje que homem não consegue explicação
Pro diabo, o demônio, lúcifer e satanás
Que habitam o inconsciente de nós os animais
E sendo assim, durma com uma cruz de prata
Na lua cheia, o mal espreita, o mal ataca..."

Iniciando o lado B, "Litoral", uma faixa mais descontraída, com baixo marcante e melodia performada pelo teclado e colagens que ajudam a transmitir a sensação praia, a música levada por Guzula, conta com uma presença feminina, que foi a condição da gravadora para promover uma jovem artista da época e a ideia de criar um hit. A letra fala sobre fugir do caos da cidade grande e tirar um barato no litoral:

"O sol ta forte vou me mandar
Porque na capital não dá pra ficar
Estou empapuçado dessa poluição
Até de carona vou cair no mundão
Preciso arejar esses prédios me dão tédio
Olhos vermelhos choram o dia inteiro
Quero um lugar que me deixe contente
o esquema é viajar esse é meu remédio
Eu vou pra onde?
Pro litoral!"

Na sequência a faixa, a primeira música criada pelo Região Abissal, antes de Athalyba entrar para o grupo, "Falo Giria", de Guzula, beat rápido e destaque para o baixo e os scratches (bota logo um scratch...sente o scratch de perto), em letra que fala sobre a malandragem das ruas:

"Falo Giria sim senhor
Só me entende quem quiser
Aqui não é o Bronx
E por isso eu tenho Bronx
Rapeize do beize
E também os DJ's
Cafungam no beize
E se cheiram eu não sei
E se cheiram ei não sei"

Em "Que Zica Zé", um dos primeiros sotoryline em primeira pessoa do rap nacional, que narra o dia quem Zé foi até o dentista e acabou rodando como laranja, já que o doutor praticava atos ilícitos com cocaína e quando a policia invadiu, sumiu, "entregando" o cliente. Como disse Thaide sobre essa música: é muita malandragem!

"O doutor resfriado
um pratinho do lado
me chamou atenção
a policia invadiu
o doutor ninguém mais viu
Ai chegou o jornal

Fotografia, coisa e tal..."

Hip Rap Hop também tem "a faixa hard" "O Gueto", como definiu o Giba, o instrumental tem o peso da guitarra e o vocal, de Adilsinho, mais acelerado, falando sobre o cotidiano em um bairro de quebrada, música precursora das crônicas que relatam o dia a dia na periferia:

"Quero ver você chegar com toda a disposição
Muita ideia vai rolar, vê se liga meu irmão
Nasci na Bela Vista, no núcleo do Bixiga 
Lugar belo no nome não pode pisar em falso
Convivi no meio da rapaziada
Não se pode vacilar
Muito menos caguetar
Olho por olho
dente por dente"

E fechando o clássico Hip Rap Hop, a música "Fulano", levada pelos quatro MCs do grupo, recheada de scratches a música aborda um desentendimento na favela, de um fulano que pisou na bola e passou por um júri popular e teve um final trágico, apesar do tom menos denso, a música retrata um fato, até certo ponto corriqueiro, e vem como mais uma crônica dos acontecimentos da periferia:

"E todo orgulhoso ele pensa que é o tal
Mas ele não sabe que a revolta é geral
E foi feita uma reunião
Ele era o motivo da discussão
E resolveram o seu destino
Deram oito facadas no seu intestino"

O Região Abissal dribla a dificuldade dos tecnicos de som e produtores da Continental de compreenderem o Hip Hop, os graves do rap, diferentes do batido sertanejo, que a gravadora estava habituada. Com isso o grupo do Bixiga entrega um dos álbuns mais classe, e diversificados, da história da cultura no Brasil. Apesar de um registro de 1988, sem a sofisticação dos recursos de 2019, e a facilidade que os tempos modernos proporcionaram, Hip Rap Hop, ao ser comparado com outras produções da mesma epoca, se mostra avançado, talvez por ter dois DJs, um tecladista e quatro MC's, ou talvez pela variedade de sete cabeças diferentes, e a determinação de um grupo, sete manos do Bela Vista, que apenas musicalizaram sua essência!


Ps: Tênis "NIKE" da foto de capa gentilmente cedido por ALPARGATAS S/A. Calças Moleton e Camisetas da foto de capa gentilmente cedidas poe Surf Combatt - Informação retirada do encarte do LP do disco.

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