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domingo, 18 de agosto de 2019

Minha Área É Tudo Que Tenho - Quando o Rap Tinha Endereço

"Essa porra é um campo minado, quantas vezes eu pensei em me jogar daqui, mas minha área é tudo que tenho...". Os versos dos Racionais MC's em "Formula Mágica da Paz" mostram a relação de amor e ódio entre a quebrada e seus representantes. Não ódio pelo lugar em si, mas pela situação em que seus habitantes vivem, pois como traduz o grupo Consciência Humana: "Periferia Tem Seu Lado Bom", e como o próprio grupo cita em outra letra, a violência, falta de infra-estrutura e descaso são "A Lei da Periferia". "Essa porra", ao mesmo tempo que "é tudo que tenho", e esse é o ponto, o orgulho que os rappers dos anos 90 tinham pelas suas quebradas.

RZO é de Pirituba, o GOG de Brasilia, Rappin Hood de Heliópolis, Da Guedes do Partenon, MV Bill da Cidade de Deus, Dexter do Calux, Face da Morte de Hortolândia, Criolo do Grajaú, Xis de Itaquera, De Menos Crime e Consciência Humana do bairro de São Matheus, Sabotage do Canão, no bairro do Brooklin, e até mesmo fora do rap víamos essa identificação com a quebrada: Charlie Brown Jr de Santos, Ultramen de Porto Alegre, O Rappa de todas as Comunidades do Engenho Novo e Chico Science & Nação Zumbi de Recife e por aí vai. Os bairros e cidades dos artistas citados aqui puxei na memória, sem necessidade de uma pesquisa, longe de querer me gabar, mas a informação estava na ponta da língua, basta ter crescido ouvindo o som desses grupos.

Nos anos 90, e começo dos 2000, era comum as letras carregarem o nome das quebradas, isso mostra um enraizamento e até mesmo compromisso dos rappers com suas localidades, o verdadeiro Rap das Quebradas. Mesmo que muitos dos relatos, principalmente nas sotoryline do Dia a Dia da Periferia, retratados em tantas Canções, sejam de assaltos, homicídios, latrocínio, estupros, violência doméstica, esses não são as raízes do mau, e sim os sintomas, pois assim como um morador do gueto, a quebrada também sofre com todas essas mazelas e carregar o nome de um bairro numa letra é uma forma de apoio aos seus habitantes, de resistência ao sistema e carinho com o lugar em que muitos cresceram e viveram.

No rap moderno, se assim podemos chamar a safra de 2010 pra cá, pouquíssimos citam os nomes de suas quebradas, são nômades, não tendo uma raiz firme com uma localidade. Isso se deve a dois fatos, um: a procura de melhora de vida, ou de atenção para sua carreira artística, muitos migram de cidades e estados, e por passagem meteórica por diversas localidades não se sentem convidados a representa-las. O outro ponto é a crescente do rap feito fora das quebradas, continua nas regiões periféricas, longe dos jardins, mas não dentro de guetos de tijolo vermelho, telha brasilit e buracos de balas nas paredes, mesmo sendo um ambiente hostil é ali onde muitos cresceram e viraram cidadães, e por não terem essa geografia no DNA, por virem de lugares sem o peso de uma quebrada que educou e criou, muitos dos atuais rappers focam suas linhas em outros temas, sem mostrarem de ondem vem. Afinal a favela é uma mão, e só quem é filho legitimo sente a necessidade, não que seja obrigação, de agradecer e mostrar o carinho pelos ensinamentos do gueto.


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O exemplo para as quebrada


Hoje em dia o rap cresceu e não é mais paulista, tem vários sotaques, vários estilos, porém mesmo assim é difícil as vezes detectar de qual estado é aquele mano, não que vá fazer diferença ma mensagem que o MC quer passar, mas pra quebrada faz total diferença, a favela sente falta de seus reais representantes, aqueles que levam seu nome numa peita, encarte de CD ou letra (I Love Quebrada!). Isso também é representatividade, como muitas músicas já retrataram no gueto não tem em quem se inspirar, só nos traficantes que vendendo pó pra playboy onde de roupas caras e pilotam motos que nem sei dizer o nome. Quando o moleque vê o MC do bairro no Conversa com Bial ou Encontro com Fátima, ou qualquer outro programa dos cú do plin plin, e o artista cita a quebrada, fala do bairro, do Seu Zé, da Dona Maria, esse moleque se sente representado, e vê que alguém como ele, da onde ele veio, pode chegar, e ele sente que também pode. Acgo que é isso, e se tiver que voltar para favela, é voltar de cabeça erguida, né não?!

Segue uma Playlist com músicas que aborda a quebrada do artista!

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