M19 - Luz, Câmera, Caixão - Submundo do Som

Breaking

Home Top Ad

Post Top Ad

sábado, 26 de outubro de 2019

M19 - Luz, Câmera, Caixão


Talvez você não tenha ouvido falar, ou ouviu pouco, sobre o M19 no rap, com letras afiadas e que narram a realidade crua, sem maquiagem e sem fabular. O nome é inspirado no grupo guerrilheiro Movimiento 19 de abril, atuante na década de 1980, na Colômbia, sendo lembrado por lutarem até a morte em defesa dos ideais de esquerda. 

O M19 brasileiro possui um arsenal certeiro, tanto quanto os vizinhos colombianos, nesse caso são as letras contundentes e perigosas para o sistema, que injetam adrenalina na veia daqueles que clamam por revolução. E esse arsenal estão concentrado no único álbum do grupo: Luz, Câmera, Caixão. Apesar de se referir como grupo, o M19 é formado apenas pelo Thiago M19, originário de Blumenau-SC, e na capital paulista encontrou o tempero para sua poesia, com o grupo Liberdade e Revolução, com ideias semelhantes ao de Thiago, e somando junto ao MC nas apresentações. O M19 não está mais na ativa, masas ideias inflamadas e o teor da ação direta são posturas que fazem falta na atual cena do rap brasileiro.

O álbum Luz, Câmera, Caixa, tem a perturbante introdução "Locadora Planeta Terra", ao longo dos seus 06 minutos e 22 segundo, é a faixa mais extensa do álbum, e utilização da ficção para passar uma visão real do mundo em que vimemos. Como uma especie de "novela radiofônica", a intro é a conversa entre um funcionário de uma locadora e um cliente que almeja locar um filme, porém todas as indicações da locadora remetem as mazelas reais que acontecem no cotidiano da humanidade, mostrando que todo enredo da humanidade é um filme de final triste, o que remete ao nome do álbum: Luz, Câmera, Caixão.

O M19 também é envolto a polêmica do ateísmo, como é bem explicito na introdução "Locadora Planeta Terra", e talvez esse seja um dos fatores que fez com que você não ouviu falar do álbum, ou ouviu pouco. A questão de ser um rapper ateu não foi bem vista no meio tradicional do rap, até então de maioria cristão. Hoje a cena se encontra mais diversificada, inclusive com o empoderamento negro cada vez mais solidificado, e as religiões de matrizes africanas sendo exaltadas.

Thiago em entrevista para jornalista Renata Bettoni, do site RapGyn.Com, conta sobre sua visão ateia, como se deu seu processo de entendimento desse ponto e qual a conexão com sua ideologia no rap:

"O ateísmo não é um dogma ou uma organização como tais poderiam pensar, mas uma forma de enxergar os pontos relativos à divindades e experiências que dizem existir. Posso dizer que nunca fui verdadeiramente deísta, todavia, ateu também não poderia dizer que era, minha convicção ateísta existe a cerca de cinco anos. A chegada ao ateísmo não foi algo repentino, mas sim paulatino. Após meu senso crítico ter estourado as grades construídas pela alienação comecei a pesquisar e a questionar o que geralmente não se questiona. Nesse ínterim, evidentemente surgiu a religião, infelizmente um dos maiores e mais fortes instrumentos de dominação existente na humanidade e novamente mais uma corporação aliada à burguesia usada como atenuante para conter os levantes e para justificar o sofrimento que a classe menos favorecida sofreu e sofre até hoje."

O teor do álbum Luz, Câmera, Caixão é de colocar o dedo na ferida, com a essência da golden era do rap nacional, com letras que buscam conscientizar, ou se preferir chocar, ou seja, a poesia crua discorre sobre os problemas sociais, mas não simplesmente senta em cima da situação, a didática professoral mostra a analise da situação e os meios para a solução, que sempre parte para a ação direta.

A música "Habitat Irracional" é uma das poucas do rap nacional a tocar no tema da causa ambiental, mostrando as consequências do descasco humano para com a natureza e poderia muito bem ser utilizada como um hino na luta da preservação da natureza. A s ideias do M19 também aborda a teoria da evolução, traçando um paralelo no estudo de Darwing com o ambiente de contraste que vivemos, onde só aqueles que conseguiram se adaptar sobrevivem, como aponta as músicas "Teoria da Aniquilação" e "Seleção Natural", onde a adaptação é abaixar a cabeça para o sistema ou enfrenta-lo, em que isso custe a vida.

Importante frisar que mesmo acompanhando a cena do rap em 2011, o M19 não chegou no meu radar, tive conhecimento do trabalho apenas em 2019, quando participei do podcast O Rap em Debate, do site Hip Hop Sem Maquiagem, do Alisson Thiago, e o mano Thiago Augusto trouxe como indicação a impressionante música "Habitat Irracional", quase que em paralelo recebi um salve do parceiro Alexandre, do canal RapGangsta, sugerindo como pauta abordar o álbum Luz, Câmera, Caixão, inclusive me enviando o disco para conhecer na íntegra o trabalho do M19.



Track list - Luz, Câmera, Caixão

1. Locadora Planeta Terra
2. Luz, Câmera, Caixão
3. Queimando a Bandeira Branca
4. Na Cela do Arrependimento
5. Habitat Irracional
6. Na Ofensiva
7. A Vida Não é Bela
8. Teoria da Aniquilação (Intro)
9. Seleção Natural
10. Escorre Sangue no Paraíso
11. Fábrica de Monstro
12. Sessão do Descarrego


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Post Bottom Ad

Páginas