Belchior Tinha Razão: Alucinação é Suportar o Dia a Dia - Submundo do Som

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sábado, 9 de novembro de 2019

Belchior Tinha Razão: Alucinação é Suportar o Dia a Dia


Em 1976, Antônio Carlos Belchior concebia o sucessor de seu álbum homônimo de 74, com produção de Marco Mazzola e gravado no estúdio de 16 canais da Phonogram, no Rio de Janeiro, o poeta de Sobral lançava Alucinação. Considerado pelas mídias especializadas como o melhor trabalho da MPB, o disco foi campeão de vendas a mescla do rock, blues, country ritmos da world music com a regionalidade do baião, somados as narrativas introspectivas e ao mesmo tempo plurais, contribuíram para o sucesso do álbum e fizem de Belchior um artista da massa. 

Alucinação abre com a música "Apenas Um Rapaz Latino Americano", com letra autobiográfica que narra a trajetória e status quo do artista. Composta no período militar e com a verve inquieta do artista, sua poesia não poderia ser diferente e buscou bradar sobre a época, musicando a repressão e trazendo um cinza que se distância do colorido da Tropicália:

"Eu sou apenas um rapaz
Latino-Americano
Sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes
E vindo do interior
Mas trago de cabeça
Uma canção do rádio
Em que um antigo
Compositor baiano
Me dizia
Tudo é divino
Tudo é maravilhoso"

A segunda faixa, "Velha Roupa Colorida", aborda o olhar para o futuro, uma mudança simbolizada pelas vestes, o colorido de Woodstock é deixado de lado, assim como a filosofia, onde muitas ideias se tornaram ultrapassadas e como cita o poeta: e precisamos todos rejuvenescer.

Você não sente nem vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer

E o que há algum tempo era jovem e novo, hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer"



Belchior segue uma linha de raciocínio em Alucinação, se na primeira faixa aborda seu presente e na segunda questiona suas referências, em "Como Os Nossos Pais", letra que rejeita a necessidade de falar da arte, do abstrato, para afirmar a vida real, que é sublinhada como algo mais urgente e importante e em meio as dificuldades que o cotiano traz. Belchior não vai desistir e regressar, vai encarar o dia-a-dia. A letra ainda traz como plano de fundo a ditadura militar, com critica implícita á repressão, o clima de medo e violência e o perigo na esquina.

"Por isso cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens
Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço
O seu lábio e a sua voz"

Na quarta canção, "Sujeito de Sorte", a música traz o clima de superação e imortalizada pelos emblemáticos versos "Ano passado eu morri, esse ano eu não morro", sampleados em 2019 pelo rapper Emicida, na música "AmarElo". A música segue como uma declaração de vida e a reflexão até esse ponto do álbum tornam o artista pensativo quanto a sua posição, e que a arte é salvadora e faz esse resgate:

"Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço me sinto são e salvo e forte
E tenho comigo pensado, Deus é brasileiro e anda do meu lado
E assim já não posso sofrer no ano passado
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro"


A fixa que fecha o lado A do disco é "Como o Diabo Gosta", em música rápida e de efeito duradora, anarquista e subversiva, o encontro do sertão com Liverpool. Belchior faz um desabafo sobre tudo que viveu no disco até esse ponto, e segue como uma bussola buscando o norte, sem se prender a acomodações passadas. O canto animador e a performance do artista, com levadas diferentes trazem uma caracterização ímpar para a obra.

"Não quero regra nem nada
Tudo tá como o diabo gosta, tá
Já tenho este peso, que me fere as costas

E não vou, eu mesmo, atar minha mão"

Abrindo o lado B do disco temos a faixa homônima, "Alucinação", música atemporal numa critica sobre as especulações sobre a vida, e a falta do olhar para a humanidade, quebrando o pesamento mistico de que a vida é bela, alertando para as mazelas das grandes capital, mas apesar de viver tempos sombrios, como na época da ditadura, é possível amar e não perder a humanidade em um lirismo genial e interpretação que ressalta a poesia que é menos subjetiva, colocando o dedo na ferida em assuntos como desigualdade social, racismo, violência urbana, abuso de autoridade policial e prostituição enquanto possui traços pela luta feminista, direitos humanos e homoafetivos, elementos que compõe o mundo globalizado já em 1976, já que amar e mudar as coisas interessam mais:

"Um preto, um pobre
Uma estudante
Uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas
Pessoas cinzas normais
Garotas dentro da noite
Revólver, cheira cachorro
Os humilhados do parque
Com os seus jornais
Carneiros, mesa, trabalho
Meu corpo que cai do oitavo andar
E a solidão das pessoas
Dessas capitais
A violência da noite
O movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre
Que canta e requebra
É demais!"

Completando a música anterior, "Não Leve Flores", de uma apresentação mais serena e arranjos que soam ao country, a faixa reforça a questão do amor, e as relações de amizades que são frágeis e o alerta para o renascimento de antigos males. 

"Tudo poderia ter mudado, sim
Pelo trabalho que fizemos, tu e eu
Mas o dinheiro é cruel
E um vento forte levou os amigos
Para longe das conversas, dos cafés e dos abrigos
E nossa esperança de jovens não aconteceu
E nossa esperança de jovens não aconteceu, não, não"

A oitava música é o clássico "Á Palo Seco", que havia sido apresentada no álbum anterior, porém aqui ganha nova roupagem, o titulo é inspirado em poema de João Cabral de Melo, uma expressão que significa "papo reto", um assunto dito de forma direta e explicita, a queima roupa, ou também um canto a capela: "e eu quero é que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês". A letra também é autobiografica e traz a necessidade de autoafirmação de apenas um rapaz latino americano, onde onde um sonoridade vizinha, como o tango argentino cai bem melhor do que um blues estadunidense naquele momento de desespero de 1976:

"Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava
De olhos abertos, lhe direi
Amigo, eu me desesperava
Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em '76
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente, eu grito em português
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente, eu grito em português"

Em "Fotografia 3x4", penúltima faixa do disco Belchior narra a epopeia de um retirante, saído do nordeste para tentar a sorte no sudeste, e as marcas que essa experiência deixa na vida do individuo e também do ouvinte, já que é impossível não se sensibilizar com o storyling passado. Entre Cabarés e praias, cenários que ajudam a compor a narrativa, temos a dor de um romance deixado de lado para uma investida em uma oportunidade de ascensão na vida, e um recado: "Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua".

"Eu me lembro muito bem do dia em que eu cheguei
Jovem que desce do norte pra cidade grande
Os pés cansados e feridos de andar legua tirana... nana
E lágrima nos olhos de ler o Pessoa
e de ver o verde da cana.
Em cada esquina que eu passava
um guarda me parava, pedia os meus documentos e depois
sorria, examinando o três-por-quatro da fotografia
e estranhando o nome do lugar de onde eu vinha."

Fechando o brilhante disco Alucinação, temos a vinheta de saída "Antes do Fim", um breve despedida sob uma batida ao estilo folk, abrindo os olhos do ouvinte a realidade a cerca da vida, que a vida não é tão bela, e que ressalta as principais mensagens ao longo do álbum, aprendam o delírio com as coisas reais:

"Quero desejar, antes do fim,
pra mim e os meus amigos,
muito amor e tudo mais;
que fiquem sempre jovens
e tenham as mãos limpas
e aprendam o delírio com coisas reais.
Não tome cuidado.
Não tome cuidado comigo:
o canto foi aprovado
e Deus é seu amigo.
Não tome cuidado.
Não tome cuidado comigo,
que eu não sou perigoso:
- Viver é que é o grande perigo"


Em Alucinação vemos o que Belchior vivenciou antes e durante o álbum, um incansável misto de sofrimento e afirmação sobre o amor e a busca pelos direitos e a compreensão sobre a arte, além de ser um alerta as armadilhas e feridas da vida enquanto se mantém lúcido ao manifestar a vontade de sonhar e viver, e prosseguir nessa caminhada.

Belchior não é um compositor de fácil assimilação, não é um cantor que agrada a todos, apesar de ser um artista das massas, a toada dessa complexidade artística e pessoal, fazem que o músico seja a personificação da poesia, desde sua estética a filosofia atemporal, sem medo de peitar grandes queridos, sem medo de colocar o dedo na ferida ao falar das mazelas, de forma visceral e seu canto em plenos pulmões, não há como se manter indiferente a poesia forjada no agreste e solidificada na caminhada pela longa estrada da vida. Belchior tinha razão, alucinação é suportar o dia a dia.

Escute Alucinação no Spotify:

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