La Famiglia de Skowa e a Máfia - Submundo do Som

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domingo, 17 de novembro de 2019

La Famiglia de Skowa e a Máfia


Em 1986 tendenciado pela transição entra os bailes de salão e o Hip Hop que ganhava as ruas o músico Skowa, apelido que ganhou na época do colegial devido ao black power que ostentava, se juntou ao belga, erradicado no Brasil, Bukassa Kabengele, o qual também possui cidadania congolês, e formaram a máfia, digo a banda, Skowa e a Máfia.

Em 1989 lançam o álbum La Famiglia, um disco groovado de funk, soul e Hip Hop, com dez faixas o projeto teve produção do Skowa e do Tadeu Eliezer, vulgo Tadeu Patolla, conhecido por ser guitarrista da banda Lagoa 66 e ter "descoberto" o Charlie Brown Jr. La Famiglia saiu pela gravadora Eldorado, a mesma que lançou a coletânea Hip Hip Cultura de Rua, em 1988, e o disco conta com a participação do pessoal da São Bento, Thaide e DJ Hum, MC Jack Código 13.

O álbum abre com a faixa "Atropelamento e Fuga", canção original da banda Akira S e as Gorotas que Erram, Akira foi o produtor das faixas do grupo O Credo, no LP Hip Hop Cultura de Rua. Skowa e a Máfia fizeram dessa sua música de trabalho, chegando a gravar o video clipe:

"Você dirige o automóvel
Eu lhe dirijo argumentos
Você digere alguns momentos
Mas cola seus olhos ao ponteiro
E cola o ponteiro ao vermelho
E cola o seu carro ao da frente
Você diz a verdade quando mente
Porque amplifica sua voz quando fala
Seu carro vai rápido como uma bala
Seu carro é irrefutável
Mas as vielas são inviáveis"

Vídeo clipe de Skowa e a Máfia para a faixa "Atropelamento e Fuga"

A música 2 é "Atenção", swingada e mais voltada para um samba com groove, e vários elementos oitentistas, trazidos pelo tecladista Rogério Rochlitz, que ajudam a trazer a atmosfera para o som.  

"Estou de olho em você
Não tente me enganar
Eu te conheço muito bem
De outros carnavais
Teu papo mole já não cola mais
Na sua baba eu não vou escorregar
E dentro de você vou penetrar
Quebrar o seu escudo invisível protetor
E ver a sua pose pouco a pouco se desfazer"

Na faixa seguinte, com participação de Ed Motta a faixa "Deus Me Faça Funky", mais lenta com o baixo marcante da Kiki Vassimon e bateria, de James Muller, com swing e sensacionais riffs de guitarra solo do Tuba e guitarra base de Tonho Penhasco, a música alterna de ritmo para o refrão mais cantado e animado com gritos pique James Brown que entoam o nome da música, e a variação vocal entre Motta, Skowa e Bukassa Kabengele, a música ainda flerta com o reggae:   

"Pessoas rezam, querem ir para o céu
Eu não tô nem ai, vou pro beleleu
E quando eu me ajoelho pra rezar
Só uma coisa eu consigo pensar
Deus, Deus me faça funky"

"Assim Passam as Horas" é a quarta faixa, assim como as anteriores, o groove é predominante, assim como as inserções de Bukassa Kabengele que responde aos versos de Skowa, e o solo de trompete, feito pela Mônica Doria, integrante da banda, em uma levada mais jazz, trazidas pelos saxofinistas Liege Rava e Fernando Bastos.

"É, mas da próxima vez vamos marcar
Abaixo do nível do mar
Naquele lugar que não existe
Não há possibilidade de se ficar triste
E quando eu ouvir a sua voz
Vou descobrir que eu somos nós
E passando a hora de te encontrar
O tempo em silêncio vai me revelar"

Fechando o lado A do disco, a música "Dance" que traz uma mescla de rap, com scratches, e rock anos 80, com muito balanço e grave, e como o titulo sugere, a letra aborda as manifestações artísticas da dança, a junção da capoeira com o breaking, a dança de salão com a modernidade do pop.

"Quando eu era pequeno
A molecagem me falou
E a malandragem
Foi quem melhor me ensinou
Por isso eu danço com os pés
Repito com as mãos
Os passos de dança
No beat do meu coração


Abrindo o lado B, a emblemática música "Estação São Bento",faixa que abora a cultura Hip Hop na estação de metrô, com os encontros das crews para os rachas de break, tendo inclusive o icônico sino do mosteiro de São Bento badalando ao fundo. E nessa faixa, nada melhor que a participação dos pioneiro do Hip Hop, participam DJ nos scrateches, junto com Nasí, e Thaide, MC Jack e Anderson Ferreira, do grupo Código 13. Nasí, da banda Ira!, foi o produtor de Thaide & DJ Hum na coletânea Hip Hop Cultura de Rua:

"Na esquina de baixo encontro o pessoal
Com suas armas de sempre
Se enfrentam, disputam
Giros pulos, rabos de arraia
Breques, contorções, Ninguém dança de saia
Atrás do toca-disco o espírito da garagem
O DJ se esmerando nos scratches, mixagens
Fank, rock, hip hop
Samba urbano do Chuí ao Oiapoque"

A faixa seguinte é a dançante "Amigo do Amigo", música muito executada nas rádios da época, que também ganhou vídeo clipe e traz toda a banda em performance impagável enquanto estrala o groove e o grave. Novamente destaque para os instrumentos de sopro, que junto com a rítmica da bateria trazem uma latinidade para a música, que ainda contém scatches e no clipe elementos do breaking:   


Na música oito, mais um funk swingado, "Tudo Chato, Tudo Errado", com baixo estralando, marca registrada do projeto, muito bem executado pela Kiki Vassimon, e letra que aborda o cansaço da rotina e vontade de fugir dos problemas do cotidiano:


"Tem dias que eu acho tudo chato
Tudo corta o meu barato
As pedras entram no meu sapato, ai
Tem dia que eu acho tudo um saco
Tem dias que tudo dá errado
Se chove eu pego um resfriado
Se faz calor fico desidratado
Tem dias que tudo dá errado
Um dia desses me mato"

A penúltima música é a canção "Balanço de Proa", música menos acelerada com pegada jazz e canto falado no estilo rap, enquanto que os refrões são dançantes no melhor estilo soul e funk:

"Meia Boca, transversal, ovens
Boa tença, aducha em pandeiros
Trim e banda, compassar, aprumar
Estai da borda, pé de galinha do eixo
Cabeços, reclamos, almeida
Jardim de popa, reforços locais
Fachinaria, sanefas
Pau de curriola, mordente"

Fechando o álbum, temos a releitura de Jorge Ben, em "África Brasil", que contou com participação do guitarrista André Abujamra que trouxe um peso a mais para a música, voltando a mais para o rock n' roll, mas sem deixar o groove em segundo plano:

"Angola, Congo, Benguela
Monjolo, Cabinda, Mina
Quilôa, Rebolo
Aqui, onde estão os homens?
Há um grande leilão
Dizem que nele há uma princesa à venda
Que veio acorrentada
Junto com seus súditos
Em carros de boi"

Skowa e a Máfia apresentam em La Famiglia um belíssimo disco funky que consegue se comunicar com a sua geração, a de frequentadores dos grandes bailes dos anos 70 e 80, e com a geração que viria a revolucionar a música negra brasileira, a geração pioneira do Hip Hop, que inclusive está presente no álbum. No entanto, La Famiglia não tenta soar o que não é, não adere a batida seca do bumbo e caixa, pelo contrário, se mantém como um grande disco de groove e swing, além disso o disco trás letras sobre o cotidiano do jovem negro e periférico, como bem retrata o filme Lucy Puma: A Gata da Pesada, filme produzido pela TV Cultura e que trás o Skowa como um dos protagonistas e fala sobre a tentativa de artistas jovens, negros e periféricos buscando a acensão pela arte.

Curiosamente, as músicas "Estação São Bento" e "Deus Me Faça Funky" não estão presentes na versão do álbum disponível nas plataformas digitais.

Confira La Famiglia no Spotify:

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