RAS clama Paz Entre Nós, Guerra aos Senhores - Submundo do Som

Breaking

Home Top Ad

Post Top Ad

terça-feira, 26 de novembro de 2019

RAS clama Paz Entre Nós, Guerra aos Senhores


O rapper Ras, de Piracicaba, lança seu álbum de estréia, Paz Entre Nós, Guerra aos Senhores, com 12 faixas o trabalho aborda as relações entre o gueto e aqueles que fazem a manutenção de um sistema covarde, viciado em assassinar pretos e pobres. 

"Nessa guerra, os dois lados sangram e fazem mães chorarem; entender quem é realmente nosso inimigo. Quem tá no poder lucra, enquanto nois se odeia", como afirma Ras

O álbum conta com a participação de Kadu e Filipe Gang e tem um time de diversificado de produtores com SativoBeats, RaulRound, Saci, GusBeat e 444ZN. As gravações foram feitas na Toca de Gigantes pelo Short Beatmaker e a arte pelo Daniel Delvaje e Diego Neder da Docter Sloth

O disco abre com a introdução "Quem Não é Camba", sem beat, só na acapela RAS declama o cartão de visitas do seu álbum de estreia, encovando a força de seus antepassados para que seus contemporâneos resistam a luta cotidiana:

"Acendi uma vela e desci a viela 
 cantando um samba pra espantar os males. 
É o veneno da mamba pelos ares. 
E quem é não camba; essência de Palmares, Zumbi. 
A depressão quis me pega, então sai fora, fui dar um pião. 
Olhei pro céu pra ver estrela, vi o mesmo brilho no olhar da irmã, do irmão."

Na segunda faixa, entra o beat denso para "Paz Entre Nós", um a produção de RaulRond, a música já havia sido apresentada em videoclipe lançado alguns dias antes (veja aqui), nesse rap Ras fala sobre a guerra travada nas favelas, onde só os mais pobres que perdem, independente do lado que estejam:  

"Aborte ideia torta que dá o bote. 
Cego pelo holofote, fecha sua glote atrás dos malote. 
E o pulso ainda pulsa aqui na veia. 
Nos dão migalha e nois se odeia, atrás do requinte na ceia. 
Mofaia e que caia toda ganância e trairagem, as miragem que esvaia, visão além dessa margem. Da imagem, que turva, distorce todo esse quadro 
e contorce naqela curva o corpo negro baleado."

Na música seguinte, "019 É o Terror", com instrumental de SativoBeats, com canto melódico e elementos do trap somados a levada que carrega a letra que fala do interior de São Paulo, mais precisamente a quebrada de RAS na Vila Sônia em Piracicaba e as dificuldades e conquistas de pertencer a cena 019:

"Tirando a paz de quem tá contra nois 
Sejamos sóis que invadem celas 
Sativo no Beat, eu memo na voz 
Pra ecoar em todas as viela 
Acendi outra vela, outro divã 
com a mente sã e o olhar atento 
Luta hoje, vitória amanhã 
um brinde pra nois, povinho eu lamento"

Na faixa "Foda-se o Sistema", beat de Saci, Ras vem mais debochado numa visão séria e sem massagem, sobre as armadilhas que o sistema arma, principalmente para quem é pobre e tem a pele preta, e aqui o papo para tomar cuidado para não cairmos nas arapucas:

"Um forte abraço e um axé... E coragem para prosseguir
O mal cresce se cê teme não trema se o mundo ruir
Castelos e destroços, tá ligado, é tudo nosso, fi
Entre lamas e diamantes, sangue preto sempre jorra aqui
Vish ó só à milhão ali na curva
três pretos, uns milhão e um plano de fuga.
Sem hailla, nem águia, nem porra de blindado
Só praia, um do bom e foda-se o Estado."

Na faixa cinco, Ras vem para "Derrubar Fronteiras", em outra base de SavioBeats que nos contextualiza com os tempos atuais, pela produção com timbres modernos, e a letra, em que o rapper fala sobre as barreiras que são impostas, afim de barrar o progresso dos nossos, mas como o titulo e trecho da música sugere "derrubar fronteiras nos jardins da razão,"

"Também quero dinheiro, gastar com a minha família
o rap é igual o crime: proceder e disciplina.
São 4 da matina, pra muitos ainda é cedo.
É cabulosa a trilha e pra nós não é segredo.
Eu também quero dinheiro, gastar com a minha família;
mas sem vender postura, segui na disciplina.
A vida nos ensina, a cara é seguir sem medo.
É cabulosa a trilha. Poder pro povo preto!"

Seguindo tem o interlúdio "Guerra aos Senhores", novamente só na voz, sem instrumental, a poesia crua de Ras nara as mazelas do sistema, completando as ideias apresentadas até aqui:

"Humildade e disciplina, né... 
Saber chegar e sair sem dar pé. 
Ligeiro com os gambé que na madruga vem forjar 
e com os malandrão demais que, sem postura, vem arrastar. 
A boca fala pra 'carai' e entra mosca, 
chiclete azeda, vira bolsa. 
Olho por olho; eles destravam os ferrolho e fim. 
Síndrome de Caim; irmão mata irmão. "

A faixa sete tem a produção assinada pelo GusBeat, em outro instrumental denso que é posto em contrapartida pelo flow mais suavizado de Ras em "Onde os Fracos Não Tem Vez", abordando as questões de desigualdade social no Brasil, e o fechar de olhos da elite e daqueles que fecham com eles:

"Deixo aquele salve pro leal que sempre somou
Um brinde à vida real que fortificou
Como é que pode, vários sofre o cês acha normal?!
Indiferença é o que arde, doença social
2 mil grau! Ó nois vivão aí bem firme e forte
Rap salva! É, várias vezes já apontou um norte
Sou só mais um, dei mais uns dois pra acender os neurônio 
Iluminar bem o caminho pra eu matar meus demônio"

"No rap "Preto Latino-Americano" em Ras inicia com flow cantado, mais melódico, em cima do beat de trap feito pelo SativoBeats, que em momentos tem a bateria substituída por uma precursão, com os teclados agudos, que trazem a tensão para a faixa que fala da beleza e ao mesmo tempo a dificuldade de ser negro nesse país:

"É poesia de quebrada e hoje tem baile de favela
De Twister na caladam sem cap, subi a viela
Tá tranquilo, pega nada, tiro de giro pra Leste
Pega nada, tá tranquilo, a vida não é um teste
No cabuloso mundãoo, várias fita na cabeça
Não se levar na emoção, aconteça o que aconteça
No cabuloso mundãoo, várias fita na cabeça
Não se levar na emoção..."

Na faixa "Daquele Modelo" Ras faz a conexão 019/081 e traz Kadu para a rima, em beat de trap/funk produzido mais uma vez pelo SativoBeats, e narram o rolê pela noite, que entre a estica, daquele jeito, tem as neuroses que cidade oferta, e sapiência para se esquivar:

"Salve, Kadu, tamo de pião pela Sul
Bola os plano, liga os mano, é nois por nois, moro, meu tru
E ta sussu. Saber chegar e sair é a chave
E com nois é só golaço, nois não bate na trave
Eles destravam no passinho, no ritimo da favela
Bola logo esse fininho e taca fogo sem dar guela
Tá ligado, nois não gela, nem dorme no seus barulho
Tá ligado, pela cor, muito amor e muito orgulho"

"Do You Know" é outra faixa com participação, nessa Ras onvida Filipe Gang para rimar em cima de um instrumental do RaulRound, com a alma do underground nacional, colocando o dedo na ferida do descasco da classe politica e a sobrevivência nas quebradas:

"Na voz eu memo, rap sujo, som de preto até umas hora
Poe pra carburar o bruxo e pau no cu desses João Doria
Vitória pra nós, meu mano, é tá com a família bem 
Tudo vivão e vivendo. De pião no vai e vem 
Tudo que é bom nos convém 
Nem tudo que vem é bom 
Não se deixar abalar, independente da situação
Tá ligado, drão, não mosca não, não mosca não, não mosca não."

Em "Sangue Latino", Ras declara uma poesia que aborda as angústias para aqueles vindos do gueto, repleto de referências a música popular brasileira, a faixa é uma ode a luta latina e compaixão aos que sofrem. O instrumental suave auxilia a transmitir a ideia minimalista e profunda, uma produção de 444ZN.

"Sangue Latino nas minhas veias correm e o pulso ainda pulsa
Os cão latindo enquanto os ladrão corre com sangue na blusa
Os porcos reinam e as favela chora com tanta violência 
Na madruga faz gente inocente clamar pro clemência
Demência desse mundão, segrega nois num tabuleiro
Poder é ilusão do mano que só quer dinheiro
Transforma as relação humana em relação por grana"

E fechando o disco, tem a música "Ouro e Diamante", com base do SativoBeats flertando entre o trap e funk, com referências dos tambores africanos, Ras encerra seu primeiro álbum celebrando, em confraternização com os seus e mostrando a sociedade que nada o vai fazer parar, segue firme elevando a sua gente e a sua cor:

"Doutor, olha só que fita loka 
Suas filha patricinha se encantou nos vida loka
Nego, olha só que fita loka
Esses colonizador acha que nóis tá de touca 
Hoje é dia de lucrar e pode pá nóis na disposição 
É dia de lutar e pode pá nóis na disposição 
Irmão, nóis tá pronto pro arrebento 
Tipo Rosa Parks sigo sem ceder o assento 
Ladrão, pés no chão e contra o vento
Ouça sua razão, mas não esqueça do sentimento."


SIGA RAS INSTAGRAM: https://www.instagram.com/ras.019/ 
Instagram: RAS - @ras.019
Sativo Beats: @lucas_sativo
Short Beatmaker: @rodrigoshort_
Daniel Delvaje: @danieldelvaje
Diego Neder: @diego.neder
Doctor Sloth: @doctorslothbr

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Post Bottom Ad

Páginas