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Sal Crú: Poesia nua apresentada por Isaac de Salú


O poeta Isaac de Salú, que musicaliza seus sentimentos e vivências através do rap, parte para uma nova epopeia com o projeto Sal Crú, inspirado no artista indie Lau e Eu, que lança músicas de seu "lado B", produzidas de forma simples em home estúdio e com uma frequência razoável, como uma forma de não engavetar ideias e mostrar aos fãs todas as linhas pensadas. Assim vem Sal Crú, nome dado pelo amigo Alemar, e que retrata bem a essência do projeto em lançar poesias cruas e ao mesmo tempo viscerais, trabalhos que não seriam lançados em sua trajetória principal, sendo lixo eletrônico em seu PC, como define na faixa de abertura, que reciclou e fez nascer flores.

Sal Crú não é placebo, é tarja preta, medicamento para hipocondríaco, e ajudou Salú em suas crises de ansiedade, depressão e angustias que a rotina lhe trouxe, ajudou a aliviar a carga pesada e externar os mais profundos sentimentos. E desse processo terapêutico de criação Isaac comenta faixa a faixa, de Jefferson para Jefferson, confira: 

O projeto abre com a música "Sr Disney" e nosso poeta expressa, através de todo seu lirismo uma analogia ao controle e o poder que temos sobre nossos atos, ou como Isaac explica: "essa faixa é uma explicação desse projeto, é uma mensagem para o criador, onde o Mickey, personagem central, assiste Os Vingadores sendo comprados, nesse momento que eu estava no hospital, tomando remedio, no andar de internação, a ideia é expressar como estou me sentindo preso dentro de um loop, o tempo passando, eu vendo as coisas acontecerem e não podendo fazer nada, e falo que tenho total controle quebrado sobre as coisas, é sobre estar preso emum momento em que achamos que não vamos conseguir superar e o tempo passa."

"Eu não tenho muito tempo, na verdade
não tenho tempo guardado
tenho o agora e o agora anda trocando os passos
eu sinto o corte feito o sangue que mesmo eu parado
se move em meu corpo eu ainda sangro
mesmo quase voltando ao barro"


A canção dois é "Isso É São Paulo" e Isaac de Salú nos revela uma história muito bonita por trás da música: "quando eu morava no Santa Rita, que é um bairro próximo daqui, numa casa bem pequena e humilde, morava eu, minha esposa e a Nina, uma cachorra já idosa, eu chegava cansado e estressado, com depressão, e ela me acolhia, me dizendo pra ter calma, ter paciência. A Nina tinha alguns caroços na barriga, ela estava doente e eu via ela feliz por que eu cheguei, e eu pensando nisso, ela podia nem acordar mais, mas ela estava ali feliz, ela gostava de subir na laje e ver o por do sol, ela não se importava que estava doente, só queria as coisas simples, e eu procurava aprender com ela, e a música fala sobre desacelerar desse caos de São Paulo".

"Com pés no futuro
esse chão é arreia movediça
com os pés no passado
esse céu é só brisa
minha mente me sabota essa é a fita
pedalando atrás de respostas
quando eu vou parar pra ouvir a Nina?"


Em "Os Hipocondríacos Precisam Fazer Teatro", Isaac mostra um trama particular, que muitos manos também vivenciam: eu falo de várias coisas, mais especifico sobre dois pontos, não só só sobre hipocondríacos, como todos que sofrem de alguma doença psicológica, elas precisam fingir que estão bem, ou precisam mostrar que estão muito mau, dramatizar a parada, ou seja, ou faz o papel que está bem ao sentir uma dor, ou a dor minima é potencializada, pois acreditamos seriamente que possa ser algo grave. Também é uma critica aos médicos que não escutam o que falamos, explicamos e eles não ouvem, e para quem tem transtorno e precisa passar por eles é complicado, queremos atenção, queremos que eles nos olhem, por isso digo que precisamos de um 38 para assassinar médicos arrombados, enfim é um desabafo, por que cansa ser fênix, toda hora ter que renascer".

"pareço que não aprendi nada com a Nina
a vida é tão fácil, ela me dizia
que saudade meu bem
Eeeeeuuuuu
pareço que não aprendi nada com a Nina
Eeeeeuuuuu
eu juro sair dessa com vida"


Na música quatro, "Pombos de Osasco", Isaac vem acompanhado e não esconde: "essa é minha faixa favorita, a Myrella é uma artista muito foda, conheci ela antes dela fazer música e artes para capas de álbum, ela já fez arte para a Nabru, aprendo muito com ela. Ouvia algumas guias delas pelo celular e sempre quis gravar com ela, e nessa música falamos um pouco sobre fé, pedindo proteção no caminho para o hospital, e também podemos dizer que artistas são como pombos, ratos que voam, um animal sujo que está no centro, nas ruas, a vistas de todos, afrontando, e os ratos comum vivem escondidos, os playboys querem que vivemos escondidos, mas a arte nos dá asas, é uma musica que referencia os artistas de rua".

[Myrella]
"Eles botaram fé nos meus corres
me emprestaram suas peles
e eu senti na pele
vi o corpo negro do meu pai jogado no chão sangrando
como Jesus Cristo"

[Isaac de Salú]
"me revirando nas esquinas dos hospitais
onde bato meus crachás
onde perco meus sachês de chás
cada dia é um mate leão diferente
eu tenho síndrome do urgente
em busca do céu expoente"


A faixa cinco é a belíssima canção "Linhas Chilenas", onde Salú se transforma numa pipa poética, ou como comenta: "eu acho que é meu beat favorito do álbum, usei sample de Lau e Eu. é uma faixa romântica, que na verdade fala de um fim de relacionamento, em que a personagem não sabe se fica ou se vai embora, não sabe se o relacionamento terá um fim ou um recomeço, e a analogia as pipas vem de uma nostalgia da época de infância. A música também dá uma quebrada no álbum saindo da temática hipocondríaca. A foto, é de um momento em um motel, segunda vez que fui em um, foi a primeira que fui para transar, já que na outra ocasião estava sozinho, perdi o trem na volta de um show e dormi no motel".

"Você
é aquela peixinha
que cruza minha linha
eu todo arraia
não me dou conta
era xilena
tô mandado e ninguém corre atrás
que merda de pipa eu sou caralho?


Fechando o Sal Crú, a faixa "Você Tem Saúde, Tem Que Viver,Olhe O Vento, Sobrevivi", um áudio da mãe de Isaac em cima de mais um beat produzido por ele. Os sábios conselhos de mãe se transformaram em poesia, e como Salú descreve: "puxando a orelha do jovem de hoje em dia, que estão muito online, fala pra gente olhar a natureza, eu acho até engraçado ela falando que olhar vento, ela fala que quando era pequena sai para ver as formigas, a natureza, numa simplicidade vejo minha mãe falando sobre isso":

"tire um tempo pra você dormir
tire um tempo pra você cuidar da sua mente
eu vou desligar meu celular de hoje em diante
vou sair um pouco das redes sociais
eu vou dormir um pouco
vou descansar minha cabeça,
vou descansar minha mente,
eu vou educar minha mente"


O Submundo do Som perguntou sobre o lado produtor, que podemos observar melhor aqui no projeto Sal Crú, e Isaac responde: "Eu faço beat há bastante tempo, a primeira música do Isaac de Salú já foi em um beat meu, a música "Violeta" é uma produção minha, o que acontece é que quase sempre não fico satisfeito com os meus beats e por isso abro para outros produtores que admiro e que fortalecem com a produção. Para Sal Crú eu usei meus beats que estava aqui parados, foi uma forma de aproveita-los".

Também perguntamos sobre o fato desse ser o volume 1, e quais as expectativas para a continuidade do projeto, e Salú discorre: "O projeto Sal Crú nasceu para ser varias edições, sem limite, o céu é o limite, o que penso é em não fazer mais tudo sozinho, foi legal produzir esse volume sozinho, com um auxilio do Matheus Queiroz, que ajudou nos videos, mas para os próximos quero contar com colaboração de outros produtores para trazer uma nova textura para o projeto". Sobre a previsão de lançamento de um novo volume, o poeta ainda não tem uma data certa, mas crê que entre fevereiro e março.

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