Entevista | Martín A. Biaggini autor do livro RAP de Acá - La História del Rap En Argentina - Submundo do Som

Breaking

Home Top Ad

Post Top Ad

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Entevista | Martín A. Biaggini autor do livro RAP de Acá - La História del Rap En Argentina




O Submundo do Som trocou uma ideia com o professor de história e pesquisador do Hip Hop Argentino, que também é diretor tecnico de cinema, dentre muitas outras funções, o escritor Martín Alejandro Biaggini, autor do livro Rap de Acá - La História del Rap En Argentina, primeira obra publicada no país a abordar a cultura Hip Hop, nesse papo Martín fala sobre o livro, que conta a história dos primórdios do rap em sua terra, sobre as continuações que pretende lançar, projetos de tradução de sua pesquisa, e falam um pouco do processo e das dificuldades que encontrou no percursso de concepção da obra. Então prepare seu mate e se liga: 

Submundo do Som - Antes de tudo, muito obrigado pela disponibilidade e bater esse papo com o Submundo do Som. Por favor, comece a se apresentar aos nossos leitores, quem é Martín Alejandro Biaggini?


Martín - Martín Biaggini é um “Pibe de barrio” (como dizemos na Argentina). Nunca deixo de ser. Minha profissão de professor universitário me levou a percorrer outros caminhos, mas a essência continua a mesma. Hoje, como pesquisador meu objeto de estudo são os bairros, as pessoas comuns, nossas práticas e nossa arte.


Submundo do Som - Como surgiu a ideia de pesquisar e escrever o livro "Rap de Acá - La História del Rap en Argentina"?


Martín - Eu estava trabalhando com poetas dos subúrbios de Buenos Aires, poetas do submundo da "literatura oficial" e surgiu uma pergunta: não há poesia nos bairros de periferia? E ali percebi que o rap era a maneira poética que muitos jovens periféricos tinham para contar o que estava acontecendo com eles, para projetar sonhos e etc. Lá me apaixonei pelo rap.


Submundo do Som - Durante o processo de pesquisa, qual foi a maior dificuldade que você encontrou para levar a história do rap argentino ao público?


Martín – Quando se inicia uma pesquisa, existe uma etapa chamada “estado da questão”, que consiste em procurar publicações anteriores sobre o assunto, para verificar se o tema já foi analisado ou estudado em algum outro projeto. Um dos problemas que vi, foi que quase não havia nada escrito sobre a história do rap argentino. Não consegui procurar informações em outro livro. Havia apenas algumas notas em jornais, alguns blogs temáticos, e eles sempre abordavam os mesmos tópicos. Então decidi iniciar uma pesquisa sobre as origens do rap na Argentina. O primeiro passo foi arquivar (revisar jornais, revistas especializadas, folhetos de eventos e etc.),  o segundo passo, foi começar a entrar em contato com os artistas da cena do rap e entrevistá-los. Muitos deles não estavam mais ativos, por isso era muito difícil localizá-los.


Submundo do Som - O hip hop na Argentina, como na maioria dos países latino-americanos, foi estabelecido em meados da década de 1980, mas em solo argentino teve um desenvolvimento mais lento, como por exemplo com o primeiro livro sobre o rap argentino sendo publicado apenas em 2020, mais de 30 anos depois que o país conheceu a cultura e seus princípios. Na sua opinião, a que se deve esse fato?

Martín - Eu não acho que o rap argentino tenha custado tanto para se desenvolver, mas foi mais realmente foi lento, e isso se deu, em princípio, à falta de informação. A década de 1980 deu origem ao rap local, e nesse período quase ninguém sabia nada, nem sobre rap nem Hip Hop. Cada um dos que chamamos de “Vieja Escuela” (os pioneiros) teve que aprender, descobrir, quase que artesanalmente, como era o rap. Não havia referências para se apoiar ou se inspirar. Apenas discos (muito poucos), videoclipes e filmes provenientes dos EUA. Então, nos anos 90, digamos que o rap argentino nasceu, e que o governo neoliberal que existia na época abriu as fronteiras para as importações, e a falta de material que reinou nos anos 80 mudou notavelmente. Registros, revistas e outros materiais importados podiam ser comprados em famosas lojas de discos de Buenos Aires, por exemplo. Mas a falta de espaços para tocar e altos custos para gravar impediram que o rap recém-nascido tivesse uma adolescência bem-sucedida. Embora existam inúmeras gravações de grande prestígio, muitas cassetes demo, em partes, por algum motivo o mercado (que às vezes legitima ou decide que é gravado, vendido e escutado) sempre dava mais importância a um gênero musical do que aqui é conhecido como rock nacional. Dessa forma, o rap se desenvolveu muito marginalmente na Argentina e, apesar de haver experiências comerciais isoladas (edição do álbum Club Nocturno em 1989, as compilações Nación Hip Hop 1 e 2 no final dos anos 90 e o Grammy Latino vencido pelo Sindicato Argentino de Hip Hop em 2001), o mercado de música e entretenimento não terminou de investir nesse gênero como em outros.

Capa e contra-capa do livro Rap de Acá -La História del Rap en Argentina


Submundo do Som - Como você vê a cena do Hip Hop na Argentina hoje, principalmente quando comparada à fase inicial da cultura no país?


Martín - Eu acredito que hoje existem várias cenas, não somente uma. Houve uma grande mudança em 2005 com o surgimento da Internet 2.0, as redes sociais, YouTube e a democratização da tecnologia. Hoje, qualquer MC pode gravar, produzir, filmar e distribuir e, em muitos casos, até monetizar sua produção. Hoje, um rapper não precisa de uma banda ou DJ para criar seu instrumental, os beatmakers aparecem em diferentes bairros, a venda de beats viralizou na Internet, quebrando as fronteiras nacionais, assim como o uso de bases livres como estímulo para incentivar muitos.


A absorção do mercado naquilo que foram “Las Batallas de los Gallos” (freestyle) fez popularizar o rap entre os mais jovem, como acontece hoje com o trap, como gênero de música urbana relacionada ao rap, que os mais novos abraçaram.


Submundo do Som - Como você vê a relação entre a mídia argentina e o Hip Hop? Os rádios, jornais, revistas ou sites prestam atenção à cultura e seus elementos?

Martín – Meios de comunicação como uma massa homogênea não existem. Existem mídias hegemônicas (ou comerciais), independentes ou underground. Os primeiros se baseiam no que o mercado dita. Muitos jornais são de propriedade das mesmas empresas fonográficas e outros atuam por interesses comerciais. É muito difícil para a mídia hegemônica dar espaço ao rap alternativo. Por outro lado, existem revistas, programas de rádio, redes sociais, grupos de troca de informação entre militantes do Hip Hop local, e eles alcançam o jornalismo de alto nível. Acho que se alguém está muito interessado em aprender sobre o rap argentino, não precisa ler revistas de renome, jornais de grande circulação ou meu próprio livro (sim, sim, você leu bem!). É necessário procurar nas rádios argentinas programas que há anos militam em prol do Hip Hop.


Submundo do Som - Sobre o livro "Rap de Acá – La História del Rap en Argentina", existe um projeto para o volume 2 da obra? Fale um pouco sobre isso e como você planeja dividir os períodos?


Martin - A pesquisa cobriu toda a história do rap na Argentina, na verdade, em Buenos Aires e arredores, e peço desculpas por isso na primeira página do livro, o material acumulado foi muito importante, então decidimos dividi-lo em 4 volumes, e cada um corresponde a um determinado período histórico. O primeiro de 1982 a 1992 (período em que o que chamamos de “Vieja Escuela”, quando o rap argentino nasceu e se consolidou, o segundo volume abrangerá de 1993 a 2005, o terceiro chamamos de Rappers 2.0, abordará de 2005 até o presente, e um último volume abordará como o rap se desenvolveu em diferentes regiões da Argentina.


Submundo do Som - Martín, e a tradução do livro? Existe um projeto para transformar o livro em uma obra universal, em outras línguas?


Martín – Sim, existe um projeto para sua tradução para inglês e português. Mas, por enquanto, tudo foi interrompido, já que o livro impresso ainda não foi posto à venda nas livrarias da Argentina. A quarentena interrompeu a impressão e não temos uma previsão, por isso a distribuída foi apenas digital, em ebook, nos EUA e na Europa sob a plataforma Amazon (Kindle) e na Argentina e América Latina sob a plataforma leviatan.app.publica.la.


Submundo do Som - Quais são suas considerações finais?


Martín - O livro tem dois luxos absolutos para mim: por um lado, o prefácio escrito pelo Juan Data, jornalista especializado em rap, atualmente vivendo na Califórnia. Por outro lado, uma trilha sonora própria, o grupo ATR (Argentina Tango Rap), formado pelos irmãos Rucci (ex-integrantes da banda de rap de 9mm) e Smoler (ex-integrante do Sindicato Argentino de Hip Hop) lançou uma música inspirada no livro, chamada "De Pibes", um luxo total. A música pode ser conferida no YouTube. (ou abaixo):

 Música "De Pibes", do grupo ATR (Argentina Tango Rap


Submundo do Som - Para quem deseja acompanhar seu trabalho, saber novidades sobre o livro, quais são seus canais de comunicação?


Martin - Publico fotografias da história do movimento Hip Hop argentino, em preto e branco, em minhas redes sociais, quem quiser pode acompanhar por lá: facebook.com/mbiaggini ou Instagram: martinbiaggini.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Post Bottom Ad

Páginas