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THAIDE E DJ HUM | ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE


Infelizmente em 2021 temos mais tempo de Thaide e DJ Hum em carreiras solos que de Thaide & DJ Hum como a dupla pioneira que sacudiu a estrutura da música com canções que têm o Hip Hop na veia. Altair e Humberto se encontraram no final dos anos 80 em uma boate, um não sabia fazer scratches e o outra não sabia rimar direito, se juntaram e formaram a maior dupla de MC e DJ do Brasil.

 

Em 1988 participaram da coletânea Hip Hop Cultura de Rua com duas faixas “Homens da Lei” e “Corpo Fechado”, essa última sendo um grande sucesso nas rádios. No ano seguinte lançaram o primeiro álbum cheio, Pergunte a Quem Conhece, com produção do Nasí e André Jung, vocalista e baterista da banda Ira! A partir daí lançaram clássicos e mais clássicos, verdadeiros hits do rap nacional, entre eles “Sr. Tempo Bom”, de 1996, lançado no disco Preste Atenção (clique aqui para ver um texto sobre as referências usadas nesse som).

 

Porém na virada do milênio a dupla decide por se separar, cada qual seguiu seu caminho a partir do ano de 2001. Antes de decretarem o fim da parceria, a dupla lançou seu último álbum: Assim Caminha a Humanidade, o sétimo e último disco de Thaide & DJ Hum, gravado pela Trama, sob o selo Brava Gente, numa iniciativa dos próprios artistas.

 

Recheado de participações especiais o trabalho contou com Sabotage, Xis, Randal, RZO, SNJ, Rogério RK, Dr Mall, Lino Krizz, Silveira, Gil, SP Funk, Chico César, Nelson Triunfo, Marcelo D2, Max B.O., Paulo Napoli, Kamau, Ieda Hills e Paula Lima. Com produção de Thaíde e DJ Hum o álbum, ao longo de suas 17 faixas, trouxe a essência do hip hop, com letras que defendem com unhas e dentes a cultura e seus adeptos.

 

O álbum apresenta ao menos duas faixas de muito sucesso, “Ninguém Sabe” e “Apresento Meu Amigo” foram bem executadas nas rádios com programação voltada ao rap. Inclusive, essa última ganhou vídeo clipe vinculado a grade da MTV.

 

 

Um diferencial do álbum são as vinhetas que deram espaço para rappers, até então não muitos conhecidos, como o lendário Sabotage. O Maestro do Canão dá um salve na “Vinheta 3”, em uma de suas primeiras gravações como rapper: “Mão pra cima, segue a rima e na moral, do subúrbio surge um negro que não fala, manda um som”.

 

A música de número quatro é uma das mais bonitas e tristes do álbum, “Anjos da cara suja” é uma canção que propõe reflexão sobre a situação das crianças no Brasil. A base instrumental é uma das mais bonitas do disco, contendo sample de “Thoughts of Old Flames”, da banda de Portland, o Pleasure, em música lançada em 1979 no sugestivo álbum Future Now.

 

Ninguém sabe, ninguém viu, aquele mano chegou atirando, bai, caiu!”, uma das mais clássicas linhas da clássica dupla, nesse som Thaide & DJ Hum abordam a violência gratuita nas quebradas, os acertos de contas, a cabreragem e tudo que engloba ecossistema fatal da periferia. A dupla se apresenta como cronistas de uma realidade rustica e crua, e lavam para um público maior os acontecimentos dos guetos brasileiros.

 

Thaide e Humberto recebem o RZO, na voz de Sandrão e Helião, que retribuem a visita que a dupla fez no álbum Todos São Manos, de 1999, além da Rapaziada da Zona Oeste, a música “Assim caminha a humanidade” tem participação dos rappers Xis e Sombra.

 

“Apresento meu amigo” é uma faixa que usa de bom humor para falar de um assunto triste e sério, o consumo de crack, aqui Thaide fala de uma personagem consumida pelo vício e suas mancadas pela quebrada. Em “Fúria verbal” Thaide mostra suas habilidades como rimador e MC, e faz uma provocação ao tal “movimento rap”, e versa sobre o distanciamento do rap para com os demais elementos da cultura Hip Hop, e tece criticas ao pseudo movimento rap e a soberba de seus integrantes, como nas linhas:ao criticar os rappers que não têm compromisso com a comunidade e a cultura e acentua: “Mandei a rima com Bambaata e Soul Sonic Force / Mais que nunca em minhas veias está o Hip Hop / Com muito breaking, graffiti, beat box, MC, scratch”.

 

Em “Desafio no rap embolada”, Thaide trava uma batalha com outro pioneiro, dessa vez ninguém menos que o pai do Hip Hop Brasileiro, Nelson Triunfo. Se no avançar da década de 2000 as batalhas de rima ficaram em evidência, a gênese da cultura no nosso país se enfrentou nesse duelo que misturou rap com embolada e contou com a mediação de outro gigante: Chico César. Depois de ofensas (no clima amistoso), a dupla celebra a paz no final da música. Para quem não tá ligado, Nelsão, além de b.boy também é MC, sendo uma das vozes do grupo Funk & Cia, e representa um período em que os adeptos do Hip Hop dominavam ao menos dois elementos, assim como Thaide, que antes de rimar, dançava pelas ruas da capital paulista.

 

Outra faixa de destaque é “Viagem na rima” uma espécie de de cypher, antes do termo ser popular no Brasil. Aqui rimam um time de peso: Thaide, Max B.O., Tio Fresh, Marcelo D2, Napoli, Mr. Bomba, Maionese e Kamau, sobe o comando de DJ Hum. Em “Febre do hip hop” acontece uma parada da hora, comum no Hip Hop internacional, mas pouco explorado no rap brasileiro, o DJ rimando, aqui Hum manda algumas linhas, enquanto Thaide, ao fundo, saldo se disc Jockey.

O disco se encerra com um soul-rap com Thaide em parceria com as vozes de Ieda Hills, Linno Crizz e Paula Lima, além de participação de Silveira.

 


Assim Caminha a Humanidade é um álbum subestimado e pouco falado nas rodas sobre discos épicos, mas com certeza trata-se de uma grande contribuição de Thaide & DJ Hum para a música brasileira e aponta o maturidade que o duo atingia naquele momento, tanto com a aprimoração das bases instrumentais como na lapidação do discurso, sempre forte, político e contundente, além de também abrir o leque de relações da dupla com o Hip Hop, nesse trabalho a inúmeras participações dando a voz ao longo das 17 faixas, mas nos bastidores esse número é no mínimo dobrado, o pesar é que o rap brasileiro pouco cuido de registrar a contribuição dessas pessoas, tornando bem difícil missão de creditá-las. 

 

Assim Caminha a Humanidade é uma obra que marca a transição das décadas de 1990 e 2000, o rap gangsta e pesado é visto neste trabalho, assim como as faixas descontraídas, e nem por isso deixam de ser sérias, característica que marcou o underground do rap nos primeiros anos do novo milênio. O disco traz um clima nostálgico e é icônico por ser o último disco da dupla, um recorte de uma época incrível do rap e Hip Hop nacional.

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