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Entrevista | Ocean Key: Um mergulho profundo em águas remotas

Separados pelo Atlântico, Brasil e França têm muitos pontos em comum, podemos listar vários que vão da culinária a paixão pelo futebol, dos clássicos da literatura a boemia, dos coletes amarelos aos black blocs (de outrora), mas o que recentemente chamou a atenção na conexão entre essas duas culturas é o projeto musical Ocean Key.


Em maio de 2021 o primeiro disco do duo Bas-Fond e Nova Cleret ganhou o mundo através das plataformas digitais. O álbum homônimo ao projeto traz influências e inspirações que os artistas têm em comum, como por exemplo Nine Inch Nails, Tricky ou Portishead, além é obvio de Massive Attack. O trabalho é uma imersão no experimentalismo, vasculhando as regiões abissais líricas ao mesmo tempo que navega por questões cotidianas. Ocean Key é um disco chave, pois abre uma infinidade de possibilidades que parecem um profundo mergulho em águas remotas.


O resultado desse trabalho você confere abaixo, assim como os lyric vídeos dos singles lançados antes do disco, mas antes de dar play é importante que saiba que essa obra foi feita sem muitos recursos, mais na vontade e amor a música do que qualquer outra coisa. Em tempos tempestuosos de pandemia, o trabalho foi inteiramente feito de forma remota, cada integrante em seu país, em seu quarto. Ainda contou com a participação de outra dupla, os colombianos do Losaquis, os irmãos Alejandro Gonzáles e Daniel Gonzales contribuíram com algumas linhas de guitarra.


Da Europa vem a atmosfera de purificação, bucólica, das folhas caindo e a brisa suave como as batidas de trip hop e downtempo, que norteiam a produção do disco, e que se encontram com as areias brasileiras e o clima quente do sul da América, com o dub e a percussão. O epicentro do encontro são as grandes cidades, a música urbana, a new wave e o industrial, em um bailado com o sombrio e elegante ao som de melodias serenas e marcantes, tão profundas quanto a experiência do disco.


Às vezes parece uma tarde alegre de drinks com amigos na praia e de repente você é arrastado para um abismo frio e sombrio. Mas de ambas as formas é algo novo e muito viciante. E para uma experiência completa, trocamos uma ideia com Bas-Fond e Nova, nada melhor que a visão dos artistas sobre a obra trazida por boas marés:


Submundo do Som - Primeiramente se apresentem, quem é e o que é o projeto "Ocean Key"?


Mario - Meu nome é Mario, também conhecido como Siloque ou Bas-Fond. "Ocean Key" é um projeto franco-brasileiro idealizado por mim e pela Nova. Eu sou responsável por todos os instrumentais e Nova por todas as letras e vozes.


Nova - Meu nome é Nova. Eu sou uma cantora e compositora francesa. Eu escrevo letras, melodias vocais e harmonias para os instrumentais de Mario.


Submundo do Som - E como um produtor brasileiro conheceu uma cantora e compositora francesa? Como rolou essa conexão e nasceu o Ocean Key?


Mario - Certa vez, em um grupo de Trip-hop do facebook, um rapaz postou uma música que havia produzido em parceria com a Nova. Eu ouvi o som e, como um grande fã de trip-hop, pirei muito na voz e no jeito único dela de cantar. A princípio a convidei para participar de uma música do meu outro projeto, o "Bas-Fond". A gente gostou tanto do resultado que em setembro de 2020, apenas um mês após o lançamento de "Cold Summer" (Título da música em que trabalhamos juntos) demos início às atividades do "Ocean Key".


Nova - Após ter gravado uma parceria com meu amigo Léo na música “Birdcage”, Léo postou essa música no grupo de facebook “Trip-hop lovers”. Mario ouviu e me convidou para participar de uma música do seu projeto “Bas-Fond”. No fim das contas, fizemos 3 (Duas, mais uma participação em “Allen Iverson”). Obviamente nós nos damos bem, tanto artisticamente, como humanamente, e assim nasceu nosso projeto “Ocean Key”.


Submundo do Som - O disco Ocean Key tem pluralidade musical dentro de um mesmo tempero, com bastante influências da cena inglesa como trip hop, new wave e industrial e do continente americano como o dub, o pop e o rock. Quais foram as influências e como foi sintetizar tudo isso nos instrumentais do álbum?


Mario - Quanto às influências em comum posso citar Tricky, Massive Attack, Portishead, Nine Inch Nails, Deftones, entre outras. Quanto aos instrumentais, produzi sem me preocupar com rótulos ou gêneros. Simplesmente foi fluindo. Sobre essa pluralidade musical, acredito que esse primeiro álbum tenha saído dessa forma por que ainda estávamos construindo nossa identidade. Agora, depois de treze músicas produzidas em parceria, estamos mais entrosados e posso garantir que em nosso próximo trabalho o corte será mais preciso, mais cirúrgico... Outra coisa que posso garantir é que "Ocean Key" nunca gravará o mesmo disco duas vezes.


Nova - Não começamos a produzir visando um gênero específico, e mesmo que o álbum seja eclético, nosso estilo “tropical frio” é facilmente reconhecível. A voz tem seu som particular e os instrumentais também são distintos e fáceis de serem reconhecidos.


Submundo do Som - Além dos recursos e aporte financeiro, qual a maior dificuldade para produzir um disco totalmente DIY e seguir fiel ao conceito, sem se desviar e optar por comodidades e caminhos para agradar o mercado e não os amantes de música?


Mario - Exceto pelos recursos limitados, não encontramos muitas dificuldades em construir um disco exatamente da maneira que imaginávamos. Nossas referências são parecidas e a admiração pelo lado sombrio da arte ajudou bastante também Nós nos damos bem, tipo um irmaozão e uma irmãzinha com os mesmos interesses.


Nova - O que mais “desviou nossa atenção” é que nós nos dispersamos muito facilmente em nossos gostos eclético e, também, por ser um projeto novo. Nós fizemos isso instintivamente, seguimos nossos caminhos artísticos mais óbvios e encontramos uma identidade mesclando nossas várias influências e obedecendo às nossas aspirações. Nós não criamos nossa música pra ela “dar certo”, claro que nós queremos isso, mas não é essa a origem de nosso dinamismo. Nós criamos nossa música por que temos muito a expressar. Mas, ainda queremos ser ouvidos e é por isso que não o fazemos de forma totalmente experimental; a gente tenta manter nossa música “pop”, com refrãos e riffs facilmente memoráveis e fazer com que nossos ouvintes se sintam à vontade com ela.


Submundo do Som - As letras foram todas compostas pela Nova certo? De onde veio a inspiração para escrever essas crônicas sobre o mundo que habitamos?


Nova - Eu sou uma pessoa que está sempre pensando e analisando tudo. Eu sinto, eu vejo, eu escuto, etc... Isso é apenas uma consciência interpretativa e descritiva do mundo externo e do meu eu interior. Eu preciso fazer grandes esforços para enxergar as coisas da forma simples que elas são. E essa consciência tem um limite tão distante que as interpretações podem se tornar completamente malucas. E eu acredito na minha imaginação. Tenho uma percepção particular do mundo e é isso que gostaria de oferecer com minha arte. Quero que as pessoas deixem de ver o mundo da forma que elas estão acostumadas a ver.


Submundo do Som - As letras trazem reflexões sobre o cotidiano e dialogam com anseios e inquietudes do ser humano, principalmente dos jovens, como ouvimos em "Cataleptic Youth". Nova, qual mensagem você deseja passar com o seu texto e como gostaria de tocar as pessoas através da música?


Nova - Primeiramente, “Cataleptic Youth” não é uma música sobre jovens. Todos nós somos jovens e todos nós somos velhos, só depende para o que. Não é uma música sobre idade, mas sobre uma parte de todos nós. A mensagem passada por ela, como as de todas as outras, é da preocupação de todos. Eu quero ser compreendida, eu quero que eles saibam que todos nós vivemos sob o mesmo céu e caminhamos sobre o mesmo concreto ou grama. Eu quero que eles encontrem a si mesmo dentro de mim; Eu quero que eles se sintam familiarizados comigo. Por outro lado, quero que eles se sintam confrontados por outra forma de enxergar o mundo interior e exterior - caso a interpretação deles seja diferente da minha -, assim como eu gostaria de ser confrontada pela forma deles de enxergar, se eu pudesse, pois ser confrontado por coisas que você não conhece ou enxerga de maneira diferente, é uma coisa muito boa. E sobre os “anseios e inquietudes do ser humano”, esse é de fato o assunto principal, especialmente minha relação com humanos e com o mundo exterior. Eu leio bastante filosofia, o que influencia minhas letras. Assim como eu gasto tempo analisando a mim e às minhas atitudes, eu crio motivos para obter resultados de meu constante pensar. E eu gosto de cantar minhas reflexões porque eu quero compartilhar meus resultados. Claro que os anseios humanos cantados em minhas letras são os meus também, mas eu me coloco como um objeto de reflexão. Eu me torno algo mais do que “apenas eu”, e meus pensamentos se transformam em algo que pode ser estudado. Minhas músicas são meu diário e, supostamente, é para ser particular, mas eu quero compartilhá-lo com meus ouvintes porque eu gostaria de me aproximar deles e porque minha arte é a tradução da minha alma. E eu sou uma pessoa autêntica, então eu vou traduzir tudo o que acontece dentro de mim.


Submundo do Som - O downtempo, uma das principais influências, ainda não é um estilo musical popular no Brasil, ouvido pelas massas, e o Mario está com um programa no rádio voltado para esse gênero né? Comenta um pouco sobre esse projeto.


Mario - Sim, esse projeto é o "Dá um Tempo", que vai ao ar à uma da manhã, na madrugada de sexta para sábado na www.mutanteradio.com. "Dá um Tempo" começou como um programa para tocar trip-hop, mas acabou acolhendo um leque muito maior de gêneros musicais, do jazz ao industrial, do dub à Cumbia e por aí vai. E é um programa sem muitas falas, no máximo tem o artista apresentando o próprio som, de resto, é só música.


Submundo do Som - Finalizando, Nova, por favor, mande um recado para o público do Brasil.


Nova - Obrigado a todo mundo que nos apoia. Estou muito de feliz de ser ouvida no país lindo de vocês. Fiquem atentos às novidades.


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